Tosca, o primeiro Momo do Carnaval Santista

O Rei Momo é um personagem da mitologia grega, o deus da ironia e do sarcasmo, um ser verdadeiramente zombeteiro e irresponsável, símbolo ideal para uma festa que cresceu polêmica e arruaceira, pelos cantos do Brasil, herança de portugueses, com o nome entrudo, e misturada à irreverência dos escravos.

Desde meados do século XIX, o Carnaval era uma festa amada por uns, odiada por outros, dada à sua característica abusada. No limiar do século XX, a festa de Momo já amainara e os blocos carnavalescos comportados substituíam os corsos violentos.

Mas era necessário uma cara para o Carnaval. E ninguém melhor do que o velho Momo para personificar a grande festa da folia.

Em 1933, o jornal carioca “A Noite”, especialista em movimentar seus leitores e a sociedade com ideias inovadoras e concursos brilhantes, resolveu personificar o Rei Momo construindo um boneco de papelão para desfilar com o povo pelas ruas do Rio de Janeiro. O boneco, com enorme barriga, fivelão dourado, coroa brilhante de lata, virou o símbolo do Carnaval naquele ano, com enorme sucesso. Ao final dos festejos, os cariocas manifestaram o desejo de ter um Rei Momo de “carne e osso”.

O desejo foi atendido no ano seguinte, em 1934, com a escolha de Moraes Cardoso, um jornalista especializado em turfe de “A Noite”.

Acompanhando de longe a festa dos cariocas e o sucesso do Rei Momo de 1934, os santistas também se mexeram para dotar o Carnaval local de um Rei legítimo. A iniciativa para eleger o soberano da folia santista partiu da Rádio Atlântica que, com a ajuda do cronista carnavalesco do jornal A Tribuna, Décio de Andrade, o “Espião da Esquina”, escolheu um companheiro jornalista para caracterizar o Rei Momo de Santos. O sujeito era ideal.

Goleiro do Glorioso Futebol Clube, integrante da Liga Santista de Futebol na década de 1920, e tenor de ópera amador, Eugênio de Almeida, o primeiro Rei Momo de Santos, adorava cantar a ária “E lucevan le stelle” (E as estrelas estavam brilhando), terceiro ato da Ópera “Tosca”, de Giacomo Puccini. Cantava tanto esta música e falava tanto da peça, que os amigos resolveram apelidá-lo de “Tosca”.

Tosca foi o primeiro Rei do Carnaval santista, o segundo do Brasil que se tem notícia, coroado no dia 16 de fevereiro de 1935, em cerimônia aberta na praia do Gonzaga (no local hoje correspondente à Praça das Bandeiras). Recebeu o cetro real das mãos do proprietário da Rádio Atlântica, Zezinho Baccarat. No local foi montado um palanque, onde os convidados assistiram várias apresentações musicais, divididas entre grupos de ranchos, choros e blocos. O destaque do dia foi uma inusitada apresentação musical e dançante protagonizada por um grupo africano que estava de passagem pela cidade, “Tribo de Zulus”. Os dançarinos tinham o corpo todo pintado de pó de arroz e usavam saiotes de barbante, isso sem falar das lanças e escudos típicos daquele povo oriundo do continente africano.

O Carnaval de 1935, o primeiro sob o reinado de um Rei Momo de verdade, foi considerado um dos melhores já ocorridos em Santos. A cidade estava em festa, com a ocorrência de corsos (de automóveis), desfiles de blocos e bandas, além dos bailes nas principais agremiações da cidade.

E Tosca, como um bom soberano, não faltou a nenhum compromisso.

A primeira aparição do Momo no Brasil: um boneco de papelão. No ano seguinte, o soberano do Carnaval já era de carne e osso.

A primeira aparição do Momo no Brasil: um boneco de papelão. No ano seguinte, o soberano do Carnaval já era de carne e osso.

Eugênio de Almeida, o primeiro Rei Momo de Santos, adorava cantar a ária “E lucevan le stelle” (E as estrelas estavam brilhando), terceiro ato da Ópera “Tosca”, de Giacomo Puccini. Cantava tanto esta música e falava tanto da peça, que os amigos resolveram apelidá-lo de “Tosca”.

 

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