A incrível história do “Recreio” (ex-Carl Hoepcke), que encalhou nas areias santistas para nunca mais sair de lá

CENÁRIO PÓS TSUNAMI
Os santistas não podiam acreditar no que seus olhos viam. Uma embarcação de centenas de toneladas de peso jogada na areia como se fosse um barquinho de madeira. Virou atração!

Santos, 24 de fevereiro de 1971, 22h30. A velha embarcação sacolejava de forma violenta no meio da tempestade que se formou repentinamente e transformou as estáveis águas do canal do porto de Santos num mar revolto. O “Carl Hoepcke”, que outrora fora senhor absoluto de seu destino nos mares, dono de uma história notável, repleta de glamour, agora, com o nome de “Recreio”, prendia-se à existência tão somente por corroídas amarras de aço que, sofridamente, ainda o estabilizavam à âncora, presa firmemente no fundo lodoso da entrada da Barra. Os poucos tripulantes à bordo, desesperados, não sabiam o que fazer, uma vez que lhes faltava experiência para agir diante de situações extremas. Impulsionada pelos fortes ventos sul, a embarcação, à mercê da própria sorte, acabou por romper a rigidez do aço, partindo-o como se fossem de plástico. O navio, enfim, se viu livre, mas não pareceu gozar uma liberdade triunfante. Sem contar com motores de propulsão, perdido, singrava as ondas como estivesse buscando, inconscientemente, sua ruína definitiva, querendo colocar um ponto final nos anos de humilhação que viveu desde o incêndio que lhe roubou a dignidade original, quinze anos antes. Como um navio fantasma, o antigo transatlântico, no passado apelidado “príncipe de Santa Catarina”, avançou firme na direção da cidade santista, a mesma que testemunhou sua última escala de viagem, em 1956, antes de se tornar um arremedo de navio de cruzeiro.

Como uma besta enfurecida, o Recreio apontou sua proa na direção do canal 6 e, impetuosamente, partiu na direção a terra. Subitamente, enquanto os poucos homens à bordo tentavam se segurar a qualquer coisa para não ir ao chão, um sacolejo mais forte produziu um forte rugido. Bum! Quem estava em pé, caiu. O velho navio boate estava sinistramente imóvel, absolutamente inerte nas areias da praia urbana. A paisagem da orla havia ganhado um elemento inusitado, embora a maioria absoluta dos santistas, nem em sonho, imaginaria encontrar um navio encalhado em seu território de lazer na manhã seguinte.

25 de fevereiro, 8h30

Uma multidão se formara no calçadão da Ponta da Praia para assistir a cena incomum. Curiosas, algumas pessoas se arriscaram a chegar perto do navio, querendo tocá-lo, como uma prova de ousadia. Inerte, o Recreio voltou a ser o centro das atenções, tal qual nos tempos de glória, porém não pelo seu brilho e glamour, objeto de desejo dos catarinenses, mas como um alienígena perdido na Terra. Sua tripulação conseguira abandonar a embarcação com a maré baixa e as autoridades santistas tentaram devolver o intruso de volta ao seu habitat, sem sucesso. O velho Carl Hoepcke não queria mais viver.

Durante dezoito meses, o Recreio fez parte da paisagem da Ponta da Praia e se tornou curiosidade turística. Afinal, era um “estranho no ninho”. Ao mesmo tempo se tornou um problema para moradores e autoridades. 

Sentimentos opostos

Enquanto o Recreio agonizava silenciosamente nas areias da Ponta da Praia, as notícias do seu encalhe desfilavam pela imprensa na forma de notas curiosas sobre um decadente navio boate que findava definitivamente uma carreira que teria sido gloriosa num passado não tão distante.  Para os santistas, que se divertiam com a cena inusitada nos dias seguintes ao estranho sinistro naval, certamente tais exposições carregavam um misto de fantasia e surrealidade. Afinal, como um barco tão simplório, que nem motor tinha, poderia ter vivido um passado faustuoso? 

