E já se passaram 90 anos sem Calixto

“Somente a morte poderá arrancar os pincéis de minhas pobres mãos, que nada mais sabem fazer, senão pintar”

calixtoBenedicto Calixto de Jesus estava radiante naquela tarde de sábado, 14 de maio de 1927, feliz por atingir uma marca invejável, de 50 anos casado com a sua amada Antônia Leopoldina de Araújo, filha de um primo de segundo grau de seu pai, João Pedro, que conhecera ainda na tenra juventude, em sua cidade natal, Itanhaém. As bodas de ouro do casal era festejada efusivamente na Igreja Matriz de São Vicente, bem perto da residência da família e local de muitas idas do velho pintor aos seus compromissos particulares com Deus. Contando com 73 anos de idade (ele nascera em 14 de outubro de 1853), seu vigor físico já não era o mesmo, assim como a saúde, em contraste absoluto ao seu ânimo, inabalável, marca aliás que determinou sua essência de vida. Por isso, ainda que reclamando de dores pontuais, uma hora aqui, outra hora ali, Calixto metia-se ao trabalho cotidiano da mesma forma que na época de sua chegada, ainda bem jovem, à cidade de Santos, na década de 1870, para onde partiu em busca de uma vida diametralmente adversa à que possuía na vetusta cidade itanhaense.

Na urbe portuária, o jovem artista passou a garantir seu sustento com o que mais sabia fazer: desenhos. Calixto pintava tabuletas e propagandas nos muros de casas comerciais. E a coisa deu muito certo. Sua arte caiu no gosto das pessoas e, assim, logo passou a pintar paisagens em tetos e paredes de algumas mansões na cidade.

Algum tempo depois, a convite do irmão mais velho, ele partiu para a cidade interiorana de Brotas, onde se aprofundou na arte da pintura com um tio, Joaquim Pedro de Jesus, ajudando-o no restauro de imagens sacras pertencentes a uma igreja local.

Em 1877, Calixto retornava à sua cidade natal, justamente quando casou-se com Antônia, que lhe deu três filhos (Fantina, Sizenando e Pedrina). O casal chegou a residir na cidade interiorana de Brotas, onde já vivia o irmão mais velho, mas não por muito tempo. Logo Calixto sentiu falta do ar marinho e retornava a Santos, em 1881, onde marcaria de vez seu nome na história brasileira. Neste mesmo ano, encorajado por alguns admiradores, ele faria sua primeira exposição de telas, na capital, numa das salas da redação do badalado jornal “Correio Paulistano”. Elogiado pela imprensa, Calixto, no entanto, não testemunhou o mesmo entusiasmo do público. O resultado foi que o pintor voltou para casa com todos os quadros debaixo do braço.

Teatro Guarany e viagem a Paris

Em 1882, trabalhando na oficina do mestre carpinteiro Tomás Antônio de Azevedo, Calixto foi integrado à equipe que construiu o Teatro Guarany. Sua tarefa foi executar as pinturas decorativas da mais nova casa de espetáculos da cidade de Santos. E o fez com tanto primor, que acabou chamando a atenção de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, o Visconde de Vergueiro, comerciante de café rico e influente que, ao vislumbrar a arte refinada do teatro, perguntara a mestre Tomás: Quem foi o artista que nos brindou com tamanha preciosidade?  A resposta foi direta: Foi um moço da minha oficina, chamado Benedicto Calixto.

Calixto na época em que estava na cidade de Paris.

Calixto na época em que estava na cidade de Paris.

Impressionado com o talento do rapaz, após conhecê-lo pessoalmente, Vergueiro ofereceu-lhe uma bolsa de estudos em Paris, aceita de bom grado pelo jovem pintor. Na capital da França, a partir de janeiro de 1883, Calixto ingressava no atelier de Rodolphe Julian, um dos mais conceituados da Europa, onde se destacou rapidamente.

