SANTOS ESTREIA SERVIÇO TELEFÔNICO INTERURBANO MODERNO EM 1929

Por abrigar um porto estratégico para a economia nacional, Santos teve o privilégio de experimentar pioneiramente algumas grandes comodidades tecnológicas. Entre as tantas que surgiram a partir da segunda metade do século 19, em função da revolução industrial, uma das mais significativas foi a comunicação por telefone.

As primeiras linhas da cidade surgiram em 1883 (apenas sete anos depois ter sido inventado por Antonio Meucci e patenteado por Alexander Graham Bell, nos Estados Unidos). O responsável pela instalação na cidade santista foi o engenheiro Walter Hemsley, que providenciou a montagem de uma estação contendo 75 assinantes. Ela foi considerada a primeira estação telefônica do Estado de São Paulo.

As telefonistas

Apesar de altamente tecnológico para a época, sua operação não era nada simples. Os afortunados que tiveram o privilégio de terem um aparelho telefônico em casa, eram obrigados a recorrer a um time de telefonistas para poder realizar uma chamada. Era necessário tirar o fone do gancho e girar uma manivela, que acionava magneticamente a estação central. Do outro lado da linha, uma telefonista (todas eram mulheres) atendia a chamada, dizendo: “Número, faz favor.” No início esses números só continham quatro dígitos. Se, por acaso, não se soubesse o número da pessoa para quem ligar, era necessário recorrer às adoráveis moças da companhia telefônica. Elas possuíam em mãos uma lista com o nome e número de todos os assinantes da cidade, fossem eles pessoas ou empresas.

Interurbano?

Foram necessários vários anos de avanços até que as ligações telefônicas reunissem condições de serem direcionadas para fora da cidade de Santos. Apesar de terem tentado, não foi possível aproveitar a rede telegráfica para atender a finalidade. O cabeamento era diferente e não atendia as necessidades para o tráfego de voz. Somente em 1913 é que finalmente a barreira foi suplantada e acabou-se inaugurando um cabo especial para telefone entre Santos e São Paulo. Foi o primeiro sistema subterrâneo do Brasil. Quando chegou à capital bandeirante, o ramal santista foi ligado a outros que se conectavam ao interior do Estado.

Apesar do sistema pronto, e funcionando, promover uma ligação interurbana entre Santos e São Paulo era uma tarefa árdua. Na maior parte das vezes, esperava-se mais de um dia para se obter sucesso de contato. E, quando isso acontecia, era necessário todo o suporte da telefonista da central de Santos, que precisava ser avisada do tipo de chamada: se era local ou interurbano.

Sala de Operação de Santos

 

O sistema de 1929

No ano de 1929, a Companhia Telefônica Brasileira, responsável pela gerência do sistema em Santos, inaugurou um novo sistema, de discagem mais rápida e eficiente. Era o chamado “Método IU-AB (AB Tool)”. O ponto de partida se deu às 6 horas da manhã do dia 7 de abril. A partir daquele momento toda, as chamadas “número para número” eram providenciadas diretamente pelas telefonistas que atendiam os assinantes de Santos. Para se fazer, então, uma chamada para São Paulo, o pleiteante não precisava mais informar se era interurbano (exceção se fazia necessária para chamada telefônicas para outras cidades do Estado). Assim sendo, diante da pergunta clássica da telefonista, “Número, faz favor”, o assinante deveria dizer, por exemplo – São Paulo, 7-0134. Era assim que a chamada passou a ser providenciada imediatamente.

O assinante teria, então, de aguardar a ligação ser completada, ou por um aviso qualquer da telefonista, mantendo o fone no ouvido. A Companhia Telefônica orientava os seus assinantes a terem em mãos uma lista com os nomes dos assinantes de São Paulo. Se não tivessem, poderiam consultar através de um serviço, pago, de “Informações-Interurbano”.

A ligação “número para número” passou a ser considerada mais rápida e barata do que a que existia até então, custando 2 mil réis pelos três primeiros minutos. Nos minutos seguintes, a taxa era menor.