Mas, se havia ignorância por aqui, o mesmo não se podia dizer a 460 quilômetros de distância das praias santistas, em outro recanto do litoral brasileiro. Na bela Florianópolis, ao tomarem conhecimento do triste acaso, muitos lamentaram a derrocada irreversível de um velho ícone da navegação catarinense. Para esses, o que acabara de ser enterrado nas areias de Santos não era tão somente toneladas de ferro velho e castigado, mas sonhos, histórias inesquecíveis de um tempo que não mais voltaria, o capítulo final de um verdadeiro príncipe dos oceanos.

Na temporada de Verão de 1972 os bombeiros e salva-vidas tiveram bastante trabalho para impedir os “aventureiros de plantão” que tentavam subir à bordo da embarcação encalhada na Ponta da Praia. Os moradores locais reclamavam dos desocupados que, à noite, utilizavam o navio como ponto de uso de drogas.

O Carl Hoepcke foi encomendado junto ao estaleiro da cidade de Elbing, na Prússia.

Nasceu como transatlântico

O estaleiro F. Schichau Werk GmbH, situado na movimentada cidade portuária de Elbing, Prússia Leste, Alemanha, foi o local onde, no ano de 1926, o Carl Hoepcke, nascido como transatlântico, tocou pela primeira vez o mar, debutando nas águas geladas do Báltico para cumprir, em seguida, seu destino, em terras bem mais quentes, no longínquo país tropical chamado Brasil. Sua existência foi encomendada pela respeitada Empresa Nacional de Navegação Hoepcke (ENNH), cujo fundador, Carl Franz Albert Hoepcke, um imigrante germânico que aportara em Santa Catarina em 1863, não tivera tempo de vislumbrar sua maior e mais importante aquisição naval. Seus filhos e netos, numa justa homenagem ao patriarca, morto aos 79 anos de idade, acabaram por batizar a imponente embarcação com o seu nome.

O navio, de 62,40 metros de comprimento e 10,96 metros de largura, chegou a Florianópolis numa manhã de domingo, em julho de 1927, depois de ter atravessado o Oceano Atlântico em 27 dias de viagem. Nesta travessia, já cumpriu sua primeira tarefa: transportou para o Brasil, 898 toneladas de carvão. 

Suas máquinas geravam uma potência de 12 mil cavalos (HP), responsáveis por movimentar duas hélices, que imprimiam uma velocidade de 12 milhas por hora. A embarcação contava com equipamentos de radiotelegrafia, frigoríficos com máquina para produzir gelo, além de aparelhos contra incêndio e para desinfecção. A Empresa Nacional de Navegação Hoepcke tinha o porto de Florianópolis como sua base principal e mantinha na praia de Rita Maria seu complexo portuário, que incluia o cais de navios, trapiches, armazéns e um estaleiro: o Arataca. A companhia possuía ainda mais quatro embarcações de grande porte e muitas outras menores. Porém, seu grande orgulho passou a ser o “Carl Hoepcke”.

Tempos de glória

O transatlântico, em sua primeira fase, era reconhecido como um navio moderno, sofisticado e luxuoso.  Acomodava 50 passageiros na primeira classe e outros 60 na segunda, contando ainda com dois camarotes de alta categoria. Possuia amplo refeitório, com mesas redondas e cadeiras giratórias, além de “fumadoiro” com divãs e poltronas de couro.

Um piano dava um toque de alegria às noites de jantar, conduzido pelo hábil pianista Cristaldo Araújo,  que também fazias as vezes de telegrafista. Pratarias e louças finas completavam o ar de requinte ao ambiente.

O Carl Hoepcke atracado no Porto de Santos nos anos 1950.

Entre 1927 e 1960, o Carl Hoepcke propiciou a forma mais glamourosa de viajar entre Florianópolis e o resto do Brasil. Quando aportava na capital catarinense, transformava o cotidiano da cidade. Em suas paradas no cais Rita Maria, bandas de música recepcionavam passageiros e curiosos que lá ficavam aguardando a chegada do transatlântico mais famoso da ilha.  As chegadas do Carl Hoepcke era sinônimo de festa. As pessoas vestiam seus melhores trajes apenas para receber os viajantes, tripulantes, encomendas e novidades. Quando partia em viagem, ao passar pela ponte Hercílio Luz, dava o seu tradicional apito de despedida. O transatlântico não transportava apenas pessoas, mas também notícias, novidades e esperanças. Pelo menos duas gerações de catarinenses viajaram e receberam amigos e parentes através das rotas da empresa. O Carl Hoepcke cumpria roteiros regulares pela costa brasileira, “integrando a terra e a gente catarinense através de seus portos”, conforme anúncios da época.  

