Cantora santista participa do primeiro filme “falado” brasileiro, em 1931

Zezé Lara, já renomada à época, protagoniza cenas marcantes no filme pioneiro “Coisas Nossas”, produzido pela Columbia Pictures no Brasil

Anúncio do Fime nas principais revistas do país, em 1931.

Anúncio do Fime nas principais revistas do país, em 1931. Zezé Lara está no canto direito da primeira foto. Clique para ver maior

 

Dos anos finais do século XIX até a segunda metade dos anos 1920, o Cinema conquistou, sem dúvida nenhuma, o posto de uma das artes mais populares do mundo. Inventado na França pelos irmãos Lumière em 1895, a tecnologia se aprimorou com o passar do tempo, encantando milhares de pessoas, que lotavam as principais salas de exibição das grandes cidades.

Tais acontecimentos não foram diferentes no Brasil, que conheceu a “Sétima Arte” (como ficou conhecido o Cinema) em julho de 1896. A exibição pioneira no país ocorreu em uma sala alugada pelo Jornal do Commercio, na Rua do Ouvidor, onde foram projetados oito filmetes de cerca de um minuto cada, com interrupções entre eles, retratando cenas pitorescas do cotidiano de cidades européias. Nesta ocaisão apenas a elite carioca participara deste fato histórico, uma vez que os ingressos não eram para o bolso de qualquer um. Um ano depois o Rio ganhava uma sala fixa de cinema, o “Salão de Novidades Paris”, comandado por Paschoal Segreto.

Ao mesmo tempo em que os cariocas conquistavam sua primeira sala de exibições cinematográficas, os santistas passaram, também, a experimentar a grande novidade (Santos foi a segunda cidade do Brasil e conhecer o Cinema), deslumbrando-se  com as incríveis “fotografias animadas”, que eram projetadas em uma tela branca (o fato ocorreu em junho de 1897, no Recreio Miramar, bairro do Boqueirão – veja artigo aqui no Memória Santista).

A transição do mudo para o falado

Com o passar dos anos, o cinema foi evoluindo: luzes, efeitos especiais, equipamentos. Ao mesmo tempo, técnicos e atores se acostumavam com a rotina dos estúdios e das gravações externas. Grandes figuras do teatro tornaram-se estrelas da nova arte, sem que nenhum precisasse ser dono de vozes bonitas ou dicções perfeitas. Afinal de contas, o cinema era “mudo”, ou seja, ainda não dava espaço para o estrelato de cantores e músicos.

Mas esta escrita estava para mudar. Em 1927, a empresa Warner, dos Estados Unidos, lançou o filme “The Jazz Singer”, um musical que, pela primeira vez na história do cinema, trazia alguns diálogos e cantorias sincronizados, aliados a partes totalmente sem som. No ano seguinte, chegava ao mercado o filme “The Lights of New York”(também da Warner), que se tornaria o primeiro com som totalmente sincronizado, dando inicio a uma nova era para a Sétima Arte e um caminho amplo para atores, atrizes e músicos!

No Brasil, os experimentos seguiram a mesma rota percorrida pelo cinema mudo. Os filmes falados estrearam no Rio de Janeiro, em 1929, e, logo depois, foram os santistas puderam se gabar de ter a primazia de assistir, e agora ouvir, a grande novidade do mundo cinematográfico (a primeira exibição de um filme “falado” e Santos aconteceu em setembro de 1929, no Coliseu).

A transição dos filmes mudos para os “falados” sacudiu a indústria do cinema em todo o mundo. Diversos estúdios tentaram resistir à ideia. A MGM, por exemplo, se preocupava com o que seria da famosa atriz sueca Greta Garbo. A empresa temia que ela e outros de seus artistas europeus contratados pudessem ser alvo do ridículo, por causa do forte sotaque derivado da língua dos seus países de origem.

Porém, não houve quem brecasse a evolução natural do Cinema e até Greta Garbo se adaptou, construindo uma carreira que a levou ao posto de uma das maiores atrizes de todos os tempos.

Zezé Lara, ao centro, recebe instruções do cineasta norte-americando, Wallace Downey.

Zezé Lara, ao centro, recebe instruções do cineasta norte-americando, Wallace Downey.

