Vitral da Bolsa de Café, obra de arte da famosa Casa Conrado

Clique para ver maior

Clique para ver maior. Foto de Karina Frey (Bolsa do Café)

O uso de vitrais é bastante antigo na humanidade. Basicamente ele nos remete aos tempos medievais, quando a arte surgiu no continente europeu no início do século 10, dentro de igrejas francesas e alemãs, incorporadas à arquitetura gótica. De início, era utilizada para difundir representações históricas bíblicas dentro dos templos católicos. Com o passar dos anos, entretanto, o conceito foi introduzido em outros ambientes, como forma de decoração.

A Casa Conrado

No Brasil, a adoção da arte em vitrais se deveu fundamentalmente ao trabalho do artesão de origem alemã, Conrado Sorgenicht. Imigrante chegado em 1878, da Renânia católica, ele se estabeleceu na capital paulista, onde abriu uma pequena oficina para oferecer serviços de pintura de ornamentos, tapeçaria e colocação de vidros para vidraças. Diante do crescimento paulista, muito em razão das riquezas proporcionadas pela cultura cafeeira, Conrado Sorgenicht viu sua clientela aumentar, e muito. Os novos clientes, muitos deles órgãos públicos e grandes construtores, lhe encomendavam uma infinidade de vitrais, que começavam a se tornar “febre” naquele país que enriquecia com o café.

Vitral da Casa Conrado no famoso Mercadão de São Paulo

Vitral da Casa Conrado no famoso Mercadão de São Paulo

Notando que ali estava uma ótima oportunidade de crescimento, o alemão fundou, então, a Casa Conrado, no ano de 1889, a fim de atender a demanda crescente. O negócio deu tão certo, que a empresa se tornou referência internacional ao longo do tempo. E, assim, foram quase cem anos de atividades, construíndo um portfólio com mais de 600 obras de arte espalhadas pelo Brasil.

Os trabalhos em Santos

Assim como todo o Estado de São Paulo, Santos testemunhou a pujança e o progresso proporcionado pelo comércio de café, principalmente a partir da década de 1920, quando a cidade se transformou radicalmente, vendo surgirem grandes edificações públicas. Em muitas delas, a arte em vitral se fez presente, como foi o caso da Bolsa Oficial de Café.

Na iminência da inauguração do suntuoso espaço, a Casa Conrado, contratada para produzir o vitral do teto do Salão de Pregão, mandou produzir um pequeno livreto que descreveu o significado da arte ali exposta, elaborada pelo famoso pintor Benedicto Calixto. Batizado como “A Epopéia dos Bandeirantes”, a obra representa os três principais períodos do desenvolvimento do Brasil que, na ótica do artista, eram “A Penetração e Conquista do Sertão pelos Bandeirantes”, “A Lavoura e Abundância” e “A Indústria e o Comércio”.

Prédio da Bolsa, na década de 1920.

Prédio da Bolsa, na década de 1920.

O livreto de Conrado

Memória Santista teve acesso ao famoso livreto produzido em 1992, distribuído durante a festa de inauguração da Bolsa de Café de Santos, ocorrida no dia 7 de setembro daquele ano, por conta das comemorações aos cem anos da Independência do Brasil. E aqui o transcreve:

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A EPOPEIA DOS BANDEIRANTES

É este o título do belo vitral que mostro na capa deste folheto e que decora o teto do Hall deste magnífico Palácio da Bolsa.

O nosso alto comércio, na luta cotidiana, em trabalho exaustivo e estafante para dar expansão à nossa riqueza agrícola, não se esquece que também a arte é um dos elementos mais poderosos para o seu bem-estar e um dos que mais contribuem para a educação do povo. Eis a razão por que tanto protege e estimula a arte nacional.

Deste preclaro modo de pensar é que nasceu também a idéia de enriquecer o suntuoso edifício que hoje se inaugura com um vitral que, sendo uma verdadeira obra de arte nacional, fosse também uma eloqüente prova do carinho e do amor com que os nossos negociantes progressistas tratam as artes.

A Cia. Construtora de Santos, à qual foi confiada a construção, não hesitou em tornar realidade esta bela idéia e escolheu para executar o esboço do vitral o já muito conhecido artista sr. professor Benedicto Calixto.

Uma simples vista d’olhos sobre a estampa da capa e a leitura da descrição que se segue demonstram que o grande pintor correspondeu plenamente à confiança nele depositada e que não podia ter sido melhor a escolha dos motivos: são todos assuntos que se ligam à nossa história e principalmente aos fatos mais brilhantes do passado de São Paulo.

