Santistas testavam urna eletrônica na eleição de 1996

Nas ações educativas promovidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de como utilizar a urna eletrônica, nomes de grandes personalidades, como Elis Regina, se tornaram candidatos fictícios a cargos eletivos.

Cidade foi uma das 57 do país a testemunhar a implantação de um sistema inovador para o processo eleitoral brasileiro

Santos, quinta-feira, 3 de outubro de 1996. O país vivia mais um ano de eleições, naquela ocasião para a escolha de prefeitos e vereadores. A cidade santista, em festa, participava de seu quarto pleito para a escolha do chefe do executivo municipal desde a retomada da autonomia (ocorrida em 1984). Aquela era também a segunda eleição em que valia a regra de dois turnos (caso o primeiro colocado não alcançasse mais de 50% dos votos válidos) o que, face às pesquisas divulgadas dias antes, parecia inevitável aos santistas, aventando-se uma disputa entre a ex-prefeita Telma de Souza (PT) e o deputado federal Beto Mansur (PPB). À parte a concorrência entre os candidatos, a grande novidade do ano, cercada de muita expectativa, estava no sistema de voto, eletrônico, que prometia sepultar definitivamente a tradicional escolha à base da caneta e papel.

Santos fora uma das 57 cidades do país, a única da Baixada Santista, que tiveram o privilégio de testar o pioneiro método de eleição. A chamada “urna eletrônica” era, sem sombra de dúvida, a estrela do pleito ao mesmo tempo em que era encarada, por muita gente, como um verdadeiro “bicho papão”. Afinal, na lembrança dos velhos e românticos santistas ainda repousava o gosto pelo clássico ritual eleitoral: a votação na ponta da caneta, com suas múltiplas possibilidades de protestos, assim como a insana contagem das cédulas depositadas em urnas de lona, processo este que costumava consumir horas a fio. Quase sempre se varavam noites em função dos procedimentos de cálculo, isso sem falar no rígido controle de vigilância, chegando-se à necessidade de precisar manterem guardas com a missão de resguardar os votos ainda não contabilizados.

A partir daquele escrutínio de 1996 a realidade prometia ser extremamente outra. E a ideia era justamente essa, “afastar a mão humana da apuração”, como diria o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à época, Carlos Velloso. O inovador método eleitoral tinha como objetivo anunciar os vencedores ou concorrentes ao segundo turno em poucas horas, e sem margem de erro.

Na estreia das urnas em Santos, muitos dos equipamentos acusaram problemas.

Os tropeços de uma estreia

Quem apostou que seria tranquilo logo de início, estava redondamente enganado. Apesar de exaustivamente testadas pelo TSE, várias das 70 mil urnas instaladas pelo país apresentaram problemas. Em Santos, logo pela manhã do dia 3 de outubro, foram registrados diversos casos, como o ocorrido na 85ª seção, abrigada na Escola Estadual Francisco Meira, Zona Noroeste, onde um dos equipamentos coletores de votos deu pane total, o que obrigou o presidente da seção apelar para o uso da urna convencional. Além das questões técnicas, o desconhecimento dos eleitores sobre a operação do voto fez com que o processo, que deveria, via de regra, ser mais rápido, ficasse moroso. Na Escola Municipal Leonardo Nunes, situada na Areia Branca, por exemplo, cada grupo de dez eleitores chegava a demorar mais de meia hora para votar, ou seja, uma média de três minutos por eleitor (lembrando que eram apenas dois votos a serem digitados). Filas enormes eram formadas nas portas dos locais de votação.

Em quase todas as sessões os técnicos de informática da empesa Unisys, contratada pela Justiça Eleitoral, tiveram de ser acionados para resolver questões pontuais com os equipamentos de votação. Teve eleitor que ficou mais de três horas aguardando a liberação do equipamento para poder exercer seu direito. Muitos questionavam o porquê de algumas sessões não tomarem rapidamente a decisão da troca de método. Queriam ter resolvido a questão por meio das cédulas de papel. No entanto, os mesários haviam recebido a instrução de evitarem a todo o custo a drástica resolução.

Votou duas vezes para prefeito

Quando não era uma dificuldade de hardware (equipamento), era um problema no software (programa). Na eleição pioneira de 1996, teve gente que conseguiu realizar a proeza de votar em duplicidade ao cargo de prefeito, e outros que “invadiram” o voto do eleitor seguinte, por conta da falha na liberação. Mas, ao final, todas as questões acabaram resolvidas na base dos registros manuais, devidamente homologados pelo cartório eleitoral.

A apuração, ao final do dia, de acordo com o previsto pela Justiça eleitoral, aconteceu em tempo recorde. Foi a grande vitória do sistema. Antes da meia noite, os santistas já sabiam o resultado de seu exercício de cidadania que, definitivamente, virava uma importante página em sua longa história.

A eleição de 1996 ficou marcada como a última campanha disputada por Oswaldo Justo, o ex-prefeito da retomada da autonomia.

CURIOSIDADES DA ELEIÇÃO DE 1996

Display com propaganda

Os Tribunais Regionais Eleitorais, na intenção de diminuir os gastos com a campanha, formalizou parcerias com empresas do setor privado para o custeio de pequenos displays de proteção, feitos de papelão, cuja função era criar um espaço mínimo para eleitor exercer o seu voto de modo reservado. Em Santos, assim como nas demais cidades paulistas onde o teste da urna eletrônica aconteceu, tais displays traziam a marca da Cervejaria Antarctica, o que não deixa de ser curioso, uma vez que uma das regras para o dia do pleito era a proibição do consumo de bebida alcoólica. Na época, questionada sobre o singular caso, o TRE-SP justificou que a famosa empresa de bebidas também produzia “inocentes” refrigerantes.

Votos nos famosos

A cantora Elis Regina, falecida em 1982, foi uma das personalidades utilizadas como exemplo para as ações educativas sobre o uso correto da urna eletrônica. Além de Elis, indicada como membro do fictício Partido da Música (PMS), “concorriam” aos cargos de prefeito outras figuras carimbadas da história brasileira, como Monteiro Lobato, pelo PLI (Partido da Literatura) e Grande Otelo, do PTV (Partido da Televisão). Para o legislativo, podiam ser escolhidas figuras como Raul Seixas (PMS), Carlos Drummond de Andrade (PLI) e Tom Jobim (PMS).

A última candidatura de Justo

O pleito de 1996 ficou marcado como a última disputa eleitoral do renomado político Oswaldo Justo, que à época exercia o cargo de deputado estadual (eleito em 1994). Justo faleceria em 2003.

O juiz eleitoral de Santos, Jomar Camarinha, confere a chegada das primeiras urnas eletrônicas em Santos.

O candidato do PPB, Beto Mansur, iria para o segundo turno da eleição, como o segundo mais votado.

 

A candidata da PT, Telma de Souza, foi a mais votada no primeiro turno, que marcou a estreia da urna eletrônica em Santos.