Município de Santos promove estudo para adquirir sistema de transporte em bonde da “City”

Em 1950, a concessão para a exploração do serviço de transporte coletivo de passageiros em bondes, na cidade de Santos, estava chegando ao fim. Era o ponto final de uma história de quase 70 anos entre a empresa de origem inglesa “The City of Santos Improvments Co. Ltd (C.S.I.C)” e o meio de locomoção mais popular da cidade santista em todo este período. Na época, a pergunta que ficou no ar aos santistas era: Havia a possibilidade para a renovação da concessão? A reposta era: Sim, porém os proprietários da “City” não desejavam prolongar o sofrimento da empresa na exploração de um sistema que vinha acumulando prejuízos nos últimos anos em decorrência da disputa de espaço nas ruas e passageiros com os ônibus, veículos que se mostravam mais versáteis e vinham dominando aos poucos as vias da cidade desde meados da década de 1920.

Diante do fato e do risco da paralisação dos serviços, a municipalidade, atenta à situação do transporte de passageiros (apesar dos ônibus estarem tomando conta da cena viária urbana, ainda eram insuficientes para atender toda a demanda), como também a dos empregados da concessionária, decidiu solicitar autorização à Câmara Municipal para elaborar um estudo de viabilidade com o objetivo de adquirir (encampar) o setor de transporte em bondes da “City” (vale dizer que a concessionária também atuava nos serviços de distribuição de água, luz e gás). Em 21 de dezembro de 1950, a Câmara, após longas discussões, decretou a Lei 1.167, sancionada e promulgada pelo então prefeito, Sócrates Aranha de Rezende, autorizando a municipalidade a promover os tais estudos. Em 11 de janeiro de 1951, foi publicada, então, a portaria nº 10, que constituiu uma comissão para a realização dos trabalhos necessários visando a orientação e execução da Lei, com 60 dias de prazo para tal feito. Foram designados para a missão: Mário Leão (presidente da comissão), Cyro de Athaíde Carneiro (ex-prefeito – 1938/1941), José Aflalo Filho, José Garcia da Silveira e Edison de Oliveira Santos.

O resultado dos estudos foi bastante meticuloso, com toda a descrição do acervo patrimonial do setor de transporte da “City” (via permanente, linha aérea de contato, equipamentos de sinalização e auxiliar de tráfego, material rodante, subestações, sistema alimentador, móveis e utensílios, máquinas e ferramentas, materiais em estoque para construção e manutenção do sistema, e os imóveis utilizados pelo serviço de bondes). Também foi promovido o levantamento dos recursos humanos empregados no sistema. Ao final, o estudo gerou um relatório de três volumes (mais de 500 páginas).

A conclusão que se chegou foi a de que o serviço de bondes, uma vez transferido para a municipalidade, constituiria, o núcleo inicial básico do sistema de transporte público gerido pela Prefeitura, por meio de uma autarquia a ser criada, “com ampla autonomia administrativa, técnica e econômico-financeira, que lhe permitisse arcar com as responsabilidades da coordenação geral dos serviços de transportes coletivos em toda a área da Ilha de São Vicente”. A ideia básica era integrar os bondes com os ônibus e outros meios oferecidos na cidade.

Alguns meses depois, em 21 de dezembro de 1951, às 13h30, em seu gabinete, o prefeito assinou a escritura de compra do acervo do serviço de bondes da C.S.I.C., entregando ao então diretor da empresa, sr. Henry Thomas William Pilbean um cheque no valor de CR$ 4.124.285,00 (o equivalente hoje a R$ 16,5 milhões), referente a uma parcela das prestações firmadas entre as partes. Em janeiro do ano seguinte nascia o S.M.T.C. (Serviço Municipal de Transporte Coletivo), que comandaria o sistema por alguns anos.

No resumo do relatório, foram apontados:

VIAS PERMANENTES (trilhos, incluindo os desvios)

Santos – Linha Singela – 37 km
Santos – Linha Dupla – 22 km
São Vicente – Linha Singela – 5 km
São Vicente – Linha Dupla – 2 km

LINHAS AÉREAS DE CONTATO

Santos e São Vicente – 93 km
Incluiu-se no estudo os suportes (postes) e toda a fiação, avaliada por tipo (fio ranhurado ou redondo, feitos de cobre duro ou liga de cádmio)

EQUIPAMENTOS DE SINALIZAÇÃO E AUXILIAR DE TRÁFEGO

Foram incluídos no estudo os sinais de bloqueio e da rede de alimentação, além dos sinais de parada dos carros e de sinalização de tráfego:

Sinais de Operação Automática – 11
Sinais de Operação Manual – 4
Dispositivos de Contagem e Sinalização Automática – 2
Sinais de Parada Suportados por Braços – 46
Sinais de Parada Suportados por Tirantes – 410

MATERIAL RODANTE

Bondes de 45 lugares (abertos) – 75
Bondes de 60 lugares (abertos) – 62
Bondes Articulados de 96 lugares (abertos) – 2
Bondes Reboques com 28 lugares – 21
Bondes Reboques com 32 lugares – 26
Bondes Reboques com 60 lugares (Gôndolas) – 33
Bondes de Carga Geral – 12
Bondes de Carga Bagagem – 2
Bondes Reboques de Carga – 12
Bonde de Socorro – 1
Bonde Vagão Pipa para Irrigação – 2
Bonde Torre (Manutenção de Vias Elétricas Aéreas) – 2
Bonde com Esmeril para Trilho – 1
Total de Bondes da City – 251