Entretanto, sabiam os idealizadores desta obra que à bela idéia é necessário aliar a boa execução e a mim coube a honra de ser-me confiado o confeccionamento deste difícil trabalho. De boa consciência posso dizer que não poupei esforços nem sacrifícios para poder apresentar aos idealizadores e ao público uma obra de arte que fizesse jus à confiança com que fui distinguido. Mas bem maiores foram os esforços dos srs. professor Calixto, seu digno filho dr. Sezinando Calixto e dos artistas meus auxiliares.

A todos eles apresento os meus sinceros sentimentos de gratidão, principalmente aos primeiros, que foram incansáveis na correção e no desenho da obra. o resultado compensou plenamente todos os trabalhos, todas as energias despendidas. De fato, o vitral agradou aos seus idealizadores e ouso esperar que também estará a inteiro contento dos distintos visitantes do Palácio da Bolsa.

Setembro de 1922.
Conrado Sorgenicht

“A epopéia dos Bandeirantes”:

Eis como o professor Benedicto Calixto descreve este seu painel histórico:

Divide-se esta composição em três motivos ou ciclos diferentes da nossa História:

No centro: 1º – “A visão do Anhangüera, a Mãe do Ouro e as Mães d’Água”.

Aos lados: 2º – “A Lavoura e a Abundância”. 3º – “A Indústria e o Comércio”.

visaodeanhenguera“A visão do Anhangüera”:

Este primeiro quadro representa o “Ciclo do ouro e das esmeraldas”, no período que vai de 1560 a 1728. Foi este o tempo dos “bandeirantes” de coragem inaudita, que se embrenhavam pelo sertão à procura dos tesouros fabulosos de que contavam as lendas. Homens desta têmpera eram os dois personagens que aparecem à direita do quadro. São eles Bartolomeu Bueno da Silva, apelidado “Anhangüera”, e seu filho de mesmo nome e nesse tempo ainda um mancebo.

Foram estes dois destemidos sertanejos que em 1682 descobriram as ricas minas de Goiás, na legendária serra do Martírio, notabilizando-se também como caçadores de índios. Em uma refrega com o gentio goiás, perdeu o pai o olho direito, vazado por uma flecha certeira.

A energia inquebrantável de seu caráter e o seu aspecto feroz deram lugar a que os indígenas apelidassem este Bandeirante “o Anhangüera”, que quer dizer “O Diabo Velho”. Quão apropriado era este apelido mostram bem a estampa acima e o seguinte episódio, prova da diabólica astúcia com que agia o “Diabo Velho”:

Tendo observado no sertão goiano que as mulheres traziam belas pepitas de ouro em seus adornos, e não podendo obter dos índios a indicação precisa do local em que era achado este metal precioso, resolveu o Anhangüera atemorizá-los, a fim de conseguir as informações de que necessitava.

Ameaçou-os então de lançar fogo à água dos lagos e dos rios, fazendo ver aos índios que toda a tribo pereceria de sede se persistisse em não indicar-lhe o local das minas de ouro; e juntando a ação à palavra, o astucioso Anhangüera exibiu-lhes uma vasilha com aguardente, à qual lançou fogo, deixando que todo o álcool se consumisse à vista dos selvagens estupefatos.

Assim arrancou o Anhangüera dos ingênuos goianos a indicação exata das desejadas minas.

Perto de quarenta anos após esta primeira expedição, tendo já falecido o velho Anhangüera, seu filho, conhecido também pelo mesmo apelido de Anhangüera, organizou outra “Bandeira” e voltou aos longínquos sertões de Goiás, a fim de explorar as famosas minas da Serra do Martírio, descobertas por seu pai.

Esta expedição, porém, desviou-se do antigo roteiro e andou durante anos errante pelas brenhas do sertão, sem poder atingir o almejado ponto. A Serra do Martírio, que os pobres homens entreviam ansiosos todos os dias, como que fugia diante da caravana, e jamais de “desencantava” das brumas e das enganosas miragens daquele inóspito sertão goiano!

Parte dos aventureiros já havia desertado ou morrido de fome e de febres palustres e só poucos companheiros restavam ainda fiéis ao seu teimoso e destemido chefe.

Anhanguera

Anhanguera

É que o Anhangüera havia prometido ao capitão-general de São Paulo – Rodrigo César de Menezes – e à sua própria esposa e filhos que “ou voltaria a São Paulo com o rico produto das minas de Goiás, ou morreria no sertão”.

O Anhangüera cumpriu a sua palavra: descobriu de novo as ricas minas, conquistou o imenso sertão. Voltou a São Paulo carregado de tesouros e glorificado por todos; mas morreu no esquecimento e em pobreza extrema, vendo, à última hora, os seus bens seqüestrados pelo fisco colonial!

Bem é que a arte e a história o glorifiquem hoje.