Como funcionava o Método IU-AB

A Companhia Telefônica Brasileira chegou a publicar um manual de procedimentos, que dizia: “O assinante ao tirar o fone do gancho é atendido, em questão de segundos, pela telefonista de sua cidade como se fosse uma ligação local. Ao pedido de – ‘Número, por favor’ -, o assinante deve falar o nome da localidade e o número desejado (ex.:, São Paulo, 7-0135), e fica aguardando a ligação ser completada com o fone no ouvido.

Neste exato instante, a telefonista, então, anota o número do telefone solicitado num bilhete de controle que fica preso junto ao aparelhamento especial situado em sua posição na mesa de controle. É também anotado o número o chamador, para posterior cobrança do valor da ligação. Por meio de um circuito de botão a telefonista solicita o número chamado a uma colega intermediária situada em São Paulo. Esta lhe designa um tronco, que é, então, tomado com a pega da frente (de chamar). Neste momento o telefone de destino toca. Quando ele é atendido, a ligação, enfim se estabelece”

A telefonista ficava aguardando a conclusão da ligação. Ela anotava, fazendo uso de um relógio especial, o momento do início da chamada e do fim. Com extrema habilidade, a profissional ainda promovia outras ligações semelhantes simultâneas, como pode ser visto no esquema da ilustração abaixo.

O treinamento do pessoal de operação necessário à introdução deste método IU-AB foi executado com excelentes resultados na cidade de Santos. Foram ao todo capacitadas 80 moças, todas sob a direção de Olympia Pousa, telefonista-chefe viajante da CTB e L. Rowlands, telefonista chefe local, devidamente auxiliada por um grupo de esforçadas empregadas.

Assim, no dia 7 de abril, a partir das 6 horas da manhã, todos os assinantes de Santos passaram a dispor de um sistema de comunicação mais rápido e eficiente. O primeiro a fazer uso do novo sistema promoveu uma chamada às 7h11, atendido pela telefonista Izaura Gonçalves, mantendo-se em conversa por 40 segundos.

Durante todo o mês de abril, a filial santista da Companhia Telefônica Brasileira promoveu uma média de 450 chamadas completas com o método IU-AB por dia. Antes deste método, a média diária não ultrapassava a casa de 150 chamadas, para se ter uma ideia do alcance do sistema revolucionário.

Sentada, a Sra. Olympia Pousa, telefonista chefe viajante de São Paulo, que dirigiu o treinamento do pessoal. De pé, da direita para a esquerda, Srta L. Rowlands , telefonista chefe de Santos; Srta Idalina Campos, instrutora local e Srta Cacilda Afonso, assistente da telefonista chefe, estas duas auxiliares de treinamento.

Com a introdução do método novo, a mesa interurbana de São Paulo, que até então providenciava chamadas de qualquer espécie, ficou aliviada da carga, o que permitiu uma melhor distribuição do serviço e, consequentemente, mais velocidade nas ligações entre Santos e São Paulo.

Outra vantagem apresentada pós implantação do IU-AB foi verificada no tempo de espera para a promoção das ligações número a número. Antes, a espera média era de 9,14 minutos. Com o novo sistema, o tempo de espera caiu para 3,15 minutos na média. Santos foi a primeira cidade brasileira a manter contato com São Paulo com a qualidade do novo sistema.

A solenidade de inauguração

O espaço dedicado ao serviço de telefonia, situado na Rua Itororó, era amplo e arejado. As funcionárias, todas mulheres, observavam todas as rígidas regras de higiene. A CTB em Santos mantinha refeitório para seus colaboradores e era amplamente elogiada pela sociedade,

No dia da inauguração, várias personalidades estiveram presentes, como o delegado de polícia regional, Armando Ferreira da Rosa e o gerente da Companhia City (a maior concessionária de serviços públicos de Santos), dr. Bernardo Browne. A convite do chefe do tráfego da CTB, A Grellet, o delegado fez uma ligação para a capital paulista e se mostrou satisfeito com os resultados obtidos.

ESQUEMAS DO SISTEMA EM SANTOS