Tesouro videográfico, guardado há 65 anos, mostra Santos nos anos 1950

Este é um artigo diferente, por diversas razões. Primeiro porque sua essência é a base para a estreia do Memória Santista no tradicional e mais do que centenário jornal A Tribuna, onde escreverei aos domingos, no começo quinzenalmente, mas podendo passar a ser semanalmente, se o nosso trabalho cair no gosto do leitor. E segundo, porque é um artigo que disserta sobre um fato presente que tem muita relação com o passado. Vou tentar ser direto.

Quem trabalha com a difusão da memória de Santos, como já venho fazendo há mais de 20 anos, já se acostumou com a vasta iconografia fotográfica local. Desde a passagem, na cidade santista, do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, entre 1864 e 1865, dezenas de profissionais renomados deixaram suas marcas e congelaram o tempo através de suas lentes, preservando para o futuro o retrato do passado.

Mas quando esta lembrança palpável se vira para a videografia, a vastidão cede seu lugar para a escassez. São extremamente raros os registros do passado santista em “movimento”. E quando achado, é fato para soltar foguetes daqueles do réveillon santista.

Cena de um bondinho passando defronte à Catedral e Coliseu.

Cena de um bondinho passando defronte à Catedral e Coliseu.

Resgate da videografia santista

Graças à tecnologia de digitalização de acervos videográficos, temos tido o agradável prazer de assistir algumas raras películas, como a que foi produzida para a Companhia Docas de Santos, na década de 1920, hoje integrante do acervo da Cinemateca Brasileira. Há também o raro filme produzido a partir do sobrevoo do hidroavião de Victor Konder, em 1927, que nos traz as primeiras imagens aéreas, em vídeo, da cidade; e uma película dos anos 1950, dedicada à Vicente de Carvalho, intitulada “Fragmentos-Palavras ao Mar”, pertencente ao acervo técnico do setor de audiovisual do Ministério da Cultura. Afora isso, o que observamos são apenas extratos de cenas cotidianas gravadas nas décadas de 1940 e 1950, retiradas de trechos de filmes dispersos.

Neste contexto de “secura”, eis que surge, em janeiro deste ano, um rolo de filme de 8mm, dono de uma história peculiar. Na ocasião, recebi o telefonema do cartofilista Laire Giraud, um colecionador apaixonado por imagens antigas da região, dizendo ter em mãos uma preciosidade: uma película retratando Santos nos anos 1950. Giraud comentou que o material pertencera a um ex-fiscal de rendas do Estado, Sebastião de Oliveira Martins, que à época contratou o serviço com a finalidade de presentear parentes europeus que vinham lhe visitar. Mas eles acabaram abortando a visita e, consequentemente, o filme ficou 65 anos guardado entre as coisas da família, até que a filha de Sebastião, Maria Lúcia Pierra, resolveu da-lo ao amigo Laire, na esperança que ele fosse resgatar seu conteúdo.

O Monumento dos Andradas e o Edifício Independência ainda em construção.

O Monumento dos Andradas e o Edifício Independência ainda em construção.

Abrindo a Lata do Tempo

Laire bem que tentou encontrar uma forma para extrair as imagens do filme de 8mm mas, sem sucesso, acabou confiando a mim a missão de abrir esta incrível “caixa do tempo”, ou poderia dizer de forma mais apropriada: “lata do tempo”.

Com ela nas mãos, a primeira ideia que veio à cabeça foi buscar uma solução no Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS). E, de fato, com a providencial ajuda dos técnicos do museu, foi motado um projetor de 8mm onde, assisti, atônito, cenas incríveis de uma época de ouro, glamorosa, na cidade. E, apesar de serem passagens curtas, uma coleção de fragmentos, eram muito diversificadas. Ali vê-se o bondinho do Monte Serrat, cenas panorâmicas feitas a partir do antigo Cassino, Praça Independência, Orquidário, Catedral e Coliseu, Praia, além de cenas em São Vicente, Itapema e Cubatão. Até a extinta Vila dos Pássaros, da Conselheiro Nébias, ali estava, registrada nas lentes de Alfredo Vasques, diretor do filme produzido por S.O.Martins. Ao total, incríveis 11 minutos de cenas, algumas muito divertidas, como as feitas na praia, num dia de muito lazer.

Sabido o conteúdo, a tarefa passou a ser a digitalização do material, ou “telecinagem”, que é o escaneamento de quadro a quadro do rolo (filme). Orçamentos feitos, o custo de R$ 1,5 mil pesou na decisão de buscar parceiros. Foi ai que surgiu a Fundação Bunge, que se predispôs a promover a telecinagem junto à TV Cultura de São Paulo, o que de fato aconteceu.

Cenas de praia revelam vestimentas características dos anos 1950.

Cenas de praia revelam vestimentas características dos anos 1950.

Assim, após 10 longos meses de inquietante espera, finalmente o material chegou às nossas mãos e, quis o destino, que fosse no exato momento desta parceria com o tradicionalíssimo jornal A Tribuna.

Enfim, para não alongarmos mais a conversa, como diz o ditado – uma imagem vale mais do que mil palavras –  deixaremos para você, querido leitor, a liberdade de viajar no tempo, através das incríveis cenas em movimento de uma Santos mágica, saudosa para os que viveram e extasiante para quem só no imaginário consegue vislumbrar.

Assista o vídeo completo no nosso canal do Youtube, no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=lvxTEpw2lKA

 

 

Cenas da Ponte Pênsil, em São Vicente.

Cenas da Ponte Pênsil, em São Vicente.

Obras da Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão.

Obras da Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão.

Cenas de embarque de cargas no porto, na época do trabalho braçal.

Cenas de embarque de cargas no porto, na época do trabalho braçal.

Até os fotógrafos lambe-lambe não escaparam das lentes do raro filme.

Até os fotógrafos lambe-lambe não escaparam das lentes do raro filme.

Cenas na subida da Ilha Porchat.

Cenas na subida da Ilha Porchat.

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