A história de Manoel Varela e a incrível casa de pedra da Bartolomeu de Gusmão

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A casa de pedra dos Varela, luxo e glamour na esquina da avenida Bartolomeu de Gusmão com rua General Rondon, no bairro da Aparecida.

Santos, anos 1950. O português Manoel de Souza Varela olhava fixamente na direção da Baía de Santos a partir da sacada de sua imponente casa de pedra aparente. O imóvel, símbolo do orgulho de tudo o que conquistara no Brasil desde sua chegada, em 1913, era, sem sombra de dúvida, uma das edificações mais belas, sofisticadas e curiosas da orla praiana santista, situada na esquina da avenida Bartholomeu de Gusmão com a rua General Rondon (onde hoje está o Edifício Sete Palmeiras), no bairro da Aparecida.

Contando com dois amplos pavimentos, o imóvel ostentava um extraordinário luxo. Nas paredes, obras de arte de renomados artistas, inclusive quatro originais de Benedicto Calixto  (segundo a família, uma dos quadros ficava no quarto dos empergados); no piso das salas e quartos, inúmeros tapetes persas e chineses, da mais alta qualidade e autenticidade; na espaçosa sala de jantar, cristaleiras recheadas com finas peças da Boêmia.

Até mesmo os serviços domésticos da casa eram dignos da invídia de boa parte da sociedade santista. Varela tinha nada menos do que onze funcionários à sua disposição, entre babás, passadeiras, cozinheiras, mordomo, motorista, jardineiro, entre outros serviçais, que corriam para lhe atender ao simples toque de uma sineta de prata.

Diante de tanto fausto, Varela podia sorrir, satisfeito, refletindo sobe sua jornada naquela terra a qual dedicara sua história, o pouso que escolhera para construir sua vida e constituir uma família, ao lado da amada Cacilda (Carvalho de Souza Varela).

Manoel Varela poderia se considerar, de fato, um homem rico, financeiramente, dono de um patrimônio invejável, constituído de milhares de bens imóveis espalhados pela Baixada Santista (Praia Grande, Itanhaém, Guarujá e Santos) e Iguape. Ele também era construtor e em seu portfólio de obras constavam prédios notáveis, como edifício Rubiácea (Praça dos Andradas, 12 – Rua do Comércio, 55) e os condomínios Veraneio e Fim de Semana, ambos situados de frente para o mar, na praia dos Milionários, em São Vicente.

Nada mal para quem desembarcou no Porto de Santos sem um único tostão no bolso e a menor ideia do que fazer quando chegou ao Brasil com 20 anos de idade (Varela nasceu em 7 de agosto de 1893), oriundo da pequena vila de Nazaré, distrito de Leiria, Portugal.

Manoel Varela e sua esposa, Cacilda.

Manoel Varela e sua esposa, Cacilda.

Início no interior

Como a maioria dos imigrantes portugueses, Varela foi recepcionado por um parente que morava no país. Um tio, de nome Carlos de Souza, o acolheu na capital paulista, colocando o sobrinho para trabalhar no armazém da família. O jovem estrangeiro também passou a atuar como caixeiro viajante, negociando mercadorias diversas pelo interior, fazendo uso do ramal ferroviário que findava em São José do Rio Preto. E foi justamente naquela cidade do norte do estado de São Paulo que enxergou sua primeira grande oportunidade. Varela descobriu que a população de várias localidades do entorno se deslocavam até S.J.Rio Preto apenas para adquirir as mercadorias que chegavam de trem desde a capital. Sem pensar duas vezes, montou, então, um pequeno armazém naquela cidade, perto da estação ferroviária.

Logo as coisas começaram a fluir, a ponto de incentiva-lo a expandir os negócios para outros municípios interioranos, criando uma rede de estabelecimentos que carregava o seu nome: Armazéns Varela.

Para empreender na área, ele chegou a firmar sociedade com o Banco Comércio e Indústria (Comind), que lhe arrumou o capital, logo recuperado e pago.

A vinda para Santos

Em meados dos anos 1930, Varela negociou seus empreendimentos interioranos e mudou-se para a cidade de Santos, onde também mantinha um armazém (na região do Macuco) e iniciou um trabalho no setor cafeeiro, que acabou, porém, de forma efêmera, em razão de ordens médicas. (ele tinha um problema no coração e foi-lhe recomendado uma atividade que lhe causasse menos estresse).

Foi, então, que partiu para investir na área imobiliária, comprando, com o dinheiro que amealhou durante os anos que atuou no interior, diversos terrenos nas cidades de Praia Grande, Santos, Itanhaém, Iguape e Guarujá. Varela adquiria grandes áreas, loteava-as e as revendia, constantemente auferindo enormes ganhos. Mais uma vez, o sucesso de sua empreitada foi tanto que no início dos anos 1950, o português já reunia mais de três mil lotes regularizados em seu nome.

Parte dos fundos da casa.

Parte dos fundos da casa.

A Casa de Pedra

Milionário e bem-sucedido, Manoel de Souza Varela, já casado e pai de cinco filhos (Fernando, Inácio, Lia Maria, Lúcio e Luiz), percebeu que era hora de morar em uma casa à altura de seus desejos, necessidades e merecimentos.

Foi então que contratou o escritório de engenharia e arquitetura Bratke & Botti (Oswaldo Bratke e Carlos Botti), da capital paulista, para elaborar o projeto da casa de seus sonhos, a ser erguida em dois terrenos vizinhos de sua propriedade na cidade de Santos. Os lotes (nºs 14.905 e 14.906), que se iniciavam na orla da praia (na altura do nº 101 da avenida Bartolomeu de Gusmão), findavam na avenida Epitácio Pessoa (eles foram desmembrados ante do início das obras, uma vez que Varela não pretendia construir em toda a área, tampouco utiliza-la). A cargo da obra, foi designado o arquiteto santista Caio Martins.

