Mulheres do cais insere Santos no roteiro do Cinema Boca do Lixo dos anos 1970

 

Filme, do estilo pornochanchada, retratou o submundo da prostituição e do contrabando no cais, reunindo grandes nomes da TV e do teatro

Santos, julho de 1979. Um clima de tensão rondava o cais do porto nas proximidades do edifício sede do Tráfego da Codesp. Pelo menos três carros da Polícia Civil circulavam por entre as ordinárias ruas da Boca do Lixo à espreita de um arguto contrabandista conhecido como Pinote. Uma informação anônima dava conta de que o bandido consumaria uma enorme transação de material eletrônico para uma das máfias instaladas no cais santista. De repente, eis que o muambeiro chegava sozinho ao local indicado pela denúncia, de onde passou a ser perseguido, até se ver cercado pelos policiais comandados pelo investigador José Ribamar Coimbra, o “Zé Durão”.

Pinote, no entanto, demonstrou não pretender render-se e, de súbito, sacou uma arma, calibre 38.  No meio da cena inquietante, porém, algo surpreendente aconteceria. O cidadão Carlos Lúcio de Souza, de cognome “Kalu”, funcionário de uma das mais badaladas casas noturnas da Boca, irrompia correndo ao encontro do meliante, ficando perto deste, sem atentar-se ao perigo que corria. A tensão aumentara demasiadamente. Desesperado diante da extrema situação, Pinote passou a berrar aos policiais: “Vocês só me levarão daqui morto!”. Em seguida disparou contra os homens de Zé Durão que, afrontados, revidaram. Em meio ao tiroteio que se instalou no trecho final da rua General Câmara, bairro do Paquetá, Kalu acabou atingido pelo fogo cruzado e tombou. Pinote, por sua vez, ainda atingiria dois agentes antes de ser abatido com vários disparos feitos pela polícia.

Pinote reage à prisão. Kalu, logo atrás, seria o primeiro baleado.

O roteiro dramático daquela manhã insólita, porém, ainda reservaria uma cena adicional. Uma prostituta procedente da mesma casa noturna de Kalu, de nome “Terezinha”, também surgiria repentinamente e se atiraria, aos prantos, sobre o corpo inerte do contrabandista, vociferando a palavra “assassino” ao chefe dos investigadores. Zé Durão, ignorando a revolta da moça, recolheu a arma do bandido e retirou-se do campo de guerra, que acabaria imediatamente invadido por uma turba de trabalhadores portuários, atraídos pela cena de faroeste. Eles cercaram, intrigados, os cadáveres de Kalu e Pinote, além da prostituta descoroçoada. Mais uma vez, o cais santista mostrava sua face transgressora e violenta.

Focando a roda de curiosos, a câmera, então, subiu aos céus do porto, até que, na sequência, passaram a subir os letreiros técnicos do filme “Mulheres do Cais”, dirigido por José Miziara, um dos grandes nomes da cinematografia nacional, notório produtor do movimento conhecido como “Cinema da Boca do Lixo”, que amealhou grande força entre os anos 1960 e 1970, dando origem à “pornochanchada”.

Santos, set de filmagem

Em 1979, o gênero “Cinema da Boca do Lixo” já estava consolidado no cenário alternativo da sétima arte no Brasil. Diversos dos mais importantes atores, atrizes e diretores tiveram suas experiências neste segmento, como por exemplo, o santista Nuno Leal Maia, que alcançaria grande projeção com o filme “Bem Dotado, o Homem de Itu” (1978).