A vida de Benedicto Calixto na França estava indo de vento em popa, mas a saudade que tinha do Brasil falou mais alto, fazendo-o regressar em 1884. No retorno, ele traria em sua bagagem algo pelo qual se apaixonara e o ajudaria demais em seus futuros trabalhos: uma câmera fotográfica.

Montando ateliê em São Vicente

Tendo aprimorado sua técnica no tempo em que esteve em Paris, Calixto se tornou um artista maduro e altamente produtivo, realizando inúmeras obras ao longo dos anos seguintes. De 1885 a 1897, chegou a produzir mais de 300 quadros, vendendo-os todos em casas comerciais de Santos e São Paulo, até que se mudou, em definitivo, para São Vicente, onde construíra uma casa para morar e atender suas necessidades artísticas, na rua Martim Afonso, 192.

No começo do século 20, o pintor itanhaense, já na casa dos 50 anos de idade, tinha sua fama consolidada. Uma de suas facetas, além do gosto pela fotografia, era o grande interesse pela história, tornando-se um exímio pesquisador do passado. Calixto se tornou grande amigo do célebre historiador Afonso d’Escragnolle Taunay, com quem trocou muitas informações para executar suas obras de caráter histórico. As telas do pintor praticamente definiram a iconografia histórica santista e regional da colonização até as primeiras décadas do século 20, em artes que retrataram paisagens, personagens (destaques para os quadros de Braz Cubas, José Bonifácio, Bartolomeu de Gusmão) e fatos históricos (destaques para a chegada de Martim Afonso, a fundação da vila de Santos e a subida da Serra do Mar com João Ramalho). A importância histórica de suas obras atravessou o tempo, sendo utilizadas nos dias atuais e certamente seguirá para sempre.

Fim e legado

No sábado em que completou suas bodas de ouro, Calixto sentiu o peso da idade, mas não esmoreceu, contrariando, inclusive, as ordens de seu médico, Antônio Arantes, que o proibira definitivamente de pintar. O velho artista havia concluído um trabalho grande na cidade de Bocaina, quatorze telas de arte sacra que, aliás, havia tornado sua temática preferida nos últimos anos. Em Santos, ele aceitara produzir e também praticamente concluíra, para a capela do Santíssimo Sacramento da Catedral, três painéis: Noé, Melchisedech e Ceia de Emaús. Foram as derradeiras obras.

Ceia com os discípulos de Emaús, a última obra do mestre, antes de sua morte, exposta na capela do Santíssimo Sacramento, na Catedral de Santos (foto de Marcelo Mathias)

Ceia com os discípulos de Emaús, a última obra do mestre, antes de sua morte, exposta na capela do Santíssimo Sacramento, na Catedral de Santos (foto de Marcelo Mathias)

Nos dias seguintes à festa de bodas, ele terminou o trabalho na Catedral e foi a São Paulo, adquirir tintas e telas, talvez para mais uma “fornada” de trabalhos históricos. Calixto estava feliz com o resultado da última exposição pública que realizara, no Teatro Coliseu, menos de um ano antes. Mas o grande gênio da pintura não voltaria vivo à terra a qual dedicou praticamente toda sua história. Benedicto Calixto de Jesus faleceu, vítima de enfarto, na manhã de terça-feira, 31 de maio de 1927, deixando um legado de aproximadamente 1.700 obras, das quais apenas 712 são catalogadas. Muitas delas, obras religiosas que, aliás, lhe renderam a Comenda de São Silvestre, outorgada pelo próprio Papa Pio XI, em 1924.

Hoje, passados 90 anos de sua partida, Calixto ainda vive na grandiosidade de sua arte e no coração de quem ama a história paulista e santista.

Foto de Benedicto Calixto tirada algumas semanas antes de sua morte, em 1927.

Foto de Benedicto Calixto tirada algumas semanas antes de sua morte, em 1927.

Calixto com a família: a esposa Antoninha, e os filhos Fantina, Sizenando e Pedrina, em 1892.

Calixto com a família: a esposa Antoninha, e os filhos Fantina, Sizenando e Pedrina, em 1892.

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