Santos na visão de Escragnolle Dória, para a revista Eu Sei Tudo, de 1923

Página da Carta de Brasão de Luís Gastão d´Escragnolle Dória.

Uma das revistas nacionais de maior prestígio na primeira metade do século vinte, a “Eu Sei Tudo”, editada no Rio de janeiro a partir de 1917, tinha como linha editorial a publicação de matérias de caráter científico-cultural. Os assuntos internacionais ocupavam a maior parte de suas páginas. Tratava-se, assim, de um periódico mensal com ênfase no entretenimento e na difusão de conhecimento, muito mais do que em registros factuais. Seus contos, romances, páginas de arte e artigos científicos, conduziam, enfim, a preferência dos leitores.

Nos seus quarenta e um anos de circulação, a cidade de Santos foi pauta de reportagem da “Eu Sei Tudo” apenas três vezes, sendo uma delas dedicada exclusivamente sobre a estância do Guarujá (que pertenceu ao município santista até 1947). Na primeira vez que o município santista foi tema de artigo na revista, o responsável pelo texto foi o professor de história, arquivista e escritor Luís Gastão d’Escragnolle Dória, membro ativo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ele esteve por aqui no ano de 1923, unicamente com o propósito de produzir algo sobre a cidade de Santos e suas peculiaridades. O resultado de sua passagem resultou no artigo descrito abaixo, bastante curioso, sobre o olhar de um forasteiro sobre a região (ele discorre também sobre o Guarujá e São Vicente). A transcrição leva em conta os ajustes ortográficos ocorridos de lá para cá.

ASPECTOS DE SÃO PAULO
SANTOS
Por Escragnolle Dória

Campinas é a Petrópolis plana de São Paulo, Santos a sua Copacabana Atlântica. Com um pouco de boa vontade e menos orografia poder-se-ia considerar Santos grande bairro autônomo da capital paulista.

Quando os primitivos povoadores de São Paulo sentiram os perigos do litoral, sempre aberto a invasores, subiram a Serra, refugiaram-se na montanha. Quando os moderníssimos habitantes desta querem fugir ao inverno, à garoa, à bronquite, descem o Cubatão, ei-los em Santos.

A pé ou em costa de burro galgar o Cubatão era empresa árdua. Hoje a viagem tornou-se rápida, cômoda, grata, pelos trilhos, viadutos e túneis da São Paulo Railway ou, popularmente falando, a “Ingleza”. Goza-se na viagem formoso trecho, a passagem da Serra, maravilha de engenharia e de olhos.

Deixa-se São Paulo. Até o Alto da Serra correm planícies monótonas, despidas de árvores, nuas de interesse. A natureza pirraça o passageiro. Cansa-lhe a vista, atenção e nervos. Depois apresenta o encanto magno, a serra, o Cubatão, transpondo o qual recomeça a mesma insipidez de paisagem. Há uma diferença, porém. De São Paulo até o alto da Serra o solo é seco; da Raiz da Serra a Santos, brejoso.

A locomotiva apita com demora. Chega-se à segunda cidade do Estado, ao seu secular ventre comercial. Somos em janeiro. Santos abrasa. Entra-se pelo bairro mercantil: carroças, sacas de café, mercadoria, carregadores.

A igreja do Carmo, onde Escragnole Dória visitou o local onde estavam depositados os restos mortais de José Bonifácio.

Ao lado da estação, igreja velhíssima, templo colonial em século vinte, esguio cruzeiro no pátio amplo. Estamos em Santos, onde outrora se adoeceu e morreu a febre amarela. Aí, as epidemias da moléstia hedionda acompanhavam as do Rio de Janeiro, em paralelismo fúnebre, veiculadas todas pelo mosquito, sem coragem para varar a serra, a junta de higiene verde.

Agora a cidade é toda salubre. Sarou como Guanabara. Com ela emula no inexprimível encanto do mar. Eis-nos perto do centro urbano, à beira do cais da Alfândega. Antes de vê-lo, porém, cumpria passar pelo Convento do Carmo, de porta franqueada à visita a um túmulo. Qual? O de José Bonifácio, o combatido, o inolvidável.

