Hotel Internacional do José Menino – O desmanche de um glamoroso “Castelo de Areia”

No final dos anos 1950, Santos dava adeus a um de seus mais belos e tradicionais hotéis

Santos, domingo, 22 de novembro de 1959. O castelo de areia ganhava forma nas mãos do pequeno garoto, à beira d’água, na praia do José Menino, defronte à Ilha Urubuqueçaba. Ele sorria ao mesmo tempo em que moldava, nas pontas dos dedos, uma sinuosa torre de areia molhada. Ao mesmo tempo, o avô do menino apontava os olhos na direção oposta ao mar, introspecto, testemunhando um outro tipo de castelo sucumbir. No golpe surdo das duras marretas empunhadas por operários de demolição, desmantelava-se, diante dos olhos de todos, um velho e icônico edifício: o Hotel Internacional do José Menino.

Uma lágrima, então, escorreu dos olhos do velho homem, que testemunhara os tempos glamorosos daquele lugar, outrora um abrigo confortável para grandes personalidades paulistas, brasileiras e de todos os cantos do mundo, como, por exemplo, o notável escritor Monteiro Lobato, que passara ali a sua Lua de Mel, em 1908, ao lado da adorável “Purezinha” (Maria Pureza de Castro), sua esposa.

Abre alas praiano

O Internacional foi o primeiro estabelecimento de hotelaria construído na faixa da orla santista, isso nos anos finais do século 19. O bairro ainda era conhecido como um arrabalde, um lugar distante de Santos, quase um balneário independente, acessível por bondes puxados a tração animal. Erguido diante da exuberante Ilha Urubuqueçaba, o hotel foi um empreendimento bancado pelo empresário José Estanislau do Amaral, que não mediu esforços para dotar Santos de um exemplar hoteleiro luxuoso, de primeira qualidade.

Estanislau queria alugar o imóvel. Mas a coisa não deu certo e ele acabou assumindo a direção do estabelecimento.

Inicialmente Estanislau não pareceu querer administrar o hotel que mandara construir. Tanto, que mandou publicar anúncio tentando aluga-lo em agosto de 1897. “Aluga-se este soberbo edifício, construído expressamente para hotel de primeira ordem, no local mais saudável e pitoresco de Santos, fronteiro à formosa Ilha Urubuqueçaba, à igual distância do ponto do Gonzaga, Nova Cintra e cidade de São Vicente, com duas vastas cercas destinadas a arvoredos e jardim, esplêndida e segura praia de banhos à frente e em comunicação imediata com o hotel, linha de bondes à porta, a 45 minutos da estação da São Paulo Railway e com as seguintes comodidades: um belo vestíbulo com pinturas; numerosos quartos todos com janelas, para 130 hóspedes de tratamento; vastos e arejados salões para baile, concertos, jogos, leituras e bilhares; salão ricamente pintado para refeitório; numerosos banheiros, water-closets de patente com chão e paredes ladrilhados; cozinha e copa com chão e paredes ladrilhados, e com fogão econômico; abundante suprimento de água; canalização de gás, perfeitamente colocada; varanda à roda de todo o edifício, toda ladrilhada; e mais vantagens que só à vista se poderão apreciar. Tratar-se com os srs. Estanislau do Amaral & C, à Rua de Santo Antônio (atual Rua do Comércio), 6, em Santos

Apesar de todos os esforços, o anúncio pareceu não ter surtido efeito, uma vez que todas as notícias sobre sua inauguração, em 2 de outubro de 1898, davam conta de que o próprio Estanislau é quem comandava o lugar, na qualidade de proprietário do hotel. O Internacional ostentava duas fachadas, sendo uma voltada para a praia e a outra para o lado da rua, onde passava a famosa linha de bondes, puxadas a tração animal. O imóvel chamava a atenção já de longe, em função de sua estética “inglesa”. Internamente era pelo glamour e requinte dos espaços. Só para se ter uma breve ideia, o lugar oferecia aos hóspedes (a maior parte da elite paulistana) salas de música, de leitura, de conversação, de bilhar, fumoir (sala para fumantes) e o boudoir (sala de vestir) exclusivo para damas. Junto ao edifício havia ainda uma pista de patinação e cabines para alugar calções (isso mesmo! E naquela época os calções eram enormes!).

Foto de 1909, mostrando o belo hotel entre a linha do mar e a linha do bonde (nesta época já eletrificado).

O Grande Hotel Internacional seguia, enfim, os padrões europeus, típicos das estações balneárias marítimas mais badaladas, como Brighton (Inglaterra) e Saint Tropez (França). As propagandas veiculadas nos principais jornais do Estado de São Paulo exibia o local como “situado no ponto mais agradável da magnífica Praia do José Menino, que é sem dúvida uma das mais belas do mundo, a melhor e a única segura em Santos para tomar-se banhos de mar, como aliás atesta a imensa concorrência dos habitantes da cidade, que ali dirigem-se exclusivamente para tomar banhos”. Um dos pontos positivos destacadas era o fato de o José Menino não ter tido o registro de qualquer tipo de epidemia (vale lembrar que Santos ainda vivia problemas sérios de saúde pública).

