Santos, uma cidade (também) britânica

Edward Fenton convida John Withall e outros colonos para jantar à bordo do Minion.

Edward Fenton convida John Withall e outros colonos para jantar à bordo do Minion.

Nos 100 anos da construção da Igreja Anglicana de Santos, refletimos sobre a presença inglesa em terras santistas 

“Santos, land of liberty and charity”. A Terra da liberdade e da caridade, como o próprio lema denota, é reconhecida historicamente por ter abrigado representantes de inúmeros povos do globo, desde os idos coloniais, revelando-se um modelo para o país que tornar-se-ia gigante ao passar dos séculos. No caldeirão de etnias humanas que por aqui circularam, algumas deixaram marcas indeléveis de sua passagem, caso dos britânicos, objeto do escrito desta postagem.

A presença inglesa em Santos se iniciou praticamente com os fundamentos da vila, em meados do século 16, quando aqui viveu um súdito da então rainha Elizabeth (reinado de 1558-1603), chamado John Withall (ou João Leitão, como acabara sendo conhecido, depois de ter aportuguesado o nome). Ele era ferreiro e se tornara genro de José Adorno, um dos primeiros donos de engenho de cana-de-açucar da região. Foi ele quem, em 1583, acabou intermediando com o corsário Edward Fenton, durante a invasão deste à vila santista em dezembro daquele ano, um acordo de não agressão aos habitantes locais.  Os ingleses eram inimigos da Coroa espanhola, que dominou o Brasil entre 1580 e 1640, no chamado Período Filipino, ou das Coroas Unificadas. Foi ainda dentro deste ciclo político que outra invasão inglesa se deu em Santos, em 1591, desta vez comandada pelo corsário Thomas Cavendish.

“Parceiros” da Coroa Portuguesa

Após o fim da influência espanhola no Reino Lusitano, com a instalação da 4ª Dinastia Portuguesa – Casa de Bragança, a partir de 1640, os ingleses deixaram de “invadir” a costa brasileira, optando concentrar esforços na exploração da América do Norte e na conquista de outras paragens do globo terrestre. As atenções só voltariam ao reino português no início do século 19, quando os lusitanos já não faziam parte do grupo das nações mais poderosas do mundo, sobrepujada justamente pelos britânicos, além dos franceses, germânicos e espanhóis. E foi em meio à ameaça da França de Napoleão Bonaparte que os ingleses voltariam, de vez, à vida portuguesa e brasileira, protegendo e escoltando a familia real lusitana, de Lisboa ao Rio de Janeiro, em 1808, auferindo, em troca, todas as vantagens comerciais que intencionava em relação ao Brasil, estabelecida com a abertura dos portos “às nações amigas”, ou como poderia ser lido nas entrelinhas: a própria Inglaterra.

William John Burchell. Lithograph by T. H. Maguire, 1854.

William John Burchell. Lithograph by T. H. Maguire, 1854.

Presença constante

Dali em diante, o Brasil foi “invadido” por centenas de súditos da Dinastia Hanover (reis Jorge III, Jorge IV, Guilherme IV e a famosa rainha Vitória, que governou de 1837 a 1901). Assim, desembarcavam nos portos do Rio e Santos uma grande leva de escritores, naturalistas, diplomatas, comerciantes, etc.

Santos, pela localização estratégica na costa brasileira, porta de entrada para as provincias de São Paulo, Minas e Goiás, recebeu a maior parte desses ingleses, como os famosos William Burchell (naturalista), que aqui esteve em 1826 e Sir Richard Francis Burton, tido como uma das personalidades mais extraordinárias e fascinantes do século XIX, que ocupou o posto de cônsul britânico na cidade santista entre 1864 e 1868. Neste período, Santos já testemunhava uma forte ocupação inglesa, pelo menos no que concernia às principais atividades econômicas, nas áreas de transporte, comunicação, distribuição de água, energia, gás, produção industrial, operação bancária, entre outros. Para onde se olhasse, havia uma empresa de origem inglesa: São Paulo Railway, City of Santos Improvments, Western Telegraph, Royal Mail Packet, London and Brazilian Bank, entre dezenas de outras.

Ante a presença maciça de cidadãos ingleses circulando e vivendo na cidade, tornou-se inevitável a criação de espaços que permitissem a preservação e prática dos seus costumes. Daí surgiram locais como o Clube dos Ingleses (Santos Athletic Club), a Missão dos Marinheiros (Flying Angel House) e a Igreja Anglicana de Todos os Santos (All the Saints Church), cuja bela edificação completou 100 anos neste último 21 de abril.

A Igreja Anglicana

No Brasil, o anglicanismo iniciou suas atividades após o Tratado de Comércio e Navegação de 1810, estabelecido entre Portugal e Inglaterra, quando foi permitida a construção de igrejas de denominações protestantes,desde que tivessem a aparência de uma residência comum, sem torres ou sinos, e não buscassem a conversão dos cristãos católicos brasileiros.

A cidade de Santos começou a abrigar atividades religiosas da igreja anglicana apenas em 1862, quando aqui se instalou a primeira versão da Missão dos Marinheiros (Mission to Seame), que também atendia a comunidade britânica local. No início do século 20, algumas famílias inglesas sentiram a necessidade de construir um templo para desempenhar suas tradicionais práticas espirituais. Depois de muita luta e negociações, finalmente em 21 de abril de 1918, o local foi consagrado com o nome “All the Saints Church” (Igreja de Todos os Santos).

A Igreja Anglicana de Santos, nos anos 1940.

A Igreja Anglicana de Santos, nos anos 1940.

O templo santista

A igreja (que fica na Praça Washington, 92 – José Menino) faz parte de uma tipologia de edifícios religiosos protestantes construídos nas três primeiras décadas do século XX. O templo foi dedicado e consagrado pelo Bispo Edward Francis Every, então líder da Diocese da Argentina e Ilhas Malvinas, sob Jurisdição da Igreja da Inglaterra. Construído em estilo normando (ou neogótico), conta com uma estrutura de pedras (sandstones) e uma planta em cruz. Na nave encontram-se a pia batismal e o púlpito. A capela possui vitrais que retratam a paixão e ascensão de Cristo, os apóstolos Paulo e Pedro, a Virgem e a Criança, assim como os santos patronos dos países britânicos (Escócia, Gales, Inglaterra e Irlanda).

Em 1965, juntaram-se à congregação os membros fiéis oriundos da Paróquia São Marcos, Igreja Episcopal Brasileira – de língua portuguesa -, que posteriormente viria a fundir-se, formando a Missão Organizada da Paróquia de Todos os Santos. Em 1971, a Capelania de Santos se filiou a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB, 19ª Província, com sede em Porto Alegre, e hoje está sob jurisdição episcopal de dom Flávio Iraia, bispo da Diocese Anglicana de São Paulo.

 

Curiosidade

O templo foi tombado como patrimônio histórico da Cidade de Santos em 2015, juntamente com um Órgão Apollo, da empresa RushWorth & Dreaper, fabricado em Liverpool no início do séc. 20 e a Casa Pastoral, feita em estilo colonial hispânico (1948).

Projeto original da fachada da Igreja Anglicana

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Órgão Apollo, da empresa RushWorth & Dreaper, fabricado em Liverpool no início do séc. 20