Com poucos passos respeitosos, aí estava o claustro, quase mimoso de tão reduzido. No centro dele, quantos anos jaz o maior dos primeiros Andradas, difícil embora não ser pequeno entre os outros primeiros. A grandeza do personagem sempre compensou a exiguidade do sítio na mudez conventual.

Do convento ao cais a Bahia de Santos é perto. Nós o vimos, em 1916, ambos tristes, desertos, quase nenhum movimento, vida quase nenhuma. O antigo vai-e-vem de embarcações e fardos cessara. Fardo maior pesava sobre o mundo, a guerra europeia.

Meia dúzia de navios estavam diante da Alfândega, navios teutos refugiados em águas de segurança, duvidosa depois de tantos exemplos de confiscadores de navios. Uma barca fendia ondas desembaraçadas. Chegada a um portão, atracava, logo tornava a largar.

Atravessando a Bahia, abeirava-se do holofote do Itapema, para depositar passageiros na estaçãozinha da estradinha de ferro do Guarujá. Não estranhem os diminutivos, impõem-se.

O escritor ficou encantado com as belezas do Guarujá.

Sobram praias ao litoral santista. Há, porém, uma moda, a do Guarujá. Entretanto, segundo dizem, não é a mais bela. A moda é caprichosa e não justiceira. Aformosearam a praia do Guarujá. Construíram ali, um hotel, com o devido nome francês: Hôtel de la Plage. As grandes famílias, os grandes cabedais, as grandes vaidades de São Paulo afluíram. Tornaram o lugar cada vez mais da moda, e, em certas épocas do ano, inabitável para quem não seja ricaço.

Alguém pretendia, na capital paulista, ter gasto menos indo até a Confederação Argentina, ao luxuoso Buenos Aires, do que com permanência hiemal no Guarujá. Aliás, em todo o mundo acontece o mesmo. Para muitos as praias de banho são meras redes. Com elas os homens apanham o dinheiro ou amores; as mulheres pescam maridos. As estações águas termais, por sua vez, são meios de beber vinho e de passar noites em claro.

Para amigos da natureza, e deve haver muitos deles entre os frequentadores do Guarujá, a praia contenta os olhos, os pulmões, a alma, a verdadeira oxigenação geral. Percorre-la, pedestremente, de ponta a ponta, verdadeiro sacrifício. Mitigavam-o uns carrinhos de aluguel, primitivíssimos, acúleos de costas, polés de costeletas. Tomamos um. Os cavalos eram magros. O cocheiro trazia cara de enterro. “Não se faz nada”, gemia a apontava com o chicote vários rochedos pitorescos.

“A guerra”, e indicava um farol. “Não há viajantes estrangeiros”, e desviava o carro das ondas chiando entre as rodas. “Quando acabará esta desgraça”, murmurava. E as vagas voltavam para o mar.

A tarde caía, tarde de janeiro, escandalosamente cálida. Nem o menor sopro vinha do Oceano. As estrelas, de tão pálidas, pareciam sentir o calor.

Lactesceram focos de luz elétrica. Crianças de pés no chão, brincavam com moleza defronte do hotel quase todo fechado, à espera da cobiçada estação de inverno, de esvazia e de enche bolsos. “Les affaires c’est l’argent des autres” (francês – O negócio é o dinheiro dos outros), disse Dumas Filho no sorvedouro de Paris.

Dória ficou hospedado no luxuoso “Hotel La Plage”

No “Hotel de La Plage”, o gelo era o prato mais apetecível do jantar. Comia-se com preguiça. Vivia-se quase por movimento adquirido. A insolação pairava. O mar, calmo, discreto, com ondazinhas de obrigação na praia escura.

Ao longe, um farol piscava luzes. E a noite prometia ser longa, de sonos curtos, na problemática frescura dos lençóis Não custou a amanhecer. Foi gosto tomar o primeiro trem de Guarujá para Santos em cuja Bahia continuavam imóveis os navios alemães.

Um paquete italiano era a novidade do dia. Chegara na véspera do Rio de Janeiro, trazendo ainda salsugem de Guanabara, começando a aperceber algumas horas antes da partida para Buenos Aires.

O aspecto do vapor, em ordem de marcha entre os colegas parados, alguns havia mais de ano, lembrava navegação por frações. O temor dos cruzeiros ingleses sustinha os navios germânicos em águas santistas, na passividade do porto, esganiçados na trela da neutralidade.