O primeiro acidente

Setembro de 1939. Quando seguia em direção ao Rio de janeiro, o Carl Hoepcke bateu numa laje de pedra nas proximidades da Costa de Armação da Piedade, em Santa Catarina. Sofria ali o primeiro dos acidentes que marcariam sua decadência. O sinistro provocou sérios danos ao casco e inundou os porões. Felizmente nada aconteceu ao passageiros e à tripulação. Mas o imponente transatlântico se viu impotente diante da enorme rocha submersa e permaneceu encalhado no local por bastante tempo. 

Jamais conseguiram apurar as causas do acidente. A laje não era totalmente desconhecida aos comandantes da região e sua localização constava nas cartas náuticas da época. Por se tratar do primeiro ano da Segunda Grande Guerra, especulações sobre sabotagem começaram a pipocar na imprensa. Quando souberam do acidente, chegaram a supor que o navio teria sido torpedeado por um cruzador inglês, o “Ajax”, que navegava próximo à ilha de Santa Catarina e teria confundido o Carl Hopecke, por conta do nome alemão, como um navio inimigo dos britânicos.

Rebocado mais tarde pela lancha São Francisco, o navio foi recuperado em sua própria casa, no estaleiro Arataca. Após um período em reparos, voltou à ativa e retomou sua vida de glamour.

O incêndio maldito

Dezessete anos depois, o Carl Hoepcke sofreria um duro golpe, que colocaria a palavra fim à sua rotina de glórias e idolatria. Era o começo da tarde do dia 27 de setembro de 1956. A embarcação havia deixado o porto de Santos, onde fez escala, e já se encontrava a 15 milhas de distância da costa, com 130 passageiros à bordo. De repente, um alarme. Da casa de máquinas saía uma fumaça densa, assustadora, provocando apreensão e correria entre tripulantes e passageiros. O pressentimento de incêndio se confirmava. As labaredas surgiam na proa e o fogo começou a dominar o imponente navio. Em pânico, várias pessoas se atiraram ao mar. Muitos ficaram feridos, um morreu por afogamento e outro ficou perdido no mar por 27 horas, até que foi milagrosamente resgatado, encontrado agarrado a um pedaço de madeira.

O telegrafista ainda conseguiu emitir um sinal de socorro e, graças à proximidade com o porto santista, o resgate chegou rapidamente. O incêndio, porém, só foi debelado no dia seguinte. O navio sinistrado só foi salvo graças a uma arriscada, mas bem operada manobra efetuada pelos tripulantes. Eles deliberadamente afundaram parte do navio para apagar o fogo. Depois de extinto, conseguiram trazer a embarcação de volta à tona, numa operação incrível. Bastante danificado, o Carl Hoepcke teve de ser rebocado para Florianópolis pela embarcação Anna, também pertencente à ENNH.

Acabado, virou cargueiro
O Carl Hoepcke ficou tão maltratado que não foi possível devolvê-lo ao roteiro charmoso dos cruzeiros. A contragosto, afinal, o navio era a memória viva do patriarca da família, os herdeiros de Carl Hoepcke resolveram transformá-lo num navio cargueiro e logo o venderam para um armador do norte do país, onde acabou rebatizado com o nome “Pacaembu”.

O velho transatlântico chega a Santos

O príncipe catarinense já não era o mesmo e navegava ao longo da costa norte do Brasil, carregando carvão, madeira e outros tipos de carga de segunda categoria. Estava maltratado, enferrujado e pouco lembrava o garboso navio frequentado por grandes personalidades e gente da alta sociedade catarinense. O aroma dos jantares à bordo foi substituído pelo odor de óleo queimado e graxa; e a melodia romântica do piano tocado por Cristaldo Araújo deu lugar ao insistente ranger dos velhos mastros. Em certa viagem, no final dos anos 60, o motor principal da embarcação pifou de vez. Seus novos donos não estavam inclinados a mandá-lo para o estaleiro mais uma vez. A solução parecia encaminhar para o desmanche. Quando tudo indicava que o velho Carl Hoepcke encerraria sua carreira como um pesadelo, surgia em seu caminho um verdadeiro sonhador, o engenheiro naval russo, radicado em Santos, Wladimir Grieves, que fez uma oferta de compra pelo Pacaembu, no estado em que estava. Ele pretendia devolver parte da dignidade ao velho transatlântico, transformando-o num espaço de lazer para a cidade de Santos, um navio boate!

