E ninguém mais furou aquela onda!

Dia 2 de fevereiro de 1997. A mais tradicional festa pré-carnavalesca santista deveria tomar as ruas da cidade, espalhando alegria e irreverência, como tradicionalmente fazia desde o longínquo ano de 1923. Tudo estava previsto para ocorrer conforme o velho script naquele domingo ensolarado, mas, o que se viu no costumeiro palco da famosa patuscada “Dona Dorotea, Vamos Furar Aquela Onda?”, a avenida Almirante Saldanha da Gama, foi um cenário de dia comum, sem as cores vibrantes e os brilhos exagerados das roupas de centenas de marmanjos travestidos de mulher. Os poucos espectadores desavisados, tentavam, em vão, procurar entre os transeuntes por algum personagem hilário, daqueles que costumavam levar as crianças às gargalhadas, ao longo da orla praiana. A célebre festividade momística de Santos, patrimônio cultural local e reconhecida como uma das mais importantes do país, não daria mais o ar da sua graça, nunca mais.

Os responsáveis pela entidade mandante da festa (Clube de Regatas Saldanha da Gama), perante à crescente falta de segurança, decidiram não arriscar mais o bom nome da agremiação, e suspenderam o evento. A gota d’água viera na edição de 1996, quando foram registrados dezenas de brigas, assaltos e espancamentos, num claro sinal de que os tempos haviam, definitivamente, mudado. O comportamento da sociedade se transformara, para pior, convalidando a crise social e moral que se instalara de norte a sul do Brasil. O Carnaval, diziam os mais velhos, já não era como antigamente e, assim, Dona Dorotea não encontrava mais seu lugar naquele mundo estranho, violento e intolerante.

Luiz Vieira de Carvalho, o Lorde Gorila, criador da patuscada Dona Dorotea.

Luiz Vieira de Carvalho, o Lorde Gorila, criador da patuscada Dona Dorotea.

A origem

Em meados do século 19, Santos se revelou um palco privilegiado e criativo para o Carnaval brasileiro, pondo ordem nas brincadeiras brutais e de mau gosto que até então existiam na cidade (o entrudo). A partir de 1858, com o surgimento da Sociedade Carnavalesca Santista, o período festivo passou a ser celebrado com a promoção de desfiles, concursos de blocos e bailes de máscaras. A folia de Momo, a contar dali, então, se tornara uma das maiores paixões da cidade.

Em 1920, um grupo de foliões do Clube Internacional de Regatas resolveu inovar, criando uma patuscada (sig.: folia animada, divertida, barulhenta) “aquática”, uma espécie de banho de mar à fantasia (ou aquafolia). Liderados pelo notório boêmio Feliciano Firmino Ferreira, o “Lorde Javali”,  os rapazes do Inter criaram um bloco chamado “Pé no Fundo” e partiram para a brincadeira que, de tanto sucesso, acabou repetida nos anos seguintes.

Testemunhando a repercusão da festa promovida pelo rival “vermelhinho”, os rapazes do Clube de Regatas Saldanha da Gama resolveram criar a sua própria versão de banho de mar à fantasia, em 1923, fazendo nascer a festa que mais tarde ficaria conhecida com o nome de “Dona Doroteia, Vamos Furar Aquela Onda?”

Nome inspirado no teatro

No segundo ano da patuscada saldanhista (1924), chegava a Santos, vindo do Rio de Janeiro, o homem que se tornaria o “pai” da brincadeira: Luiz Vieira de Carvalho, o “Lorde Gorila”. Ao se enturmar no clube, ele sugeriu que a aquafolia fosse realizada nos mesmos moldes da praticada pela agremiação carioca “Clube de Regatas Flamengo”, que promovia um desfile de seus foliões pelas ruas da cidade antes do banho de mar à fantasia. Seria aquela uma forma de chamar a atenção da população e dar a oportunidade de todos os santistas, e visitantes, participarem. A ideia foi colocada em prática e se tornou um estrondoso sucesso, com a adesão de dezenas de blocos independentes.

Com a introdução dos desfiles, os saldanhistas resolveram, então, que era hora de criar um bloco e que este tivesse um nome irreverente, gozador, como reza a regra número um do Carnaval.

Foliões na Dona Dorotea, na década de 1960.

Foliões na Dona Dorotea, na década de 1960.

Após várias sugestões não aceitas, Luiz Vieira de Carvalho, ao lado do amigo Oscar Pimentel, lembraram de uma situação que poderia render um bom nome. Os dois tinham o hábito de frequentar o Teatro Guarany sempre que a Companhia Teatral Pinto Filho passava pela cidade. A trupe era pequena. Além de Pinto Filho e sua esposa, o elenco contava com Isidoro Alacid e outros três atores. Na peça encenada naquele início dos anos 1920, “O 21 na Zona”, Pinto Filho fazia o papel do cabo 21, sujeito mulherengo, que não perdoava uma oportunidade. Numa determinada cena, ele estava na praia quando viu uma mulher de costas, em trajes de banho. As pernas eram lindas, mas não era possível ver o rosto. Cabo 21, malandramente, gingou perto da “donzela”, contorceu o fino bigode e mandou a cantada: “Dona Dorotea, Vamos Furar Aquela Onda?”. A banhista, então, se virava e mostrava sua face, horrenda. Cabo 21, então, assustado e frustrado, virava de costas e corria, para o delírio da plateia no Teatro Guarany. A cena ficou marcada na mente de Lorde Gorila. Tava aí um bom nome para o irreverente bloco carnavalesco do Saldanha da Gama.

Waldemar foi Dona Dorotea

E assim, por longos 70 anos, a patuscada saldanhista fez a alegria da cidade, envolvendo gerações inteiras de santistas. Nela, nasceram grandes e famosos blocos irreverentes, como as Dengosas do Marapé, Favoritas do Sultão, Bloco das Esmeraldas e Raparigas do Último Gole. Até o eterno Rei Momo, Waldemar Esteves da Cunha, foi personagem central na aquafolia, fazendo o papel principal, de Dona Dorotea, antes mesmo de assumir o trono, nos anos 1950.

Progresso e fim

Ao longo do tempo, o desfile foi ganhando outros contornos, à medida que a sociedade testemunhava o progresso avançar. A festa viu o surgimento do rádio, da TV, a evolução automotiva e a chegada das motos, bastante presentes no desfile dos anos 1980 e 1990. Porém, junto com esses “progressos”, vieram a violência e a intolerância que, a exemplo do passado antes de 1858, alimentaram brincadeiras brutais e de mau gosto, que acabaram se tornarando responsáveis pela extinção de um dos eventos mais significativos da história do Carnaval santista.

 

 

Bloco da Dona Dorotea, nos anos 1940.

Bloco da Dona Dorotea, nos anos 1940.

Bloco Brotinhos do Estoril, no inicio dos anos 1960.

Bloco Brotinhos do Estoril, no inicio dos anos 1960.

Waldermar Esteves da Cunha, encarnando a Dona Dorotea no final dos anos 1940.

Waldermar Esteves da Cunha, encarnando a Dona Dorotea no final dos anos 1940.

A violência determinou a extinção da famosa patuscada em 1996.

A violência determinou a extinção da famosa patuscada em 1996.

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