A construção se daria, assim, no pedaço do lote frontal à avenida Bartlomeu de Gusmão, esquina com a rua General Rondon, onde já existia uma casa velha (que ele mesmo chegou a morar) e uma garagem de madeira (ambas foram demolidas). A nova residência, revestida em pedra aparente, teria dois pavimentos, ricamente ornados. Uma curiosidade estava na ala dedicada a abrigar os empregados, situada numa outra edificação que se ligava à casa principal por uma espécie de ponte em arco, também revestida em pedra.

A obra, iniciada em abril de 1940, foi concluída no ano seguinte, no mês de fevereiro. Para mobilia-la, Varela mandou as plantas da casa a um fabricante de móveis, para que fizesse tudo sob a demanda necessária.

Pedido de autorização para a construção da casa, em oficio do famoso escritório escritório de engenharia e arquitetura Bratke & Botti.

Pedido de autorização para a construção da casa, em oficio do famoso escritório escritório de engenharia e arquitetura Bratke & Botti.

Um homem excêntrico

No tempo em que viveu em Santos, Manoel Varela se notabilizou na cidade como um homem empreendedor e visionário. Segundo a família, o português era um apaixonado por orquídeas, a ponto de manter na parte posterior do terreno de sua casa cinco estufas, sendo uma de vidro e outra com sistema de refrigeração, o que o tornou um dos maiores colecionadores daquela espécie de planta na América do Sul. Entre as variadas que cultivava, havia uma raridade, trazida de Madagascar, na África. Após sua morte, em 1954, o então diretor do Orquidário de Santos chegou a pedir a doação da famosa orquídea africana, comprometendo-se até a batizar uma estufa com o nome de Varela. Mas a viúva, Cacilda, negou o pedido.

Entre às muitas excentricidades do ativo português, destacou-se um gesto que ele fizera ao governo da Inglaterra durante o período do Segunda Grande Guerra. Varela teria doado em dinheiro, um valor próximo a 500 contos de réis (algo equivalente a R$ 5 milhões atuais). Ao final do conflito, o governo britânico, conhecedor do gesto do cidadão “brasileiro”, lhe devolveria o dinheiro na forma de um terreno que pertencia a uma empresa inglesa, localizado na esquina da Rua Pindorama com a Vicente de Carvalho (onde está atualmente o edifício Paulistania).

Curiosidades sobre Manoel Varela

O empresário Manoel de Souza Varela foi um ativo dirigente da Associção de Desportos Portuguesa (da capital), tendo ocupado postos importantes, como presidente do Conselho Fiscal.

O bairro Jardim São Manoel, localizado na Zona Noroeste de Santos foi assim batizado em homenagem a Varela, que foi o responsável pelo loteamento daquele lugar, assim como o Jardim Piratininga, também loteado pelo português.

O processo de inventário de Manoel Varela é tido, no Brasil, como um dos mais longos da história (na comarca de Santos é o mais duradouro), aberto em 1954 e não concluído até os dias de hoje. Estudantes e especialistas em Direito Civel do país inteiro já visitaram o Fórum santista para conhecer de perto o processo, localizado na 2ª Vara da Família e Sucessões de Santos.

Curiosidades sobre a Casa de Pedra

Após a morte de Manoel Varela, em 1954, a Casa de Pedra da Bartholomeu de Gusmão, 101, continuou sendo ocupada pela viúva, Cacilda, e pelos filhos, que prosseguiram tocando os negócios da família.

O lugar era bastante frequentado por gente da alta sociedade e algumas celebridades, como o jogador Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, que era amigo dos filhos e netos do empresário português.

A casa foi negociada em 1983, dois anos depois da morte de Cacilda Carvalho de Souza Varela, e acabou demolida em 1984. Comprada pela Construtora Phoenix, o terreno passou a abrigar um edifício (Sete Palmeiras).

Algumas das árvores que existiam no entorno da Casa de Pedra foram doadas à Prefeitura e replantadas nos jardins da orla.

Varela e os cinco filhos (Fernando, Inácio, Lia Maria, Lúcio e Luiz).

Varela e os cinco filhos (Fernando, Inácio, Lia Maria, Lúcio e Luiz).

Vista aérea da casa

Vista aérea do terreno e entorno nos anos 1950. Deste ângulo vê-se o grande quintal, onde Varela cultivava suas orquídeas raras.

A casa de pedra nos anos 1980, poucos meses antes de ser demolida para dar lugar a um edifício de apartamentos.

A casa de pedra em 1983, poucos meses antes de ser demolida para dar lugar a um edifício de apartamentos.

O Rei Pelé era um frequentador assíduo do casarão da família Varela, com quem tinha boas relações.

O Rei Pelé era um frequentador assíduo do casarão da família Varela, com quem tinha boas relações. Na foto com Fernando Patti de Souza Varella, neto de Manoel, filho de Fernando.

Thiago Bellegarde Patti de Souza Varela, neto de Manoel Varela, ao lado da mesa original da sala de jantar de seu avô, que foi doada para a Fundação Pinacoteca Benedito Calixto.

Thiago Bellegarde Patti de Souza Varela, neto de Manoel Varela, ao lado da mesa original da sala de jantar de seu avô, que foi doada para a Fundação Pinacoteca Benedito Calixto.