Navio sem motor vira boate

Depois de ser vendido por Cr$ 50.000,00 (cinquenta mil cruzeiros), o cargueiro Pacaembu chegou a Santos rebocado, uma vez que não tinha mais motor de propulsão. Grieves pretendia deslocá-lo de um lado para o outro do canal do estuário por meio de rebocadores. Animado com a ideia de manter uma casa de divertimento flutuante, o engenheiro promoveu várias adaptações. No lugar da casa de máquinas, mandou fazer uma piscina; a chaminé virou caixa-d´água e a torre de comando foi transformada em mirante, com direito a bancos e mesinhas para os clientes. Depois de tudo pronto, rebatizou o velho Carl Hoepcke com um nome que sugeria sua nova fase: “Recreio”.

Grieves havia investido muito dinheiro no empreendimento, acreditando que alcançaria sucesso imediato na cidade. Mas deu com os burros n´água. A repercussão da casa noturna flutuante não foi a esperada e o empresário percebeu que seu espaço de lazer prometia dar prejuízo. 

Em meados de 1970, surgiu uma proposta interessante: o Recreio foi convidado a ficar ancorado na Baía de Guanabara a fim de atrair o público carioca. A oferta era tentadora, uma vez que a quantidade de pessoas no Rio era bastente superior à de Santos. Mas o destino pareceu querer segurar o velho Carl Hoepcke na terra santista e a ideia carioca não deu certo.

Grieves resolveu investir no Reveillon de 1971 e preparou o barco para uma festa inesquecível. Na véspera do ano novo, o barco foi ancorado, depois de rebocado, defronte à praia do Góes, nas proximidades da entrada da Barra. Mal sabia que seria a última vez que lançaria suas âncoras ao mar. 

O fim do príncipe catarinense

O Recreio foi mantido nas proximidades do Góes durante todo o Verão, abrigando festas nos finais de semana. Conseguiu atrair muitos turistas em passagem pela cidade de Santos. Dos apartamentos mais altos nos prédios da Ponta da Praia era possível ver as luzes e escutar o burburinho das pessoas no convés da boate flutuante. O velho Carl Hoepcke parecia ter encontrado novamente um motivo para continuar com seu brilho. Mesmo sem ter como locomover-se por conta própria e não ostentar o garbo de outrora,  o antigo transatlântico voltara a ter uma função de lazer, oposta à condição nefasta do período quando navegava sob o pseudônimo Pacaembu. Porém, quis o destino pregar outra peça ao príncipe catarinense.

O final da tarde do dia 24 de fevereiro de 1971 prenunciava algo terrível. As chuvas vinham castigando a Baixada Santista fazia alguns dias, mas nada iria se comparar ao que ocorreu entre a noite de quarta e madrugada de quinta-feira. De repente foi como se fosse o dilúvio, água por todos os lados, caindo do céu, deslizando pelos morros, alagando ruas. O céu enegreceu pouco antes do crepúsculo e assustou os santistas. 

O mar revolto e fortes ventos sacolejavam todos os pequenos barcos de pesca ao longo do canal do Estuário. Ninguém tentava se arriscar sair à navegação. O velho Carl Hoepcke sacudia freneticamente até que teve suas amarras rompidas e partiu sem permissão em rumo direto para as areias da Ponta da Praia.

Atração e problema na orla

Dias depois do sinistro, a cidade ainda não acreditava na cena que via na Ponta da Praia. Sem sucesso nas tentativas para retirar o Recreio do local do acidente, as autoridades não sabiam mais o que fazer com aquela encrenca de 60 metros e toneladas de aço. Passaram-se dias, semanas, meses. O navio acabou incorporado à paisagem e se tornou atração para as crianças e os banhistas que frequentavam as praias nos finais de semana de sol. Ao mesmo tempo se tornou um fardo para a população da Ponta da Praia, que assistia impassiva às contantes tentativas de invasão por parte de desocupados e malandros, que começaram a utilizar o navio como local de uso de drogas.

