Avião cai na praia do Gonzaga e põe fim no sonho de jovem aviador brasileiro

Nos primeiros tempos da aviação no Brasil, a partir da década de 1910, as experiências aéreas praticamente se restringiam à esportividade, ao exibicionismo. Voar não era algo comercial (como um meio de transporte a ser explorado), mas uma prática em testes constantes, na busca cotidiana por recordes e herois. Os brasileiros foram testemunhas privilegiadas da infância da aviação, muito em função pelo país ter sido o berço do famoso Alberto Santos Dumont, o homem que iniciou a grande trajetória pela conquista dos céus.

Neste contexto, a cidade de Santos (berço de outro personagem histórico relevante para a conquista aérea – o padre Bartholomeu de Gusmão) teve o privilégio de ter seu espaço aéreo riscado pelos pioneiros da aviação no Brasil, como Edmund Planchut (que aqui executou uma das primeiras experiências de voo em alta altitude – assunto que abordaremos em breve no Memória Santista) e Edu Chaves (primeiro piloto brasileiro a realizar um voo no país, numa viagem de São Paulo a Santos, em 8 de março de 1912 – Veja artigo no Blog).

A preferência por Santos

Uma das características que atraia para a cidade litorânea paulista esses aventureiros sobre asas era o fato de Santos possuir uma praia extensa de areia dura, o que facilitava as ações de decolagem e aterrisagem, ao contrário de tantas outras localidades, que se obrigavam a construir ou adaptar áreas para a prática. Porém, ainda assim, estas regiões não tinham à disposição o que os aviadores mais valorizavam na terra santista, que era o fato de o campo de pouso e decolagem (no caso, as praias) ser banhado por uma baía de águas tranquilas, que acabava servindo de opção segura para “quedas estratégicas” (quando falhavam motor, trem de pouso ou qualquer outra situação que requeresse um pouso de emergência).

Acidentes aéreos eram extremamente comuns nos primeiros passos da aviação. Muitos pilotos aventureiros sacrificaram suas vidas em nome do avanço tecnológico para a arte de voar. De 1910 a 1920, aconteceram centenas de registros de quedas, com dezenas de nomes inseridos no panteão dos herois da aviação. Muitos, porém, sobreviveram às quedas, via de regra quando caiam em lagos, rios e no mar.

O Ansaldo S.V.A. , modelo utilizado por Alfredo Daudt em sua aventura terminada em Santos.

O Ansaldo S.V.A. , modelo utilizado por Alfredo Daudt em sua aventura terminada em Santos.

O acidente de Alfredo Daudt

Um dos mais incríveis acidentes aéreos ocorridos em Santos, motivação deste artigo, foi o que teve como protagonista o aviador brasileiro Alfredo Corrêa Daudt.

Corria o ano de 1920. A aeronáutica já era uma realidade no país. Diversas escolas de aviação tinham sido abertas, em especial no Rio de Janeiro, onde fora criado o Campo dos Afonsos (sede da primeira organização aeronáutica do Brasil, o Aeroclube Brasileiro), em 1911. Durante a década de 1910, os jornais viviam estampando manchetes sobre os famosos “reides” (ou incursões) aéreos, com distâncias cada vez mais ousadas. São Paulo-Rio, Santos-Rio, Rio-Curitiba, Rio-Vitória… e assim por diante, porém em trajetos não mais distantes do que mil quilômetros.

O grande desafio para a década que entrava era conquistar a desejada rota Rio-Buenos Aires, ligando as capitais dos dois países mais importantes da América do Sul. E foi para vencer essa distância, que Daudt, jovem aviador de 24 anos de idade, iniciou seu planejamento nos meses finais de 1919.

Aplicado aluno da Escola de Aviação do Aeroclube Brasileiro, Daudt preparou minuciosamente sua aeronave, um Ansaldo S.V.A., monomotor biplano italiano de 270 HP, para a aventura. Seus instrutores, Herculano Virgílio e o famoso Virginius Brito de Lamare, estavam bastante otimistas quanto ao êxito de Daudt na missão. A meta inicial era fazer o percurso Rio-Porto Alegre, noticiado na imprensa como o primeiro “raid aéreo” para a capital gaúcha.