Algumas cenas foram rodadas nos morros da cidade

Por uma questão de ordem econômica, até porque o estilo “Boca do Lixo” era considerado de baixo custo, a maioria esmagadora das produções acontecia na capital paulista, onde estavam instaladas as principais produtoras cinematográficas. “Mulheres do Cais” foi uma das raras exceções do gênero. Mas quem pensa que, por ter orçamento modesto, a película é mal-acabada, se surpreenderá com a qualidade do filme. As cenas de “Mulheres do Cais” foram milimetricamente planejadas. A direção se preocupava até com a questão do “continuísmo”, mantendo um profissional para ficar atento apenas neste quesito (Continuísta  é o profissional responsável por manter, durante as diversas cenas e montagens de produções televisivas e cinematográficas a harmonia do enredo, falas, sonoplastia e imagens. Ele é responsável pelo espaço e tempo contado no filme, tornando o enredo verossímil ao espectador, e fazendo com que ele acredite na história. Figurino, objetos de cenasaçõesritmo, tempo são coisas que o continuísta deve cuidar, para que não ocorram grandes falhas nos filmes).

O filme de Miziara em Santos, um dos primeiros de sua carreira como diretor, tinha como cenário a região das Bocas e contou com um elenco que, à época, era considerado de peso, como as atrizes Wanda Estefânia, Iolanda Cardoso e Selma Egrei e os atores Mauricio do Vale, Mário Bevenutti e Chico di Franco. Embora a maior parte das cenas tenha sido gravada em locações internas, algumas tomadas exibem a Santos do final dos anos 1970. O filme começa, por exemplo, mostrando o contrabandista Pinote atravessando o canal do Porto de Santos em uma catraia que chega à Bacia do Mercado. O mesmo personagem é também responsável pelas cenas de gravação no Morro da Penha. “Mulheres do Cais” tem ainda tomadas na praia do José Menino na capela de São João da Nova Cintra, onde acontece o casamento de Lídia (uma prostituta interpretada por Esmeralda Barros)e Dante (um jogador de futebol que diz não ter tido chance melhor no esporte porque era reserva de Pelé, interpretado por Walter Santos).

No elenco, atrizes de renome como Selma Egrei, que até hoje estrelam na TV brasileira.

Sinopse

O filme “Mulheres do Cais” tem um roteiro muito bem definido. A trama se concentra na história de Terezinha (Wanda Estefânia), uma moça do interior que vai tentar a vida num prostíbulo da zona do cais santista, na famosa Boca, a convite de uma amiga de adolescência, Lídia (Esmeralda Barros). Em Santos, ela se instala no bordel comandado por Maria Brasil (Iolanda Barros) e seu amante, Caixeta (Roberto Maia), que é o dono da casa noturna onde Terezinha trabalharia, atuando em shows de strip-tease ao lado de outras garotas, como Gina (Selma Egrei) e atendendo alguns clientes, entre eles o poderoso contrabandista Pepe (Mário Benvenutti), tornando-se preferida deste assim que chega à casa. No entanto, a novata acaba se apaixonando por um de seus cientes, Pinote (Francisco di Franco), um marginal que age por conta própria e trai um de seus poderosos clientes, justamente o maioral do contrabando, Pepe, que coloca sua cabeça à prêmio. Entre os caçadores do malandro está o policial corrupto Zé Durão (Mauricio do Vale), um assíduo frequentador do bordel de Maria Brasil e que não mede consequências nas suas investidas junto às boates das Bocas. A fita revela os sonhos de jovem e bela moça do interior, que sonha em mudar de vida em um mundo que a torna prisioneira. Embora compreenda, ela não aceita as regras do jogo.

“Mulheres do Cais”, que fez sua estreia nas salas de exibição em julho de 1979, foi um dos grandes marcos dos filmes produzidos pelo Cinema Boca do Lixo e, sem sombra de dúvida, uma referência cinematográfica gravada em Santos.Algumas 

Mulheres do Cais conta a história de Terezinha (Wanda Stefânia), uma moça do interior que tenta a vida como prostituta nas Bocas de Santos

Algumas cenas: Gina (Selma Egrei) no camarim da casa noturna; Terezinha (Wanda Estefânia) chega ao bordel de Maria Brasil (Iolanda Cardoso) a convite de Lidia (Esmeralda Barros); Zé Durão (Maurício do Valle) dá um chega-pra-lá em Kalu (Benedito Corsi) durante batida policial.