“A Mãe de Ouro e as Mães d’Água”:

Existe ainda na tradição dos nossos caboclos do interior, e mesmo do litoral, a lenda da “Mãe de Ouro e das Mães d’Água”. Eram as náiades (ninfas das fontes) e as limoniades (ninfas dos lagos e dos bosques) que presidiam e guardavam os metais preciosos e as gemas faiscantes, tão apetecidas em todos os tempos pelo homem.

E esses tesouros eram cercados de terríveis monstros, reais e imaginários, que velavam dia e noite sobre aquelas recônditas riquezas. Era a “guarda” que defendia as entradas das cavernas e as margens das lagoas e faisqueiros, onde rebrilhavam as faiscantes palhetas e pepitas.

A crendice popular afirma, ainda hoje, que as jazidas auríferas, ocultas nas vivocas e nas votupocas das serras alcantiladas, se manifestam e como que se comunicam entre si por meio de verdadeiros jatos luminosos, semelhantes às esteiras das estrelas cadentes e dos bólidos que se cruzam e explodem no espaço, nas noites cálidas e calmas.

São as escaramuças da Mãe d’Ouro! – exclamam sempre o caiçara e o caboclo do sertão, ao ver a esteira luminosa de um bólido que corta a abóbada estrelada.

É a dourada Ninfa, realmente, que emergindo das chamas produzidas pelas explosões das votupocas, ou surgindo dentre as fosforescências dos fogos-fátuos e dos baêtatáes, exalados pelas lagoas e pântanos paludosos, vem, qual salamandra, distribuir as suas riquezas pelas náiades e pelas limoníades conhecidas por “Mãe d’Água”.

A lenda, por mais ingênua e absurda que pareça, tem sempre um fundamento razoável. De fato: o ouro e as pedras preciosas desagregados dos montes, por efeito do constante trabalho erosivo das águas, rolavam e vinham, outrora, como ainda hoje vêm, depositar-se, em aluvião, no fundo dos lagos e no alvéu dos nossos rios.

Não nos parece, portanto, a “Mãe d’Ouro” dos montes a derramar constantemente os seus dons, os seus tesouros, sobre os receptáculos que lhes oferecem as “Mães d’Água” dos lagos e dos rios?

Era ainda, pela ação da ninfa dos rios e das lagoas auríferas, que os bandeirantes paulistas formavam as faisqueiras artificiais.

As visões e miragens sedutoras que deslumbravam a vista e a alma dos anhangüeras, através do sertão goiano, se eram um mito ou uma alucinação, tinham contudo algo real. Bem reais eram os monstros que guardavam ferozmente as minas e povoavam os rios e lagos.

O temível “Ururá”, conhecido mais popularmente como Jacaré de Papo Amarelo.

O temível “Ururá”, conhecido mais popularmente como Jacaré de Papo Amarelo.

O mais terrível, o mais temível desses monstros era, por certo, o índio Payaguá, que, como verdadeiro anfíbio, terrível como um ururá, emergia inesperadamente das balseiras de aguapé e dos juncais, diante da tosca canoa do bandeirante, empunhando, em atitude ameaçadora, o arco retesado e a flecha sempre embebida no peçonhento curare.

O Payaguá era o inimigo mais encarniçado e temível do bandeirante paulista.

Este “Ciclo do ouro, da prata, do ferro e das pedras preciosas”, 1560-1728, um dos mais brilhantes da nossa História, trouxe, entretanto, grandes proveitos, mas também grandes males ao Brasil.

Da procura dos tesouros resultou a penetração e conquista do vasto sertão, a expansão territorial. Asseguraram-se e definiram-se os limites com as possessões espanholas, formaram-se as grandes capitanias de Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais.

Mas, por outro lado, muito sofreram nesse período as capitanias antigas e principalmente a Lavoura. Com o êxodo contínuo de seus habitantes para aquelas longínquas paragens, a capitania de São Paulo despovoou-se. A pobreza e a ruína em que caíram as primitivas povoações fizeram com que muitas delas desaparecessem completamente. O ouro extraído das minas contribuiu apenas para o empobrecimento da colônia lusitana nesta parte do Brasil, pois tirou à Lavoura muitos braços valiosos.

Esta principal fonte de riqueza ficou quase extinta e completamente abandonada. Foi esse o maior mal que causou à colônia o Ciclo do Ouro.

lavouraeabundancia“Segundo ciclo”:

“A Lavoura e a Abundância” – Esta segunda fase, representada no 2º quadro, inicia-se nas antigas donatarias de Martim Afonso e Pero Lopes, então denominadas “Capitanias de São Paulo” (1729). Os bandeirantes paulistas, já desacoroçoados e fatigados pelas aventuras e pela rudeza da vida nômade do sertão, se retraem ante os “amáveis convites” e as “atraentes munificências” com que lhes acenavam ainda os soberanos da metrópole; e, desiludidos, voltam aos seus lares, então empobrecidos e abandonados.

