Famoso escritor, Vargas Vila, visita Santos, de Martins Fontes

Durante a primeira metade do Século 20, a cidade de Santos era uma passagem quase que obrigatória para os grandes nomes da cultura e da política mundial. Por aqui passaram grandes atores e atrizes, inventores, aventureiros, membros de monarquias, presidentes de nações estrangeiras e diversos intelectuais e escritores. Entre tantos, um que mais movimentaram a cidade foi o escritor e pensador colombiano Vargas Vila.

Vargas Vila

Vargas Vila

José Maria de La Concepción Apolinar Vargas Vila Bonilla, nasceu em Bogotá, Colômbia, em 23 de junho de 1860. Ele construiu toda a sua vida como um intelectual autodidata, tendo participado desde muito jovem de lutas políticas na condição de jornalista, agitador e orador. Vargas se caracterizou por suas ideias liberais e sua constante crítica à Igreja, às ideias conservadoras e à política imperialista dos Estados Unidos.

Por causa de seu permanente combate na imprensa contras as ditaduras e tiranias, passou a maior parte da vida no exílio. Morou na Venezuela, onde publicou as primeiras obras, das dezenas que deixou de legado. Mas foi em Nova Iorque, nos Estados Unidos, que desenvolveu seus trabalhos mais polêmicos e conhecidos, como Ibis (1899), Alba roja (1901) e Ante los bárbaros (1902), livro este que, por ter um conteúdo antiamericano, lhe garantiu a expulsão da terra do Tio Sam, onde foi proibido de voltar.

Mudou-se, então, para Paris (1904), onde escreveu e publicou outros dois clássicos: La república romana (1908) e La muerte del cóndor (1914). Durante a primeira guerra mundial esteve na Espanha, onde publicou Vuelo de cisnes (1917) e depois alternou temporadas entre Madri, Paris e Roma.

Em Santos, de Martins Fontes

Quando Vargas passou pela cidade de Santos, entre 10 e 18 de março de 1924, sua fama já era enorme, tanto nas Américas, quanto na Europa. Os jornais brasileiros estampavam em manchetes a passagem do “festejado escritor colombiano” pelo porto paulista. Passageiro do navio italiano “Duca degli Abruzzi”, vindo de uma viagem a Buenos Aires, Argentina, e Montevidéu, Uruguai, Vargas estava sendo aguardado com entusiasmo por parte dos intelectuais e escritores brasileiros, que montaram toda uma recepção especial para recebe-lo.

varasezezinho

O anfitrião no Brasil foi o santista José Martins Fontes, confesso admirador de Vargas. Foi Zezinho quem providenciou toda a estrutura para sua estadia em Santos, reservando um dos melhores quartos do Parque Balneário Hotel. Falando sobre o colombiano, o santista não poupava elogios. “É um notável escritor, conhecidíssimo pelo Brasil intelectual, que lhe lê as obras e admira a personalidade de raça. Seus livros andam em todas as bibliotecas e sua obra, aqui, tem uma legião de simpatizantes. É uma honra poder receber em nossa casa, um homem de tamanha envergadura”.

Martins Fontes não desgrudou de Vargas, durante sua passagem pelo Brasil. Ficou ao seu lado durante a brilhante conferência que realizou em Santos, na sede do Jockey Clube (no prédio onde atualmente fica a agência da Caixa Econômica Federal, na praia do Gonzaga) e também na capital bandeirante, onde foi recebido com muita animação. “A notícia é verdadeiramente agradável a todos nós, que vemos, com satisfação, pisado terras nossas o grande escritor colombiano. Já entrevemos a alegria que vais espalhar-se por toda São Paulo, ao saber da presença, entre nós, do magnífico criador de “Íbis”, acolhido agora, pela primeira vez, no nosso convívio”, grafava em suas páginas o jornal Correio Paulistano.

Após sua visita a São Paulo, Vargas retornou a Santos, onde ficou mais uma semana. Logo depois tomou rumo ao Rio de Janeiro, onde permaneceu por alguns dias, promovendo conferências na capital do país.

Irredutível, solitário e ateu, altivo e vaidoso, Vargas Vila faleceu em Barcelona, Espanha, em 23 de maio de 1933, um mês antes de completar 73 anos. Algumas de suas obras foram publicadas postumamente como El maestro (1935), El joyel mirobolante (1937) e José Martí: apóstol-libertador (1938).

Alguns títulos de Vargas Vila

Alguns títulos de Vargas Vila

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MATÉRIA DO CORREIO PAULISTANO

VARGAS VILA

Vargas, é um escritor verdadeiramente bizarro. É um pensador sem medidas, o revolucionário do pensamento, um terrível anarquista das ideias, o extremista das frases, o excêntrico das imagens, o criador de absurdos de ideias, o filósofo bolchevista.