A partir de abril de 1971, o Recreio começou a ser desmontado para ficar mais leve e, assim, exercer menor pressão sobre a superfície arenosa da praia santista. Não adiantou muito a curto prazo. A embarcação ficou encalhada ainda por mais um ano e quatro meses, esperando uma maré suficientemente alta que permitisse arrancar o velho barco boate do local de sua ruína.Na imagem histórica de 1971, o proprietário do Recreio, Wladmir Grievs, orienta os operários de demolição. Algumas peças foram salvas e dadas como presente para alguns amigos do engenheiro.

A retirada

A primeira providência para retirá-lo só veio a ocorrer um ano e meio depois do encalhe. Foi no dia 8 de agosto de 1972, quando o rebocador “Plutão”, da Wilson Sons, iniciou seu trabalho, exatamente às 13 horas, quando uma “preamar de sivigia”, ou seja, maré alta, muito cheia e constante por várias horas seguidas, permitia alguma possibilidade de deslocamento. Alguns dias antes, para aliviar o peso do navio, foram retirados os mastros e suportes do convés, além de todo o maquinário que pôde ser desmontado. 

Maquete do rebocador Plutão

Pouco depois das 14 horas, a maré, conforme o planejado, subiu o suficiente para que o “Plutão” iniciasse o seu trabalho. No entanto, o velho Carl Hoepcke parecia não querer desgrudar da terra santista. Os técnicos do resgate, então, resolveram usar dinamite para explodir as áreas onde o navio estava apoiado mais firmemente. Dez minutos se passaram e nada. O rebocador insistia e sacolejava freneticamente. Mais dinamite foi usada. De repente, o casco do Recreio balançou. Os homens em terra olharam-se uns para os outros e sorriram, outros se abraçaram. A possibilidade de se livrarem do navio fantasma estava próxima. O “Plutão” insistia e não queria largar-se da presa. Parecia um leão feroz agarrando a caça pelos membros. Subitamente, ouviu-se um forte estalido. Era uma das amarras que arrebentara. Outras duas vezes, os cabos se romperam, mas nada impediu o avanço no trabalho. Depois de tanto insistir, exatamente às 15h17 o Recreio, o velho Carl Hoepcke, soltou-se da terra onde escolhera para repousar e voltou ao mar, sem vontade alguma.

As centenas de pessoas que assistiam à epopéia, fosse da calçada, da areia ou do alto dos prédios da orla da Ponta da Praia, explodiram em entusiasmo. Aplausos, gritos de vivas e alívio foram ouvidos. Rojões foram soltos pelos moradores que reclamavam da presença do navio intruso. O jogo de cabo de guerra terminara, vencido pelo rebocador, mas com a ajuda de dinamites. Não fosse pela trapaça, o velho príncipe talvez ainda repousasse por mais tempo nas areias santistas. Do convés, o engenheiro Wladimir Grievs acenava com os braços, a sua manifestação de alegria, contrastando com a tristeza de testemunhar seu sonho morrer na praia.

Timão foi preservado e dado de presente ao advogado Gastone Righi, que o manteve em sua casa por muitos anos.

Timão preservado

Antes de resgatar o Recreio das areias santistas, Vladimir Grievs mandou retirar algumas peças importantes do navio, como o timão do leme, que acabou dando de presente ao advogado e amigo, Gastone Righi, um notório apaixonado por objetos navais. Grievs também presenteou o amigo com a bússola e as vigias. As peças estão perfeitamente preservadas.

Lixo ameaçador

Mas quem pensou que o Carl Hoepcke foi totalmente expulso das praias santistas, se equivocou completamente. As explosões à base de dinamite fizeram com que boa parte do casco se soltasse da estrutura do barco, permanecendo enterrada no trecho do encalhe. O leme foi outra peça que também não se deslocou junto com o Recreio e permaneceu enterrado no local.  Os destroços ficaram fora da faixa de areia praticamente a 50 metros para dentro d´água e, inicialmente, passaram desapercebidos, uma vez que a própria maré se encarregou de conduzir quantidade de areia suficiente para ocultá-los.

