O fim melancólico de uma joia da arquitetura barroca colonial

A velha Matriz, tesouro arquitetônico e histórico, em 1907, um ano antes de ser demolida.

Igreja Matriz de Santos, de 1746, não resisitiu ao desleixo e acabou demolida em 1908.


Santos, sexta-feira, 10 de janeiro de 1908. Eram quase sete horas da manhã, quando cerca de vinte homens, munidos de marretas, picaretas, escadas, cordas e variado ferramental de demolição, adentravam, visivelmente constrangidos, no grande salão paroquial da velha igreja Matriz de Santos. O lugar, completamente desnudo de todo seu antigo mobiliário, altares, utensílios religiosos e imagens sacras, encontrava-se pronto para o “abate”. Em silêncio respeitoso, os operários, então, organizaram uma roda e oraram, como que pedindo perdão por terem de botar abaixo uma “Casa de Deus”, uma preciosidade da arquitetura barroca colonial que somava 162 anos, e sucumbia em razão da negligência de alguns de seus párocos administradores, relapsos por não impedirem, justamente, o cruel desgaste do tempo. 

Finda a elevação das justas preces, certamente as últimas proferidas no sagrado espaço, os taciturnos trabalhadores, então, dividiram-se, cada qual para a realização de suas tarefas: a retirada de telhas, ferragens, vidros, madeiras e, a mais dolorosa, a destruição da resistente alvenaria de pedra setecentista. 

A labuta levaria dias, semanas, meses, para ser concluída. E assim, de forma cadenciada, e ao surdo impacto das brutas marretas, as velhas pedras que outrora se uniram para a formação de uma das mais belas igrejas da história santista, naquele momento se desprendiam, dolorosamente, espatifando-se em pedaços e encerrando um ciclo na vetusta da portuária cidade de Santos. 

Na obra de Benedicto Calixto, a Matriz na época de sua construção, convivendo ao lado do Colégio dos Jesuítas e, ao fundo, a capela de Santa Catarina de Alexandria (no alto do Outeiro).

A origem

A outra ponta desta trajetória, a da origem, deu-se entre os anos de 1742 e 1746, período o qual os santistas dedicaram-se ao levantamento de sua terceira igreja Matriz, conforme registrou o destacado historiador Frei Gaspar da Madre de Deus (1715-1800) em sua obra “Memórias para a História da Capitania de São Vicente” (1797). 

O local escolhido fora o do sítio onde o fundador de Santos, Braz Cubas, teria erguido a primeira igreja da Misericórdia (e onde fora sepultado, quando do seu falecimento, em 10 de março de 1592).  A cerimônia de benção da nova Matriz ocorreu oito anos após o término de sua construção, celebrada pelo vigário à época, padre Faustino Xavier Prado. Ao todo possuía sete altares, o maior deles sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos. O templo também abrigava uma capela, consagrada ao Santíssimo Sacramento e um altar onde ficava o Sacrário. Os altares traziam consigo a formação de irmandades e confrarias, contendo obrigações (responsabilidades e pagamentos de dízimos). No entanto, havia duas isentas destes compromissos: uma irmandade chamada “dos pretos” (escravos) e outra “dos pardos” (filhos destes com homens brancos). 

José Bonifácio de Andrada e Silva

Visitas e batismos ilustres

A velha Matriz, na qualidade de principal templo da cidade, recebeu diversos visitantes ilustres, como o principe regente D.Pedro I, quando de sua passagem por Santos às vésperas do Grito do Ipiranga, que marcou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822. Seu filho, o imperador D. Pedro II, também participou de importantes solenidades na Matriz, em especial a que comemorou o primeiro aniversário do príncipe imperial Afonso Pedro, em 23 de fevereiro de 1846 (o herdeiro do trono imperial morreria em 11 de junho do ano seguinte, com pouco mais de dois anos de idade).

Outra peculiaridade da velha Matriz foi o fato de ter sido o palco de batismo de grandes personalidades, como os irmãos Andrada (José Bonifácio de Andrada e Silva, Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Antonio Carlos de Andrada e Silva).

A decadência

Historiadores do tema estimam que foi a partir de 1885 que a Matriz começou a entrar em decadência, na administração do padre José Joaquim de Souza Oliveira. O extinto jornal Diário de Santos chegou a fazer uma severa crítica à sua gestão, publicando uma nota que dizia que o vigário de Santos, “vivia em sua fazenda, deixando a paróquia em abandono, o que deu motivos a inúmeras reclamações”.

O administrador seguinte, padre Urbano da Silva Monte, vigário da Matriz entre 11 de novembro de 1886 e 15 de abril de 1895, conseguiu realizar uma proeza ainda pior, como escrevera o pesquisador Jaime Caldas: “Foi no seu vigariato que desapareceu a primitiva lápide tumular de Braz Cubas, que se encontrava sob o altar-mor da Matriz; mandou ele retirá-la nas reformas que ocorreram em 1893, sem ligar a mínima importância a essa respeitável pedra, que representava a fundação da cidade santista. Assim, resultou não só a perda irreparável do epitáfio primitivo de Braz Cubas, com as respectivas datas, como a perda e confusão da mesma sepultura na velha Matriz de Santos”.

A Matriz em 1865, na sua foto mais antiga, de autoria de Militão Augusto de Azevedo.

O fim

Nos primeiros anos do século 20, a velha Matriz já apresentava estado lastimável de conservação, reflexo do evidente desinteresse de seus últimos vigários administradores. Muitos alertavam para o risco de desabamentos, o que obrigou a Câmara e a Intendência (instituição anterior à Prefeitura) de Santos tomarem uma atitude.  Após algumas avaliações preliminares, as autoridades santistas ficaram, então, entre a cruz e a espada: demolir ou restaurar? A resposta dependia de um exame mais profundo, que acabou sendo realizado por um engenheiro enviado pela Câmara Municipal, em fevereiro de 1906. Nele, constatou-se que a velha igreja não tinha mais condições de recuperação. Assim, ela acabou condenada em laudo técnico. O destino da Matriz foi, então, parar na Câmara, que aprovou em 2 de janeiro de 1908, uma Lei específica para a desapropiação do imóvel secular. A demolição iniciou-se logo depois de a referida Lei ser promulgada e sansionada. 

Assim, aos golpes de marretas, ela foi sendo consumida, ao mesmo tempo em que surgia a moderna Praça da República, ornada com uma bela escultura de Braz Cubas, que chegou, por alguns dias, a testemunhar a agonizante despedida da Matriz Barroca.

Em agosto de 1908, os últimos vestígios do inestimável patrimônio eram retirados do local. É certo que Santos cresceu, modernizou-se, ostentou ares de grande e pujante cidade, graças ao comércio do café. Por outro lado, e sem sombra de dúvida, perdeu muito com o desaparecimento de uma joia preciosa que certamente seria um orgulho para a nossa velha cidade.

Matriz, em foto tirada entre 1903 e 1905, de José Marques Pereira.

Parte da trás da Matriz, também de Marques Pereira

Na festa de inauguração da estátua de Braz Cubas, em janeiro de 1908, a Matriz ainda está parcialmente em pé.