A lavoura, estiolada e quase extinta, ressurge então vigorosa pelo labor daquele mesmo braço forte que, até então, só soubera manejar a bateia e o facão de mato, a espada e o mosquete.

É este o mesmo período da lavoura, que tendo início no alvorecer do século 18 – ainda no regime colonial – transforma-se depois na “Fase de Abundância”, com a promulgação da Lei Áurea que libertou os escravos no Brasil e intensificou poderosamente a imigração subvencionada e espontânea no fim do segundo Império. É este surto de progresso que vem, finalmente, coroar e caracterizar o “Ciclo da Abundância”! O cenário deste quadro representa, pois, um terreno baldio e agreste transformado em vicejante e próspera cultura agrícola.

No primeiro plano, ao centro, um gênio, simbolizando a lavoura, chama os homens ao trabalho, mostrando-lhes as recompensas que a terra generosa lhes oferece. Ao lado esquerdo, outro gênio de mulher, simbolizando “A Abundância”, tem em torno de si todos os ricos produtos da lavoura: o café, algodão, álcool, açúcar, milho, feijão, arroz etc. Do lado oposto, colonos com instrumentos de lavoura, cercados de animais domésticos, saúdam e aclamam a lavoura, que os enche de riquezas.

industriaecomercio“Terceiro ciclo”:

“A Indústria e o Comércio” – Este terceiro ciclo é a conseqüência natural do imediato: pois o desenvolvimento das diversas culturas nas terras conquistadas e desbravadas pelos bandeirantes, sobretudo o grande desdobramento da lavoura do café em zonas até então despovoadas, deveria forçosamente acoroçoar e promover o incremento da Indústria e do Comércio, “Urbi e Orbe”, conforme o mote que se lê sobre o globo terrestre, no primeiro plano do 3º quadro.

O ciclo da “Indústria e Comércio” tem o seu período de intensificação no regime republicano. O quadro representa um postiço monumental (a Bolsa de Café), no qual se ostenta um gênio simbolizando a Indústria e o Comércio, com a túnica e o manto da realeza, empunhando um cetro coroado pelo caduceu de Mercúrio. Tem na destra um título bancário, que oferece a outro gênio de mulher que simboliza a Pátria.

Ao lado da primeira figura, uma caixa-forte, aberta, contém valores comerciais, acessórios e atributos relativos ao jogo e negócios da Bolsa de Café.

D’outro lado desta figura central, dois operários ostentam os símbolos da Indústria e do Trabalho, que são, realmente, os elementos primordiais do progresso e da verdadeira riqueza: porque “ouro é o que ouro vale”, conforme se lê em um fardo de mercadorias do “Segundo Ciclo”.

No último plano deste quadro divisa-se uma seção das Docas do Porto de Santos, com os respectivos guindastes, locomotivas e grandes transatlânticos carregando café. No céu voa um aeroplano, como a lembrar que Santos foi o berço do “Padre Voador”, em 1724.

Vejamos, agora, como se constitui:

Raposo Tavares

Raposo Tavares

“A moldura”:

Os diversos motivos que compõem a moldura dos três quadros acima descritos são como segue.

Nos oito medalhões, os retratos dos principais bandeirantes – Braz Cubas, Affonso Sardinha, O Anhangüera, Fernão Dias Paes Leme, Domingos Jorge Velho, Carlos Pedroso da Silveira, Antonio Raposo Tavares e Paschoal Moreira Cabral – que representam as principais entradas e descobrimentos no sertão desde 1556 até 1722.

Os ornamentos que enriquecem a moldura são em estilo “renascimento italiano”, de acordo com a arquitetura do edifício. Vêem-se aí estilizados não só os produtos da lavoura paulista – café, a cana de açúcar, o arroz, o milho etc. – como também a fauna, isto é, os principais animais: aves, mamíferos, répteis etc.

Os animais, que compõem o friso da moldura central, “Visão do Anhangüera”, são os duendes e gênios maus da floresta: boitatás, Caaporas, Sacis-pererê, Urutaus, Cachebêbus, Curupiras etc.

Nos outros quadros laterais ao do centro, a ornamentação dos frisos é mais serena e compõe-se de aves canoras e de mais espécies, que povoam ainda as nossas florestas.

As guarnições dos frisos compõem-se de barras e palhetas de ouro e prata, bem como de gemas preciosas: o diamante, a esmeralda, o topázio, o rubi etc.

São Vicente, julho de 1921.
B. Calixto

 

 

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