A sua obra se assemelha a uma torrente iconoclasta e tremenda. Ele não sabe o que são escolas, regras ou princípios. Os seus prosélitos ou são grandes espíritos ou loucos, cheios de seu ceticismo. O seu cérebro é uma fornalha. A sua palavra, catapultas furiosas. Os seus pensamentos parecem labaredas coleantes, tostando almas.

O seu estilo é algaravia torturada. Os seus pontos e vírgulas são fantasmas a Marinetti. O criador das “Tragédias Líricas” tem horror à caixa alta, à desigualdade dos tipos. As suas letras todas são eternas punhaladas que arrasam a humanidade. As suas criações são caricaturas do impossível.

É um homem singular, alma à parte, espírito exilado, o velho novo, inovador impenitente. Algumas vezes aproxima-se de Vitor Hugo, outras inclina-se para Nietszche.

Vargas Vila nasceu na Colômbia, lá pelo ano de 1860. Aos 20 anos, já era um panfletário temível, de uma combatividade vigorosa e estupenda. Popularizou-se e formou falange. Sem muita demora, o decreto de um ditador o baniu de sua terra. Recolheu-se à Espanha, na quietude de uma vila, em Barcelona. Ali, passa a maior parte do ano.

De quando em quando dá um pulo a Roma ou a Paris, onde dirige uma revista, ou, então, faz uma vilegiatura pela Suíça. Sua cabeça está toda branca, pois já conta com seus 60 anos, mas é sempre o homem jovial e expansivo, conversador brilhante – o que faz a gente esquecer daquele terrível pessimismo que anda em todas suas criações.

Agora, pela primeira vez, visita os países cá da nossa banda. Vivendo há 40 anos na terra de Blasco Ibañez, Vargas Vila, entretido com os esplendores do Mediterrâneo, e, com certeza, com a formosura das espanholas, só ao penetrar na velhice teve tempo de vir à América do Sul.

Acompanha, como seu secretário, o poeta Palácios y Viso, fino intelectual.

A obra literária de Vargas Vila é considerável. Tem escrito cerca de 60 livros. Dos principais, avultam “Aura”, “Prosas Landeles”, “Corpos de Espuma”, “Rosa da Tarde”, “Páginas Escolhidas”, “Alba Roxa”, “A Alma dos Lírios”, “Ars Verba”, “Caminho do Triunfo”, “A Conquista de Bizâncio”, “Os Divinos e os Humanos”, “Flor de Lodo”, “Discípulos de Emaus”, “Os Párias”, “Íbis”, “República Romana”, “A Semente”, “Louros Roxos”, “Verbo de Combate”, “Páginas Políticas”, “Os Césares da Decadência”, “Tragédias Líricas”, “Roma Imperial”, “A Invasão dos Bárbaros”, “A Voz das Horas”, “Maria Madalena” e “A Tragédia Europeia”.

As suas produções são conhecidas no mundo todo, andando muitas vezes traduzidas em vários idiomas. O autor de “Ars Verba” é grandemente combatido pela ousadia de suas ideias, pela petulância da sua filosofia. Agora, quando da sua estada em Buenos Aires, a imprensa portenha criticou severamente as suas obras, movendo-lhe forte campanha, pelo que hospede se negou a dar conferências.

Vou visitar o Brasil com a ânsia de gozar o esplendor das suas raras maravilhas”, disse o escritor colombiano a um jornalista brasileiro, ao passar por Montevidéu. No seu dizer, a nossa terra e o México constituem as duas melhores porções da América Latina.

Ao que parece, os desejos do grande intelectual não falharam, não o fazendo experimentar nenhum desencantamento na sua permanência entre nós. Ele gostou cá da nossa terra. Em julho, ao que promete, voltará, indo passar alguns meses na Ilha Porchat, escrevendo, então, uma novela de costumes brasileiros.

Estando em Santos, numa fugida, visitou São Paulo, apressadamente, permanecendo em nosso convívio apenas alguns minutos, que não valeram para nada.

Agora o Rio de Janeiro vai ter a satisfação de o acolher, depois da terra de Martins Fontes o ter hospedado, festejando-o com um carinho verdadeiro. E nós, então, não receberemos o magnífico criador de “A Voz das Horas”? Temos apenas uma promessa. E, se promessa for dívida, Vargas Vila aqui estará em breves dias, o que constitui, por certo, em primeira mão, uma agradável notícia.

Matéria sobre a passagem de Vargas Vila em Santos, publicada no dia 20 de março de 1924.

Matéria sobre a passagem de Vargas Vila em Santos, publicada no dia 20 de março de 1924.

 

 

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