Barcas “Loirinha”: as Rainhas da Baía de Santos

O autor deste Blog e sua mãe, Maria Regina, a caminho de mais um passeio de Loirinha, no final dos anos 1970.

Santos, sábado, 18 de novembro de 1978. Um sol agradável brilhava sobre a urbe santista que, serenamente, testemunhava as pessoas tomarem suas ruas, praças, parques e areias da praia, em busca de atrações que lhes proporcionassem momentos de lazer, descanso ou simples contemplação. Em meio a tantos atrativos oferecidos pela terra santense, o menino Sergio, de dez anos de idade, e sua mãe, Maria Regina, decidiram ir à Ponte dos Práticos, onde, empolgados, vivenciariam a deliciosa experiência de navegar pela Baía de Santos a bordo da lancha mais badalada da cidade: a Loirinha. O serviço náutico, inaugurado seis anos antes e administrado pela Turimar, figurava entre as grandes atrações usufruídas por santistas e turistas.  

Serginho, como diriam à época, poderia ser classificado como um “fã de carteirinha” das lanchas “Loirinha”, a exemplo de outras centenas de meninos e meninas da cidade, e de fora dela. Afinal, não era à toa que os passeios náuticos disponibilizados na Ponta da Praia se tornaram os mais curtidos nas datas comemorativas, em especial no Dia das Crianças, ocasião em que todas as embarcações ficavam “apinhadas” de pequenos e interessados passageiros, como o jovem Sergio, que fora recebido manhã de sábado pelo simpático comandante do barco, o mestre-arrais Mário Alcântara.

Anúncio dos serviços da “Loirinha”, em 1974.

O início da Loirinha

A história da “Loirinha” começou no Verão 1971/1972, quando o aguerrido imigrante italiano, Giovanni Del Monte, percebendo o potencial de exploração turística da Baia de Santos, tomou emprestado dinheiro com um cunhado, dono de uma empresa de transporte em Guarujá, para criar a Marazul Turismo e adquirir três embarcações de madeira (duas lanchas e um barco de pesca, que fora adaptado para o turismo náutico). Assim que as reformou, batizou-as com o nome “Loirinha”. Del Monte não perdeu tempo e registrou o serviço junto à Capitania dos Portos e à Embratur, selando acordo ainda com a municipalidade para fazer uso da Ponte dos Práticos (Edgard Perdigão), local onde passaria a oferecer passeios náuticos locais, que incluíam praticamente toda a Baía de Santos, até as proximidades da Ilha da Moela e da Ponta do Itaipu, na Praia Grande. 

O empresário também alugava os barcos para atividades sociais, pescarias e promoção de passeios em parceria com escolas e entidades.  

Loirinha V, uma epopeia

Em poucos meses, o italiano verificou que o negócio havia se tornado um “case” de sucesso e, então, passou a vislumbrar um horizonte ainda mais pujante ao empreendimento. Para isso, imaginou ele, era preciso oferecer aos clientes lanchas de maior espaço e luxo, que permitisse a promoção de shows musicais e festas temáticas.  Giovanni, assim, iniciou uma frenética busca, em todos os portos da costa brasileira, procurando por uma embarcação que consumasse seus objetivos. Porém, e por ironia do destino, fora em águas doces que a futura “Loirinha V” acabou sendo encontrada.

Na longínqua cidade mato-grossense de Corumbá (hoje no Mato Grosso do Sul), situada na divisa com a Bolívia e às margens do Rio Paraguai, havia uma velha embarcação, pertencente ao “Serviço de Navegação Bacia do Prata S.A.”, que estava parada fazia algum tempo por conta da extinção da linha fluvial de transporte de passageiros até Assunção (capital paraguaia). Duas lanchas foram “aposentadas”, sendo que uma acabou adquirida pela Marinha Brasileira e colocada à disposição para o transporte de tropas. A segunda, então, foi comprada pela Marazul e, para que pudesse chegar a Santos, deveria empreender uma viagem quase insana dali (Corumbá) até Buenos Aires, onde atingiria o mar e, de lá, até o destino final, perfazendo um caminho de cerca de 2.500 milhas náuticas (ou cerca de 1.900 quilômetros).

