Os santistas abraçaram a causa Constitucionalista de 32

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O céu de Santos, salpicado de pequenas nuvens naquele final de tarde de sábado, 9 de julho de 1932, assemelhava-se a uma tela impressionista, pincelada de cinza e dourado, denotando expressões fortes e angustiantes, tão inquietantes quanto às notícias que chegavam ainda desencontradas desde a capital bandeirante. São Paulo não suportava mais os desmandos do Governo Provisório, liderado por um presidente “ilegítimo” que, para consolidar seu poder, virava às costas para a democracia e, acima de tudo, à Lei, à necessidade de estabelecer uma nova Constituição (a anterior, de 1891, fora cassada no Golpe de Estado de 1930, que colocou Getúlio Vargas na presidência*).

Enquanto os santistas iam dormir, as ruas da capital paulista eram tomadas mansamente por tropas inteiras de soldados e pelotões de civis armados. Em poucas horas, numa ação perfeitamente coordenada, os revolucionários tomavam estações de trem, entroncamentos rodoviários, estações de rádio, telegráficas e telefônicas, a Guarda Cívica, a Inspetoria de Veículos, toda a Força Pública (antiga PM), grande parte das unidades do Exército e o próprio Governo do Estado. São Paulo voltava às mãos dos paulistas.

Na manhã seguinte, nem parecia que houvera tamanha tomada de poder. Mas era fato inquestionável. O comandante civil da Revolução Constitucionalista, Pedro Manuel de Toledo, era empossado novo governador de São Paulo e o povo foi às ruas festejar e organizar as primeiras partidas para a batalha contra o governo central.

Entusiasmo santista
A cidade portuária ficou atônita com os fatos ocorridos no planalto. A maior parte dos santistas queria participar ativamente daquele momento histórico. Enquanto alguns liam as primeiras notícias oficiais publicadas em edições extraordinárias dos principais jornais de São Paulo, inclusive A Tribuna, milhares de homens, militares e civis, se colocaram à disposição para a luta armada.

Nos dias que se seguiram ao 9 de julho, a cidade não vivia outra coisa que não o movimento intenso de tropas em marcha pelas ruas da cidade na direção da Estação do Valongo. Lideradas pelo coronel Mello Mattos, comandante da Praça de Santos, as guarnições dos Tiros de Guerra 11 e 598 foram as primeiras a atender ao chamamento à Revolução. Santos abraçava com ardor a causa Constitucionalista e desejava a deposição de Vargas.

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Capacetes de Aço
O povo santista foi um dos mais presentes nas campanhas de arrecadação de recursos para a aquisição de capacetes de aço aos bravos soldados paulistas. Em menos de uma semana chegaram a ser arrecadados vinte contos de réis (cerca de R$ 400 mil, atualizado). A cidade também participou ativamente das coletas de metais e da campanha “Ouro para o Bem de São Paulo”, que visava angariar mais recursos para a compra de material bélico, roupas, alimentos, remédios, entre outras necessidades das tropas nos fronts de guerra. Diversos esportistas da cidade de Santos doaram suas medalhas para a causa. Entre eles, toda a equipe de remo do Internacional, que aceitou com que se doasse todo o acervo conquistado pelo clube.

Cruz Vermelha
A cidade de Santos também contribuiu com parte considerável de seu grupo de socorristas, da Cruz Vermelha. Partiram para as zonas de combate cerca de quarenta pessoas, entre médicos, farmacêuticos, dentistas, enfermeiros e ajudantes, serventes, motoristas e intendentes. Até mesmo os dirigentes da instituição, srs Flôr Horácio Cyrillo (presidente), Armando Lichti e Paulo Mesquita Carvalho (diretores), responderam ao chamado e partiram para as linhas de combate. Esportistas de Santos em combate

Foi destacada a participação de grandes nomes do esporte santista na Revolução, entre eles Athiê Jorge Coury, Acilio Escudeiro, Alberto de Oliveira Lage, Victor Lovecchio, Paschoal Strafacci, Washington Costa, Floriano Peixoto Correa, Salustiano da Costa Lima e Prieto Rios. Comércio santista garante salário aos combatentes Liderados pela Associação Comercial de Santos, todo o alto comércio santista garantiu os ordenados de todos os seus empregados que pegassem em armas.

A Tribuna manda contingente
O superintendente do jornal A Tribuna, Giusfredo Santini, seguiu para a capital em 25 de julho, para ficar à disposição do Quartel de Sant’Anna, de onde partiria para o front, assim que fosse necessário. Outro reconhecido jornalista a seguir a mesma trilha foi Francisco Paino. Vários outros repórteres também se alistaram na Milícia Cívica de Santos, prontos para prestar os serviços exigidos em prol da reimplantação da ordem e da Lei.

O fim da Revolução
Após três meses de ferozes e sanguinárias batalhas, os paulistas, isolados do resto do país, perderam a guerra. Santos enviara três mil homens para os fronts. Destes, 41 morreram em combate e um número maior veio a falecer em decorrência das sequelas deixadas pelo conflito. A causa, no entanto, nunca foi esquecida. Em 1933, Getúlio cedeu e permitiu a formação de uma Assembleia Constituinte, promulgando uma nova Carta Magma em 1934. Com o sentimento de vitória, em 1935, os santistas decidiram erigir um monumento em homenagem aos bravos combatentes. Após vários estudos, somente em 26 de janeiro de 1956 era inaugurado o Mausoléu “Filhos de Bandeirantes”, no centro da Praça José Bonifácio, um dos mais belos e significativos de Santos e do Estado de São Paulo.

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*OS ANTECEDENTES DA REVOLUÇÃO DE 1932
O gaúcho Getúlio Dornelles Vargas, candidato derrotado nas eleições presidenciais de 1930, alcançou o poder por meio de um Golpe de Estado de que depôs o então presidente, paulista, Washington Luis e impediu o vencedor do pleito, o também paulista Júlio Prestes, tomar posse. Uma das alegações para a revolta era tirar de São Paulo o controle “tendencioso” sobre os destinos do país (Quase 50% da produção industrial e 2/3 da produção de café se davam em terras paulistas). Havia também o fato de Washington Luis estar enfrentando uma forte insatisfação popular devido ao alto número de desemprego no país, gerado pela crise econômica mundial de 1929. Vargas, após o Golpe de 1930, alegou que seria chefe de um governo provisório e, com o apoio do povo, promulgaria uma nova Constituição e convocaria novas eleições. Porém, nem uma, nem outra coisa, acabou sendo feita. Pelo contrário, o gaúcho passou a governar por Decretos (já o Brasil deixou de ter uma Lei Maior), interviu nos Estados e castigou em especial os paulistas, gerando um sentimento de revolta na terra bandeirante, que culminou na eclosão da Revolução de 1932, cuja principal bandeira era a exigência, justamente, por uma nova Constituição.

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Um praça de guerra santista

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