SUBESTAÇÕES

Subestação da Vila Mathias (Rangel Pestana)
Subestação de São Vicente (Estação dos Bondes)
Subestação Capinzal (Rua Itapura de Miranda)
Subestação do Macuco (Rua Conselheiro João Alfredo)
Subestação da Rua Antônio Prado

SISTEMA ALIMENTADOR

Neste item incluem-se as cruzetas de madeira e pertencentes respectivos montados nos postes da City, São ao todo:

Cruzetas de Madeira – 61
Isoladores (diversos tipos) – 4.537
Chaves Desligadoras – 21
Para-raios – 12
Cabos Condutores de Cobre – 95 km
Cabos Condutores de Alumínio – 32,8 km

MÓVEIS E UTENSÍLIOS, MÁQUINAS E FERRAMENTAS

Apesar de verificar a idade bastante avançada da maior parte do mobiliário, a comissão reputou como “em ótimo estado” a situação dos materiais encontrados. A relação é muito extensa para publicarmos aqui.

IMÓVEIS

Foram avaliados todos os terrenos e construções utilizadas pelo setor de transportes da “City”, como, por exemplo, a oficina da Vila Mathias, avaliada em mais de Cr$ 9 milhões (ou R$ 45 milhões nos dias de hoje).

QUADRO DE FUNCIONÁRIOS

A Prefeitura também assumiria o quadro de funcionários, constituído por 1.154 pessoas. Entre os cargos com maior número de ocupantes estavam:

Condutor de Bonde – 361
Motorneiros de Bonde – 243
Ajudantes da Via Permanente – 151
Trabalhadores da Oficina – 127
Fiscal de Bonde – 105

O curioso é destacar que o levantamento percebeu que todos os empregados do setor de transportes da “City” eram do sexo masculino, sendo 640 brasileiros natos, 266 naturalizados e 248 estrangeiros. Na faixa etária, 450 empregados tinham entre 30 e 44 anos; 376, entre 21 e 30 anos; 313, entre 44 e 68 anos; e 15, entre 18 e 21 anos.

QUADRO GERAL DE AVALIAÇÃO

Ao final, a Comissão fez o levantamento de valores de todo o patrimônio do setor de transportes da “City”, resultando na cifra de Cr$ 44.088.589,40 (pouco mais de Quarenta e Quatro Milhões de Cruzeiros), o que equivaleria hoje a cerca de R$ 220 milhões. Só para a aquisição do material rodante, ou seja, os próprios bondes, a Prefeitura destinaria Cr$ 12,5 milhões (ou R$ 62,5 milhões, nos dias de hoje).

IMAGENS

Ao relatório final foram anexadas várias fotos, mostrando o acervo rodante e imobiliário da “City”, objeto da encampação.

Carro Motor Aberto - para passageiros - 45 lugares

Carro Motor Aberto – para passageiros – 45 lugares

Carro Motor Aberto - para passageiros - 60 lugares

Carro Motor Aberto – para passageiros – 60 lugares

Carro motor aberto articulado, para 96 passageiros.

Carro motor aberto articulado, para 96 passageiros.

Carro reboque aberto, 28 passageiros.

Carro reboque aberto, 28 passageiros.

Carro reboque aberto, 32 passageiros.

Carro reboque aberto, 32 passageiros.

Carro reboque gôndola, 60 passageiros.

Carro reboque gôndola, 60 passageiros.

Carro vagão motor - carga

Carro vagão motor – carga

Carro bagagem

Carro bagagem

Reboque de carga - tamanho médio.

Reboque de carga – tamanho médio.

Reboque de carga - tamanho pequeno.

Reboque de carga – tamanho pequeno.

Reboque gôndola, para carga.

Reboque gôndola, para carga.

Vagão Socorro

Vagão Socorro

Carro vagão tanque, para irrigação.

Carro vagão tanque, para irrigação.

Carro vagão Torre, para serviços do sistema distribuidor de energia.

Carro vagão Torre, para serviços do sistema distribuidor de energia.

Carro com máquina “esmeril”, para serviços na via permanente.

Carro com máquina “esmeril”, para serviços na via permanente.

Subestação Capinzal, na Rua Itapura de Miranda.

Subestação Capinzal, na Rua Itapura de Miranda.

Casa de carros, escritórios e oficinas da Vila Mathias - Fachada para a Rua General Câmara.

Casa de carros, escritórios e oficinas da Vila Mathias – Fachada para a Rua General Câmara.

Casa de carros, escritórios e oficinas da Vila Mathias - Fachada para a Praça Narciso de Andrade.

Casa de carros, escritórios e oficinas da Vila Mathias – Fachada para a Praça Narciso de Andrade.

Casa de carros da Vila Mathias - Fachada para a Rua Júlio Conceição.

Casa de carros da Vila Mathias – Fachada para a Rua Júlio Conceição.

Casa de carros da Vila Mathias - Fachada para a Praça Narciso de Andrade.

Casa de carros da Vila Mathias – Fachada para a Praça Narciso de Andrade.

 

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