Para a árdua tarefa, Giovanni contratou o experiente prático santista Fábio Mello Fontes que, acompanhado da esposa, Ed Berbert (que tinha experiência em navegação), rumou à cidade mato-grossense a fim de executar um trabalho que se mostraria digno das mais notórias epopeias cantadas em lendas do velho mundo. 

Duas, das futuras Loirinhas, quando estas ainda navegavam no Rio Paraguai pelo Serviço de Navegação Bacia do Prata

Del Monte abriu um largo sorriso ao verificar que seu contratado, Fontes, levara a esposa consigo. Assim que desembarcaram no aeroporto local, o empresário italiano comentaria: “Agora não estou mais preocupado com a viagem.  Se você trouxe sua própria mulher para esta viagem, é porque tens a certeza de que chegaremos sem problemas a Santos”.

A embarcação, de origem holandesa, tinha acabado de ter sido restaurada a pedido de empresário italiano, inclusive com a troca dos motores e dos três eixos de propulsão (hélices). Até o novo nome já havia sido devidamente pintado na proa da embarcação, rebatizada como “Loirinha V”. Remodelada, a lancha se tornou uma grande atração na cidade mato-grossense antes da partida. Giovanni chegou a promover uma exposição de fotos de Santos para que os habitantes locais conhecessem o local de destino daquele barco que convivera com a cidade por muitos anos. O comandante Fontes, assumindo o seu posto na embarcação, e tornando-se responsável por ela, mandou que lastreassem o fundo com areia de construção, para garantir estabilidade e segurança ao barco quando ele chegasse ao Oceano Atlântico. Fábio Mello também solicitou a Del Monte que contratasse alguns dos marinheiros que faziam parte da tripulação original da lancha, quando a mesma operava na linha até Assunção, não só pelo fato de conhecerem as peculiaridades do barco, mas principalmente do caminho fluvial. 

Tudo ajeitado, a Loirinha V partiu de Corumbá no dia 20 de outubro de 1973. A partir dali, Fontes, sua esposa, Giovanni e os demais marinheiros locais protagonizariam uma incrível aventura de vinte e quatro dias de duração. 

A viagem das barcas “Loirinha”, realizadas por duas vezes pelo prático Fábio Mello Fontes, percorreu um caminho de cerca de 2.500 milhas náuticas (ou cerca de 1.900 quilômetros), passando pelos rios Paraguai, Paraná e Oceano Atlântico. 

Popeye e os imprevistos

Pelo rio Paraguai, a Loirinha V navegou boa parte do atual estado brasileiro do Mato Grosso do Sul. Dois dias depois, ainda em território nacional, na altura da cidade de Porto Murtinho, o primeiro imprevisto. Uma peça de um dos motores quebrou e foi preciso promover sua substituição. Ocorre que eles não a tinham na embarcação e, assim, se viram obrigados a ficarem parados por quase uma semana no pequeno município mato-grossense, enquanto Giovanni tomava um avião até São Paulo para providenciar o necessário. Quando o empresário italiano regressou, Fontes e sua tripulação já estavam sendo considerados as estrelas da cidade. O prático santista disse que a população de Porto Murtinho promoveu festas, jantares e até sessões de cinema em homenagem aos aventureiros do Rio Paraguai. 

Consertada a peça, a viagem foi retomada, para mais situações peculiares. Uma delas foi protagonizada por um dos marinheiros contratados em Corumbá, um alemão de 1,95 metros de altura, conhecido por todos como Popeye (em alusão ao famoso desenho). A passarem ao largo de um dos trechos do rio, quase na fronteira com a Argentina, os marinheiros avistaram um pequeno veado campeiro que parecia desgarrado da mãe. Popeye, então, saltou na água como um verdadeiro campeão de natação, nadou rapidamente até a margem e capturou o animal com as próprias mãos, levando-o a bordo. Giovanni ficou impressionado com a força e habilidade do alemão e teve a ideia de levar o filhote a Santos, a fim de que fosse doado ao Orquidário. Porém, o bicho, colocado no porão, acabou adoecendo e morrendo quando a Loirinha chegava na altura de Buenos Aires.

