As supermães santistas e seus bebês “olímpicos”

Era um sábado, 22 de outubro de 1955, mas poderia ser qualquer outro dia de um final de semana festivo entre as décadas de 1940 e 1950, período em que se realizavam no Brasil os Concursos de Robustez Infantil, uma espécie de Olimpíada de Lactentes, onde alcançavam o pódio apenas os bebês mais rechonchudos e corados.

 

O ginásio do Clube Atlético Santista estava repleto de alunos das escolas municipais. muitos deles ex-atletas da Olimpíada de Lactentes.

O ginásio do Clube Atlético Santista estava repleto de alunos das escolas municipais. muitos deles ex-atletas da Olimpíada de Lactentes.

 

As arquibancadas do ginásio do Clube Atlético Santista estavam, naquela manhã de sábado, totalmente tomadas por alunos de diversas escolas municipais, cujos olhares, atentos, se fixavam na área central do prédio, igualmente congestionada: a quadra poliesportiva, onde dezenas de mães, tais quais dedicadas treinadoras, preparavam seus pequeninos atletas olímpicos para o enfrentamento das provas de balança, fita métrica e a exigente maratona de avaliação médica. Muitos daqueles garotos e garotas presentes na área de torcida, curtindo então a plena fase da pré-adolescência, provavelmente passaram pelo inusitado ritual que assistiam, o de demonstrar capacidade para ganhar peso, alimentando-se naturalmente.

Assim como nas modalidades esportivas, os bebês foram divididos em grupos, por faixa etária. Havia a turma dos recém nascidos ou novatos (até seis meses); dos “atletas” de seis a doze meses; e a categoria master, composta pelas crianças de um a dois anos de idade.

O criador das competições de robustez infantil, uma espécie de Barão de Coubertin1 da Olímpiada de Bebês foi o pediatra carioca Carlos Arthur Moncorvo Filho, fundador do Instituto de Assistência à Infância (IAI) do Rio de Janeiro que, nos anos 1920, estabeleceu os parâmetros e metas do concurso. Nesta época, a Cidade Maravilhosa fazia às vezes de capital federal.

Os três bebês mais rechonchudos eram os vencedores, por categoria.

Os três bebês mais rechonchudos eram os vencedores, por categoria.

Santos, berço de craques

A cidade de Santos era tida como um dos lugares mais competitivos para o pessoal do Instituto de Assistência à Infância e, mais tarde, para os responsáveis pela Legião Brasileira de Assistência (LBA) (Quem assumiu a organização destes eventos no lugar da IAI), pelo fato de as mamães santistas estarem sempre dipostas a participar daquela espécie de chamamento “olímpico”. A cidade portuária paulista era considerada um exemplo nacional, por manter acesa a chama da causa lactente e por ser um berço de bebês campeões.

O foco destas “disputas” era justamente estimular e demonstrar a importância do aleitamento materno nos primeiros seis meses de vida (e da alimentação mista até os dois anos de idade), objetivando a formação de uma metodologia vencedora, além de uma consciência de alimentação saudável, sustentável à criança brasileira. Tais contendas, ocorridas de norte a sul do país, tinham como meta primária atingir a população mais carente que, via de regra, era a que mais desprestigiava o exemplo, sendo que tal comportamento vinha sendo encarado pelas autoridades como um grave problema de saúde pública e social a ser combatido.

Medalhas e dinheiro

Por décadas, em especial durante a Era Vargas (1930-1945), as competições de robustez foram se consolidando, nas mais diversas cidades brasileiras, premiando em dinheiro as mães mais cuidadosas e dedicadas à causa. No governo getulista, a Legião Brasileira de Assistência (LBA), criada por Darcy Vargas, então a primeira-dama do Brasil, cuidava zelosamente da organização dos principais concursos, como os verificados em Santos.

Além do prêmio em dinheiro para os vencedores, havia cerimônia de entrega de medalhas.

Além do prêmio em dinheiro para os vencedores, havia cerimônia de entrega de medalhas.

 

A disputa de 1955

Entre as várias disputas ocorridas por aqui, uma das mais marcantes fora a de 1955, pelo fato de ter sido especialmente concorrida. A comissão local da LBA, comandada por Marina Santos Silva, chegou a analisar mais de 100 crianças de até dois anos de idade. Todas passaram pelas provas de fogo, sendo pesadas, medidas e analisadas por uma equipe médica especializada.

Assim como nas Olimpíadas, subiam ao pódio da vitória até três bebês (e suas mães). A premiação, que variava de Cr$ 150,00 a Cr$ 500,00 (cruzeiros), era arrecadada entre clubes de servir e comerciantes locais.

Via de regra, assim como nos grandiosos jogos olímpicos, as provas eram antecipadas pela apresentação do Hino Nacional que, em 1955, foi tocado pela banda do 6º Batalhão de Caçadores. A abertura da competição, para a alegria do ginásio lotado, incluiu apresentações de quadrilhas musicais, declamações de poesias, dança flamenca e canções, a maior parte executadas pelos aluno do Grupo Escolar Barão do Rio Branco.

Ao final, na grande confraternização dos mini atletas, ecoou pelo ginásio o berreiro da vitória. Nada melhor pois, na velha tradição, dizem que o choro traz muita saúde e prosperidade para os bebês.

1 Barão de Coubertin foi um pedagogo e historiador francês, que ficou para a história como o fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna.

Os dirigentes da LBA e da Prefeitura de Santos no evento.

Os dirigentes da LBA e da Prefeitura de Santos no evento de 1955.

 

Mais um medalhista.

Mais um medalhista.

Criança passando pela prova de peso.

Criança passando pela prova de peso.

Bebês na maratona de avaliação médica.

Bebês na maratona de avaliação médica.

As provas eram bem disputadas. A concorrência era grande.

As provas eram bem disputadas. A concorrência era grande.

One Comment

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One Comment on “As supermães santistas e seus bebês “olímpicos”
  1. O Médico que segura a criança é o saudoso e competente Dr. Nelson Manoel do Rego, que se notabilizou por sua competência profissional e seu espírito humanitário.

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