Tudo preparado, o Ansaldo S.V.A. decolou do Campo dos Afonsos às 5h45 do dia 28 de janeiro de 1920, primeiramente para um voo de ensaio de 15 minutos de duração, a fim de checar as condições da aeronave. Depois de verificado, Daudt finalmente partiu para a missão, largando serenamente às 6h15. O aeroplano subiu em obliqua e, depois de uma ascenção rápida, atingindo a altura de 3.500 metros. Em seguida, partiu reto, tornando-se apenas um ponto negro no espaço aéreo carioca.

A expectativa era grande sobre o jovem aviador, que tinha um curriculo de 19 voos solos, todos bem executados. Daudt treinou intensamente por 22 dias, tendo voado até setembro de 1919 em aparelhos de comando duplo. Agora, sozinho, tinha de fazer valer o crédito que lhe depositaram.

O jovem aviador sentiu o primeiro problema quando sobrevoava o litoral norte paulista, na altura da Ilha Montão de Trigo (na direção da praia de Juqueí). Até então ele vinha vencendo a dificuldade para ultrapassar algumas nuvens pesadas desde a altura da Ilha Grande, que o obrigaram, em vários momentos, a navegar apenas com o auxílio da bússola. Após atravessar São Sebastião, Daudt percebeu que o indicador da bomba de óleo acusava uma perda de força (ela deveria acusar uma pressão de 25 metros de água, mas não chegava a 15), o que o obrigou a diminuir sensivelmente a rotação do motor, a ponto do aparelho apenas se sustentar no voo horizontal, quase que planando.

O aeroplano de Alfredo Daudt, com a hélice partida, já na areia do Gonzaga. Ao fundo, vê-se o Hotel Bandeirante.

O aeroplano de Alfredo Daudt, com a hélice partida e cercado de curiosos, na areia do Gonzaga. Ao fundo, vê-se o Hotel Bandeirante.

Não tardou para que o aviador brasileiro sentisse o segundo problema tomar conta da situação. Quando se achava a 3.200 metros de altura, quase tocando nas nuvens superiores, Daudt, que pretendia fazer um breve pouso em Santos, não conseguia ter a menor visão de terra, em função de outra camada espessa de nuvens ter se formado sobre a região da Baixada Santista.

Com nuvens acima e abaixo, o jovem piloto já começou a se sentir “perdido”, quando divisou, através de um claro, um pedaço da Serra do Mar. Calculava, então, estar bem perto da cidade de Santos. Vendo uma nuvem menos densa à sua frente, a cinco quilometros de distância, decidiu arriscar, furando-a.

Foi quando percebeu que já estava perigosamente a 300 metros do chão e a 180 metros da Ilha Porchat. O altímetro baixava rapidamente, e Daudt temia chocar-se contra algum dos morros locais. Numa manobra audaciosa, o jovem piloto fez uma curva fechada à esquerda e apontou para a praia do José Menino. Pretendia descer entre  os canais 1 e 2. Mas, para seu azar, havia muita gente no local, e não poderia colocar em risco aquela gente, que à altura festejava a grata surpresa naquela manhã de quarta-feira (Era pouco mais de 8 horas quando o avião chegara a Santos).

O piloto brasileiro, então, teve que agir rapidamente. Com o motor fraco demais para fazer o aeroplano subir novamente, ele se utilizou da vantagem oferecida pela baía santista para os casos de aterrisagem emergencial. E mergulhou na arrebentação, quase na altura da Ana Costa.

O Ansaldo S.V.A. capotou na água e sofreu vários danos, incluindo a quebra da hélice. Daudt saiu com uma luxação no braço direito e traumatismo em algumas vértebras, sendo socorrido pelas pessoas que estavam na praia. Sem ter como consertar sua aeronave, teve de encerrar ali mesmo, na praia santista, o seu Raid Rio-Porto Alegre. O piloto voltaria para a capital federal pelo trem noturno, partindo de São Paulo.

Em fevereiro, Daudt falaria à imprensa sobre o ocorrido em Santos, lamentando o fracasso da missão, cujo “intuito era apenas desenvolver o amor pela aviação no Brasil, sobretudo no Rio Grande do Sul, meu Estado Natal”.

 

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