Homens mareados

Completado o trecho fluvial, Fontes se viu diante de um cenário familiar e acolhedor, a casa de um típico lobo-do-mar. O cheiro da água salgada trazido pela brisa oceânica era como um bálsamo ao seu olfato. Por outro lado, aos marinheiros contratados em Corumbá, acostumados às sossegadas águas do Rio Paraguai e ao odor adocicado das águas fluviais, o choque de realidade caiu como uma bomba. Todos, absolutamente todos os marinheiros de Corumbá “marearam” e tombaram doentes, vencidos pelas impiedosas vagas formadas no salobro Rio da Prata. Até mesmo o gigante Popeye parecia inofensivo perante à situação. Fontes e sua esposa, acostumados ao balanço marinho, tiveram de assumir as tarefas dos combalidos. Não foi fácil.

Para piorar ainda mais a situação, no dia seguinte de navegação marítima, as águas das torneiras da Loirinha começaram a jorrar pastosas, como se fosse “Nescau”, diria Fontes em seu relatório de viagem. Na verdade, as caixas d’água da embarcação não haviam sido limpas e, portanto, apresentavam uma espécie de “lodo” no fundo. Como durante a navegação fluvial o barco não balançava tanto, este depósito lodoso não se misturou à água. Já quando chegaram ao mar, as caixas foram chacoalhadas como um “liquidificador” e o resultado foi a contaminação de toda a água utilizada para banho, almoço e outras necessidades. Não fosse o suprimento de água mineral comprada em terra, dias antes, a situação ficaria complicada para os brasileiros.

A frota de “Loirinhas” ganharia novos membros com a chegada dos barcos do Rio Paraguai.

Fábio Mello, apesar da água mineral, resolveu “arribar” (desvio forçado até um local não previsto na rota) até o porto de Imbituba, Santa Catarina, onde foram recebidos pelo capitão dos portos local. A ideia era limpar os tanques de água para retomar a viagem, o que acabou sendo feito. Havia o receio de a Loirinha ficar retida no porto catarinense em razão do movimento imprevisto (o de arribar). Mas a justificativa apresentada foi suficiente para fazer as autoridades náuticas entenderem o imprevisto.

Sem mais intercorrências ao longo do resto da viagem, o grupo finalmente chegava à cidade de Santos no dia 13 de novembro, uma terça-feira. Assim, após percorrer a longa estrada aquática pela América do Sul, numa navegação raríssima, a nova Loirinha chegava a Santos, para se tornar a rainha dos passeios náuticos locais.

As crianças eram as maiores frequentadoras dos passeios das “Loirinhas” por Santos e região. Imagem da futura Loirinha VI, também trazida por Fábio Mello Fontes desde a cidade de Corumbá-MS.

Novo dono e incremento das atividades

Por dois anos, Giovanni Del Monte explorou os serviços de entretenimento náutico na Ponta da Praia com certa tranquilidade, promovendo passeios às cidades vizinhas e festas temáticas. Seu maior concorrente era a Turimar que, incomodada com o sucesso do rival, resolveu fazer uma oferta de compra que foi prontamente aceita pelo italiano. Administrada pelo Grupo Fuji, a Turimar adquiriu, em janeiro de 1975, a Marazul pela vultuosa importância de Cr$ 11 milhões (o equivalente hoje a cerca de R$ 30 milhões). 

Sob nova direção, as cinco Loirinhas ganharam mais um integrante, também oriunda de Corumbá-MS. Acredite ou não, Fábio Mello Fontes repetiu o feito com uma nova embarcação trazida pelo Rio Paraguai. Era a chata “Vitória dos Palmares” que, aqui, recebeu o nome de “Loirinha VI”.

