Em 1960, a vida simples do milionário Pelé, o menino que levou o nome da cidade de Santos para o mundo

Quando chegou em Santos, em 1956, aos 16 anos de idade, para atuar no clube de futebol mais popular da cidade, o garoto Edson Arantes do Nascimento mal podia supor que se transformaria, em pouco tempo, numa espécie de embaixador daquele simpático município praiano e portuário que o acolheu.

Pelé, como todos se acostumariam a chamá-lo mais tarde (ele ainda chegou a ser apelidado de Gasolina), logo conquistou seu lugar no time, substituindo o ídolo santista Jair. No ano seguinte, como titular, mostrou toda a sua categoria tornando-se artilheiro do Campeonato Paulista, com 17 gols marcados.

Em 1958, o garoto só não fez chover. Foi novamente artilheiro do “peixe” na campanha do título paulista daquele ano, mas desta vez anotando incríveis 58 gols (recorde até hoje não superado), assim como o grande destaque da Seleção Brasileira campeã do mundo na Suécia. Suas façanhas na Europa renderam-lhe elogios da imprensa mundial, que já o decretavam como o maior jogador de futebol visto até então. E olha que Edson tinha ainda, e apenas, 18 anos de idade.

Com toda a moral do planeta, o jovem atleta tinha tudo para se transferir para os grandes clubes europeus da época. Contudo, preferiu ficar na casa que o acolheu tão bem, a cidade santista, para viver uma vida simples, apesar da fortuna que já tinha juntado em menos de cinco anos.

E essa relação estreita, aliada à simplicidade de seu comportamento, terminou por render uma interessante reportagem publicada na revista O Mundo Ilustrado (edição de 27 de agosto de 1960), sob o título “O Milionário Pelé”, que o Memória Santista resgata, na íntegra, com texto original de E.M.Raide e fotos de Renato Clobetti.

Pelé pedala na Avenida Pinheiro Machado, defronte à Pensão de Raimundo, com bicicleta emprestada. Na garupa, o menino "Porunguinha”, de três anos de idade, espécie de irmão adotivo de Edson Arantes do Nascimento.

Pelé pedala na Avenida Pinheiro Machado, defronte à Pensão de Raimundo, com bicicleta emprestada. Na garupa, o menino “Porunguinha”, de três anos de idade, espécie de irmão adotivo de Edson Arantes do Nascimento.

 

O MILIONÁRIO PELÉ

“Cada chute de Pelé vale milhões, mas o maior craque de futebol de todos os tempos nunca perdeu a simplicidade, mesmo passando quase repentinamente da pobreza à posse de grande fortuna”

Estreando em outubro de 1957, em substituição ao célebre Jair, no Santos Futebol Clube, o jovem Pelé (Edson Arantes do Nascimento), então com 16 anos de idade, iniciou a mais espetacular Carteira da história do futebol. No ano seguinte, 1958, tornava-se o artilheiro do Campeonato Paulista, superando todos os recordes brasileiros ao marcar, durante o certame, 58 gols.

Foi, no entanto, o Campeonato Mundial, na Suécia, que lhe deu a projeção de astro internacional. Os cronistas de todos os países foram unânimes em apontá-lo como o maior jogador de todos os tempos, o que reuniu as qualidades de todos os craques do passado. Ao voltar ao Brasil, aclamaram-no como a um Rei. Era o fabuloso Pelé, mais conhecido no estrangeiro do que o próprio presidente da República. Hoje, ele ganha oficialmente Cr$ 200 mil por mês (o equivalente em 2017 a R$ 160 mil por mês), do Santos Futebol Clube, e gratificações vultosas durante os jogos importantes.Numerosas propostas de clubes nacionais e estrangeiros foram por ele rejeitados. Pelé é patrimônio do Santos Futebol Clube, da cidade de Santos, cujo nome também adquiriu fama internacional. Representar prestígio, sucesso de bilheteria que pode ser traduzido em vários milhões de cruzeiros para seu clube. A cada passo, percebe-se o significado da presença do jovem ídolo. Os clubes do interior costumo pagar aos quadros da primeira divisão Cr$ 300 mil líquidos por jogo. O Santos Futebol Clube alcança mais: Cr$ 700 mil. Cláusula fundamental para o alto preço: a participação do craque.

Quando o anunciam, nas longínquas cidades, como aconteceu recentemente em Presidente Prudente, a renda duplica, na certa. Afluem admiradores dos municípios vizinhos para vê-lo em campo. É o milionário Pelé.

Palácio do rei é uma pensão num bairro sossegado de Santos

Em 1959, o Santos Futebol Clube realizou cerca de 100 partidas. Pelé esteve presente em aproximadamente noventa. A metade constituiu-se de jogos amistosos onde ele representava 50% do interesse dos espectadores. A Cláusula Pelé também é irrevogável nos contratos com clubes estrangeiros. Em sua última excursão fora do Brasil, em 20 jogos, o Santos FC alcançou a renda de Cr$ 12 Milhões, calculando-se que a metade dessa quantia foi obtida graças à presença do astro.