 

O cinema falado no Brasil

O Brasil não queria ficar apenas na posição de espectador diante desta novidade sonora. O país, que também investia em produções cinematográficas desde o início do século XX, procurou se adaptar aos novos tempos e passou a planejar suas películas “falantes”

Voltando um pouco no tempo, é interessantes verificar que os primeiros filmes “posados” (isto é, de ficção) feitos no Brasil eram, em geral, produzidos por pequenos proprietários de salas de cinema das  duas maiores cidades do país: Rio e São Paulo. Normalmente eram filmes que retratavam os crimes mais explorados pela imprensa. Foram os casos do média metragem “Os Estranguladores”, de Francisco Marzullo (1906), reconhecido como o primeiro sucesso do gênero, registrando mais de 800 exibições no Rio; “O Crime da mala”, de Francisco Serrador (São Paulo, 1908) e o curta “Noivado de Sangue”, de Antonnio Leal (Rio, 1909). Além desses, havia também películas no estilo das comédias, como o curta “Nhô Anastácio chegou de viagem”, produzido pelo famoso fotógrafo Marc Ferrez (1908).

Em 1909 surgiam os primeiros filmes “cantados” (calma, ainda não é sonorização da película!). Eram obras que recebiam o suporte de atores que, posicionados atrás da tela, dublavam as cenas ao vivo. O sucesso deste sistema resultou na filmagem de revistas musicais (“Paz e amor”, 1910, uma sátira ao presidente Nilo Peçanha) e trechos de óperas (“O Guarany”, 1911).

Havia forte concorrência entre as produções do Cinematógrafo Rio Branco (de Alberto Moreira) e da Rede Serrador, que se instalou no Rio e produz o drama histórico “A República Portuguesa” (1911), que se tornou outro sucesso. Hoje não existem sequer fragmentos desses filmes.

Cenas de Coisas Nossa, o primeiro filme falado produzido no Brasil, publicado na Revista O Cruzeiro, de 1931.

Cenas de Coisas Nossa, o primeiro filme falado produzido no Brasil, publicado na Revista O Cruzeiro, de 1931.

Um filme nacional, de fato, cantado

Com os êxito das fitas norte-americanas “faladas”, o mercado cinematográfico brasileiro se empolgou, ainda que muita gente torcesse o nariz para a novidade. Depois do sucesso de público de 1929, foi na década seguinte que algumas empresas nacionais se preparam para produzir cinema “falado” brasileiro. A primeira delas foi a Byington & Cia, do empresário Alberto Byington Junior, que selou um acordo comercial com a Columbia Pictures. Em 1930, o cineasta novaiorquino Wallace Downey foi contratado para dirigir um musical produzido pelas duas empresas, cujo roteiro englobava os principais estilos de músicas brasileiras. O título escolhido, não poderia ser mais claro: “Coisas Nossas”.

Uma estrela santista, Zezé Lara

O sucesso do filme também dependia do elenco. Assim, Alberto Byington decidiu não economizar e convocou algumas dos maiores nomes do rádio e do  teatro brasileiro, como Francisco Alves, Jaime Redondo, Procópio Ferreira, Helena Pinto de Carvalho, Paraguassú, Baptista Júnior, Arnaldo Pescuma, Corita Cunha, entre outros. No meio desta constelação tupiniquim, figurava a grande estrela, santista, Zezé Lara, uma das cantoras mais celebradas do país.

Zezé, que ainda não havia feito cinema em sua vida, tornou-se protagonista de uma das cenas musicais de canto regional, se dando super bem, a ponto de ser considerada uma das que melhor correspondeu às expectativas dos diretores.

Com som gravado pelo sistema Vitaphone (discos), o musical revelou a imagem da nova geração da música popular e explorou com felicidade os entrechos cômicos e paródicos, como na famosa seqüência de Procópio Ferreira, que cantando “Singing in the rain” no banheiro, cena que se transformou no primeiro grande sucesso do cinema brasileiro.

Coisas Nossa entrou para a história como o primeiro filme brasileiro sonorizado, musicado, cantado, falado… e com a importante contribuição de uma santista, partícipe fundamental de mais um pioneirismo nacional.

Mais um anúncio do filme histórico.

Mais um anúncio do filme histórico.

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