Boiavam inúteis. As tripulações desajeitadas, hesitantes, reduzidas, sem que fazer e sem missão, espécie de alfaiates malvestidos ou sapateiros descalços.

Por quanto tempo na Europa, tudo foi golpe, tudo lagrima.

Em Santos, Escragnole falou sobre o prédio da Alfândega.

Naviosinho nosso, o Tymbira, cremos, rondava a neutralidade, minúsculo ponto, avistado da praia de José Menino, dissipada a neblina, ao império do sol.

Consomem-se alguns dias em visitar com pausa as curiosidades históricas de Santos. Entre elas figura a campa de Braz Cubas, cujos serviços um epitáfio eterniza como fidalgo e cavaleiro, capitão fundador da vila de Santos e de sua Casa de Misericórdia, no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e quarenta e três, descobridor de ouro e metais n’outro ano do Redentor, o de mil quinhentos e sessenta, construtor de fortaleza por mandado de D. João III, falecido, por ordem de Deus, em mil quinhentos e noventa e sete.

Ficou na Matriz, poeira humana sob a guarda e a clemencia de Nossa Senhora do, Rosário, protetora da cidade, e de imagens de S. José, S. Benedito, N. S. da Conceição, S. Miguel, Santa Luzia e S. João.

Santos tem algumas casas velhas celebres. Duas prezadas sobremaneira pelos amigos do passado. Uma na rua Vinte e Cinco de Março, data do juramento da Constituição do Império, hoje Quinze de Novembro. Ali nasceu e morou José Bonifácio. Na outra ha quem pretenda ter nascido Frei Gaspar da Madre de Deus, a quem muito deve a historia paulista.

Comercialmente falando, a rua 15 de Novembro é a Avenida Rio Branco santista. A sua mais bela e pitoresca avenida chama-se D. Anna Costa, caminho do José Menino e de S. Vicente, avenida com muito desejo de rivalizar com a Paulista, na capital do Estado.

Vai bem longe o tempo mencionado em escritura tabelioa de 1589 onde se rezava:

“Nesta vila de Porto de Santos que ele povoou de fogo morto, sendo sítio desta vila todo mato”

A Rua XV de Novembro foi comparada pelo escritor com a avenida Rio Branco, do Rio de Janeiro.

A rua 15 de Novembro não tem decerto os atrativos da Avenida Ana Costa. Nesta se acha o conforto, o luxo, talvez obtido naquela. Se não fora a rua que seria das casas bonitas da avenida? Gaiola enfeitada por si só não nutre pássaro.

Uma visita a Santos jamais pode ser singular. Há de ser dupla por força.

Saudar Santos é cumprimentar São Vicente, a cidade vestutosíssima, o modelo histórico dos núcleos de habitação paulistas, a cabeça da capitania até que tal honra pairasse sobre os ombros de São Paulo. São Vicente é a relíquia do Estado.

Como tal deveria ser tratada se nossos governos, primeiro, nossos povos, depois, assentassem que a história é insubstituível escola dos homens.

Quem não sabe de onde veio saberá para onde vai? Um provérbio adverte: cabeça de louco jamais embranquece. As experiências, e a história está cheia delas, são as cãs dos povos. Quantos se julgam nascidos sem ligações com o passado errarão eternamente na vida.

A parte mais pitoresca de São Vicente é a do mar, com alguns bons prédios, inveja da cidade interior e com certeza, by God, recreio dos ingleses.

Descendo para o oceano, encontra-se o marco comemorativo pousado na terra vicentina pela Comissão Comemorativa do 4º Centenário do nosso Descobrimento, da qual foi pessoa eminente o Barão de Ramiz.

Perpetuaram em bronze vários nomes históricos. Em face do oceano ils ont grand air (em francês – “eles parecem ótimos”). Dizem muito passado a muito presente.

Também é antanho a matriz vicentina, onde traz inscrito o ano de 1757 no alto do arco da entrada. Encerra altares encimados pela coroa portuguesa. Entramos. Num deles celebravam uma missa. O sacerdote erguia hóstia qual a levantava o celebrante de 1757. Vento de passado circulava assim a igreja toda. Em São Vicente os banhos da história concorrem com os do mar.

A revista publicou uma bela foto da estátua de Braz Cubas, o fundador de Santos.

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