Quando a C.B.D. (Confederação Brasileira de Desportos – atual CBF) organiza a  seleção nacional e promove partidas extra-oficiais, paga a cada clube, pela cessão de cada jogador, a importãncia de Cr$ 400 mil. Geralmente Pelé te de ir, contundido ou não, em boas ou más condições físicas, com ou sem saúde, para jogar 90 ou apenas cinco minutos É a “Cláusula Pelé”, sem a qual diminui o número dos contratos e a atração dos espetáculos.

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O rapaz simples

“Eu o conheço há mais de três anos, desde quando ele começou, e não notei nenhuma mudança em sua personalidade, diz o cronista esportivo Ávila Machado. Apesar da fama e da popularidade, não obstante ter ganho Cr$ 10 milhões nesses últimos anos (dinheiro que o pai aplicou na aquisição de imóveis), Pelé conserva o comportamente simples dos rapazes do interior. O pai envia-lhe a “mesada” de Cr$ 10 mil. Com esse dinheiro, o craque paga a pensão, onde há meio ano se hospeda com Dorval, seu companheiro no time. A pensão pertence a Raimundo, ex-jogador de cestobol (basquete) do Santos. E ali vivem também Zoca (Jair Nascimento), irmão de Pelé de 17 anos e aspirante do Santos FC e mais José Carlos, ou “Porunguinha”, de três anos de idade, espécie de irmão adotivo de Edson Arantes do Nascimento.

Pelé nasceu para o futebol, vive para o futebol. Joga, em média, duas partidas semanais, o que lhe consome as energias. Costuma deitar cedo, levantar cedo e dormir sempre que pode, sobretudo em viagens aéreas.

 

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O prisioneiro

A popularidade tornou-o, de certa forma, prisioneiro. Não pode locomover-se a qualquer hora, ir a qualquer lugar. As aglomerações se formam em poucos momentos. Basta que alguém anuncie a sua vinda ou denuncie a sua presença. Entre as mulheres, seu nome soa como o de um astro de cinema. No entanto, não há tempo disponível para conversar com admiradores. Nem há muitas palavras, Pelé é lacônico, embora solícito e amável.

Assim é fácil encontrá-lo, quando está em Santos, na pensão de Raimundom à rua Pinheiro Machado. Pelé não fuma, não bebe, vai pouco ao cinema. Seu trajeto habitual é da pensão ao Santos FC e vice-versa. As horas de lazer, que são poucas, reserva-as para o descanso. Ouve músicas, de preferência o samba, e sonha em jogar em clubes da Europa, ganhar muito dinheiro, montar indústria com o pai e os irmãos e aprender muitos idiomas.

Agora, no entanto, ele vive para o Santos as 24 horas do dia e os 365 dias do ano. Segundo os cronistas, Pelé  valoriza o Santos FC em 50%: com ele o Santos é um quadro; sem ele, é outro.

O pai do ídolo

Rei no campo, durante os jogos de futebol de que participa, Pelé não reina depois, fora do gramado, em matéria de contratos, de receita e de despesas. Quem decide tudo é Dondinho, pai do craque, que foi jogador em Minas Gerais, há muitos anos, e viu os astros do futebl ganharem fama e fortuna e eclipsarem-se de repente, tornarem-se esquecidos, pobres, arruinados. Pelé não terá esse destino. O jovem campeão do mundo é filho de um “financista”. Dondinho exerce controle à distância. Vive em Bauru. Que faz com o dinheiro encaminhado pelo Rei? Pelé não sabe responder. Diz vagamente que “meu pai parece que comprou duas casas em Bauru” e “deve ter dinheiro em Banco também”.

Normalmente, com a fama mundial que desfruta e os Cr$ 10 milhões que já ganhou nesses últimos anos, Pelé poderia estar esbanjando tudo em automóveis, apartamentos, roupas e diversões. Vive uma vida modesta, no entanto. Não chegou a comprar uma bicicleta sequer. Passeia numa, às vezes, de um amigo. Recentemente, como fazia parte do contrato com o Santos, recebeu um “Volkswagen”. Passa o dia na pensão do Raimundo, faz amizade rapidamente, à primeira vista, é popular entre as crianças e as adolescentes da vizinhança. Assim é o milionário Pelé.

Frente da pensão de Raimundo, na Pinheiro Machado

Frente da pensão de Raimundo, na Pinheiro Machado

Na legenda: Na folga, Pelé passa o dia na pensão, ouvindo discos ou conversando, à vontade, como qualquer outro bom rapaz da sua idade.

Na legenda: Na folga, Pelé passa o dia na pensão, ouvindo discos ou conversando, à vontade, como qualquer outro bom rapaz da sua idade.

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