A Loirinha III era originalmente um barco de pesca, que foi adaptado para ser uma embarcação de turismo.

A Turimar, então, que já mantinha em seu staff outras seis embarcações, incrementou ainda mais os serviços de passeios náuticos, ampliando roteiros e agendas, criando minicruzeiros, como os para Bertioga, realizado todos os sábados, com saída às 9 horas e retorno às 16 horas, ao custo de Cr$ 50,00 (o equivalente a R$ 150,00 em 2018) por pessoa, com direito a café da manhã e almoço. Havia também passeios para Guarujá, Ilhas Alcatrazes, São Sebastião e Ilhabela (em viagens de dois dias). A empresa tentou promover roteiros náuticos experimentais em Itanhaém e Mongaguá, mas que duraram apenas quatro meses e acabaram parando, por falta de demanda. 

Os passeios pela Baia de Santos ganharam, com o Grupo Loji, novas ações temáticas, que se tornaram conhecidas, como o Festival à Italiana (com massas), No Sussurro das Ondas e o Sonho do Pirata. Uma das mais frequentadas era a Festa do Havaí, que durava cinco horas e oferecia uma série de comidas e bebidas exóticas. As Loirinhas V e VI ficavam todas decoradas de folhagens, flores e frutas tropicais.

Seu Mário, o comandante

No leme da Loirinha V, quem mandava era o mestre-arrais Mário Alcântara, piloto aposentado da Companhia Docas, um experiente piloto das barcaças que promoviam as dragagens do Porto de Santos. Ele foi admitido em 13 de novembro de 1973, para assumir o posto de comando na Loirinha III, mas logo depois passou para o barco maior, a grande estrela da Baía de Santos. No comando da Loirinha V, a ação que seu Mário mais gostava de fazer era recepcionar as crianças. Muitas delas receberam um colar havaiano de suas mãos. Uma curiosidade destacada pelo velho marinheiro foi quando a cidade de Santos sediou um Festival de Cinema, em 1973. Os organizadores do evento contrataram a Marazul para oferecer um passeio pela Baía de Santos aos artistas, diretores e outros executivos do cinema nacional, como Jesse Valadão, Yara Cortez, Alfredo Sternheim e Joana Fomm. A atriz ainda foi mais ousada, pedindo ao mestre-arrais a oportunidade de “dirigir” o barco em um dos trechos da viagem, no que foi flagrada pelas lentes da Revista O Cruzeiro, que produziu ampla reportagem sobre o Festival de Cinema em Santos.

A revista O Cruzeiro, de 1973, flagrou as personalidades do cinema nacional em passeio pela Lourinha, numa festa temática noturna.

Mário Alcântara vivenciou muitas coisas no comando da Loirinha V e fez amizades inusitadas, como com o apresentador Raul Gil, que era um frequentador assíduo dos passeios da Marazul e da Turimar. Seu trabalho se encerrou em 1979, quando o serviço, lamentavelmente, foi extinto.

Em 2018, o mestre do barco de turismo mais significativo dos anos 1970, então com 91 anos de idade, foi entrevistado por este Blog Memória Santista, tendo a oportunidade de reencontrar um dos garotos que recepcionara em 1978, ou seja, quarenta anos antes. E, desse encontro, ambos reviveram esta memória afetiva e tiveram a oportunidade de resgata-las nas tintas deste artigo. 

A Ponte dos Práticos, na Ponta da Praia, era o ponto de partida dos passeios.

Os passeios de Loirinha atraiam centenas de pessoas todos os finais de semana para a Ponte dos Práticos.

 

 

O comandante Mário Alcântara, mestre arrais da Loirinha V por alguns anos.

Loirinha VI, no canal do estuário, em 1978.

Loirinha VI foi a estrela da companhia nos anos finais de atração.