O acesso ao hotel, como já dito, era pelas linhas de bondes puxados a burros que passavam pelo local na direção de São Vicente. Os carris saiam a cada vinte minutos, do Largo do Rosário (atual Praça Ruy Barbosa) e demoravam 45 minutos para chegarem até diante do hotel. As linhas iniciavam seus trabalhos às cinco da manhã e terminavam onze e meia da noite.

O hotel promovia recepções a grandes autoridades do país e estrangeiros.

Recepcionando presidentes

O Hotel Internacional do José Menino era a referência maior da cidade para os grandes eventos de caráter político. Em 1906, por exemplo, foi o estabelecimento que abrigara o jantar de honra ao presidente Afonso Pena, quando de sua passagem por Santos, ao lado do então governador do Estado de São Paulo, Jorge Tibiriçá.

Troca de donos

Em 1906 o hotel foi vendido à empresária Elisa Poli (primeira criadora do Parque Balneário). Ela procurou intensificar a característica do local como referência santista para eventos, encontros políticos e corporativos. A nova proprietária chegou a incrementar o nome do lugar, que passou a se chamar Grande Hotel Internacional do José Menino.

Mas Elisa “avançou demais o sinal” e acabou contraindo muitas dívidas. Em 1909, os credores se reuniram para pressionar a empresária, a ponto de ela pedir concordata junto à 1ª Vara.

Em 1910, a Prefeitura apresentou um amplo plano de urbanização das avenidas da orla, promovendo a macadamização (processo de revestimento de ruas e estradas que consiste numa mistura de pedras britadas, breu e areia, submetida à forte compressão). Isso valorizou ainda mais o bairro e o próprio hotel, que ocupava definitivamente o posto de estabelecimento mais charmoso da cidade. Porém, em 1914, este posto seria tomado pelo elegante Parque Balneário Hotel (já nas mãos dos irmãos Fraccarolli), no jovem bairro do Gonzaga.

Hotel Internacional do José Menino, visto da areia da praia. Esta foto tem uma curiosidade. O menino que aparece entre duas meninas ficaria famoso quando adulto. Ele é Ricardo Gumbleton Daunt, que se tornaria advogado, historiador e genealogista. Todos os RG de São Paulo levam o nome do Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt.

 

Nos anos 1930, o hotel era adquirido pelo empresário Alfieri Martini. Nesta época, Internacional do José Menino se especializara em recepcionar eventos de empresas e clubes da capital, notadamente convescotes e piqueniques de funcionários e associados. Entre as diversas empresas que utilizavam o espaço, destacaram-se o Mappin (Lojas) e a São Paulo Railway e, entre as agremiações sociais, o Clube de Regatas Tietê e o Telefônica Clube de São Paulo.

Em 1945, o Internacional de Santos anunciava na grande imprensa “oferecendo o mais moderno conforto às famílias”. Já eram tempos de grande concorrência no setor de hospedagem na cidade santista. O hotel do José Menino destacava possuir cozinha de primeira qualidade, garagem para carro, cabines de banhos, playground e água corrente em todos os quartos.

Decadência, projetos de ocupação e demolição

Apesar da publicidade, o estabelecimento não conseguiu acompanhar os novos conceitos e demandas do setor de hotelaria e passou a dar prejuízos. Ainda em 1944, o empresário Joaquim Avelino da Silva apresentou um plano ousado de ocupação da orla do José Menino, incluindo a área do hotel e a própria Ilha Urubuqueçaba. Sua proposta era construir nada menos do que 17 edifícios com 15 andares cada, num investimento da ordem de 250 milhões de cruzeiros (cerca de R$ 2,5 bilhões em valores atuais). Desse certo, tornar-se-ia o maior condomínio da cidade. Mas não deu.

Independente do futuro, as atividades do Internacional acabaram se findando em 1956. O município de Santos ainda tentou desapropriar as áreas do hotel e do entorno. A ideia era proteger a faixa de orla, tal qual o restante da praia santista. Porém, sem dinheiro em caixa para pagar os terrenos, a ideia não saiu do papel.

Em meados dos anos 1950, especuladores imobiliários conseguiram comprar a área do hotel e todos os lotes da faixa de areia do entorno. Estava fadado o fim do velho prédio e o sossego do bairro.  Ao mesmo tempo, a Prefeitura, então sob o comando do prefeito Silvio Fernandes Lopes, promoveu um grande projeto de remodelação viária na ligação Santos-São Vicente.

Diante dessas duas circunstâncias, foi lançado um grande projeto imobiliário, com a previsão de construção de onze edificações naquele trecho entre as praias do José Menino e Itararé (que nada mais são do que os atuais prédios pé de areia do bairro). Os empresários então contrataram a empresa de demolição Massis, que se responsabilizou pelo desaparecimento do histórico prédio.

Assim, em novembro de 1959, o Hotel Internacional, de tanto glamour e histórias para contar desmantelava-se tal qual o castelo de areia do menino acompanhado de seu avô, vencido pelo ligeiro vigor das marolas rasas. Ondas que vêm, mas não retornam iguais.

Cenas da demolição do Internacional do José Menino em 1959.

Anuncio de 1899

O Hindenburg sobrevoa o José Menino. Vê-se na imagem o Hotel Internacional e a Ilha Urubuqueçaba.

O Hotel Internacional testemunhando o surgimento dos primeiros prédios da orla santista.