Até hoje não foi apurado se houve negligência ou má intenção por parte dos técnicos responsáveis pelo resgate. Independente das culpas, o fantasma do velho navio Carl Hoepcke voltaria a assombrar os santistas quase trinta anos depois, na condição de lixo ameaçador.

O Recreio ressurge na areia

A dinâmica do ambiente marinho tratou de revelar, da pior forma possível, que o velho Recreio, cuja história já estava esquecida na mente de praticamente todos da cidade, ainda iria dar muita dor de cabeça aos santistas. O desassoreamento de parte da faixa de areia trouxe à tona, a partir de 1999, pedaços de aço enferrujado e pontiagudos, provocando alguns acidentes entre banhistas. Os jornais da cidade não titubearam a criticar a situação e estampar em letras garrafais manchetes do tipo: “Restos ressurgem das areias para assombrar santistas”.  

Duramente criticada, a prefeitura iniciou um processo para a retirada dos destroços, que impunham um alto risco aos banhistas na Ponta da Praia.

No entanto, por falta de experiência e entraves burocráticos, o trabalho para a retirada dos restos do Recreio foi iniciado e cancelado inúmeras vezes.  O material foi ficando cada vez mais exposto e, em 2004, diversas partes já apareciam ameaçadoras. Como medida paliativa, a área “assombrada” foi interditada. As autoridades demarcaram o trecho minado e o cercaram, como forma de impedir a aproximação de banhistas desavisados, em especial as crianças. Por alguns anos, os santistas esperavam uma atitude definitiva para estirpar o mal da nobre área de lazer.

Maçaricos e escavadeiras

Após inúmeros adiamentos, finalmente em janeiro de 2006 a Prefeitura de Santos voltava a tentar remover os destroços. No entanto, as péssimas condições de maré e do próprio tempo dificultaram os trabalhos dos técnicos da Secretaria do Meio Ambiente e da Defesa Civil. A remoção das ferragens acabou virando atração para turistas e moradores que passavam pela região.

A retirada dos restos do velho Carl Hoepcke foi bastante complicada, uma vez que o casco estava enterrado a grande profundidade. O processo de remoção consistiu em três partes: drenagem da área, escavações localizadas com uso de escavadeiras e corte dos pedaços perigosos à base do maçarico. Até  julho de 2006, cinco toneladas de destroços tinham sido retiradas. Reduzidos a um amontoado de ferro retorcido e sem forma definida, os restos mortais do navio foram retalhados.

HAJA CASCO! Em 2006, mais de cinco toneladas de ferro e aço do casco do velho Recreio haviam sido retirados nas areias da Ponta da Praia, num trabalho que dependia da boa vontade das marés.

Leme para o Museu

Como já dito, se o decadente navio boate não fazia parte do emocional santista, o mesmo não se pode dizer dos catarinenses de Florianópolis, onde o Carl Hoepcke era tratado como o Príncipe dos Mares. Assim, enquanto para o povo de Santos os restos mortais do navio eram sucata para jogar fora, para os florianopolitanos eles se constituíam numa relíquia inestimável. 

Por conta disso, a retirada do material remanescente do Recreio, em 2006, foi acompanhada de perto e com bastante entusiasmo por um representante do Instituto Carl Hoepcke. Ele aguardava ansiosamente pelo surgimento de um pedaço em especial, que fora perdido na ocasião da primeira retirada, em 1972: o leme.

Esta peça fundamental do velho transatlântico, no entanto, só foi finalmente encontrada e resgatada em agosto de 2008, mas, ao contrário do que desejava o representante do Instituto cujo patrono foi o homem que mandou fazer aquele navio, a peça ficou retida em Santos, no pátio da Terracom.

Carls Hoepcke é santista

Em 2011, as notícias sobre os restos mortais do lendário navio catarinense ainda insistiam em permanecer na mídia. Apesar de mais de seis toneladas terem sido retiradas desde 2006, ainda existem pedaços do Recreio na Ponta da Praia. Com isso, já são 40 anos de convivência, o que torna o Carl Hoepcke tão santista quanto catarinense, uma vez que fez e ainda faz parte do imaginário de muitos que o conheceram em seus últimos momentos de vida.