Santos tributa a maior homenagem brasileira a um diretor de cinema

Santos, quarta-feira, 4 de julho de 1962, 10h00. Milhares de pessoas se aglomeravam pelas principais ruas do Centro da cidade, em absoluta festa. Nem parecia ser um dia de semana comum de trabalho, longe disso. Os santistas, em regozijo, não cabiam em si por poderem testemunhar a chegada da tão sonhada taça, que representava a força do Brasil por chegar ao topo do mundo, mais uma vez naquele ano. A multidão acompanhava em êxtase o caminhão do Agrupamento de Bombeiros, que levava em triunfo o comandante daquela vitória histórica. Ao seu lado, os companheiros de jornada e membros da delegação brasileira que voltava de navio desde a nação estrangeira, com a taça nas mãos. O país tropical, abençoado por Deus, triunfara sobejamente, numa partida final onde não era o franco favorito. Até por isso, chocou o mundo, mais uma vez, por meio da sua arte.

Pera lá. Certamente você deve estar raciocinado: taça, 1962, conquista em um país estrangeiro, topo do mundo, arte, vitória numa final eletrizante. Obviamente deve ter vindo à sua cabeça a conquista do bicampeonato mundial de futebol, pela seleção canarinho na Copa do Mundo do Chile, em 17 de junho, não? Então, não é nada disso. Os santistas recebiam naquele dia 4 de julho, data da Independência norte-americana, em sua casa, o badalado diretor Anselmo Duarte, que dias antes conquistara, de forma pioneira para o Brasil, um dos mais significativos prêmios do mundo do cinema, a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, na França, com o seu filme, O Pagador de Promessas.

O Brasil já vinha de uma ressaca efusiva de alegria, justamente pela conquista, pela segunda vez consecutiva, da Taça Jules Rimet, a segunda Copa do Mundo, vencendo a temida seleção da Tchecoslováquia em Santiago, Chile, por 3×1. E os santistas tinham motivos de sobra para festejar até não poder mais, uma vez que a base dos “canarinhos” era o alvinegro praiano, que emprestou nada menos do que sete atletas ao selecionado nacional: Gilmar, Mauro, Zito, Pepe, Mengálvio, Coutinho e o Rei Pelé. Mas, naquele dia, a festa era pela sétima arte. O Pagador de Promessas, que estreara nas telonas em abril, fora o filme escolhido pela Comissão de Seleção do Itamaraty para representar o Brasil no badalado festival francês, ganhando a indicação na disputa contra o filme “Os Cafajestes”, de Ruy Guerra.

O diretor do filme “O Pagador de Promessas”, Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é abraçado pelo povo santista, que teve o privilégio de recepciona-lo.

Anselmo fora carregado em triunfo ao desembarcar do navio Augustus, levado nos ombros do povo santista, que bradava seu nome como se fosse uma campanha política. Muitos dos passageiros do transatlântico italiano (Gênova), não conseguiam acreditar no que viam. Afinal, aquele rapaz alto, moreno, que passeava pelo convés carregando a tiracolo uma máquina fotográfica, não era um turista comum. Era um astro, e do cinema. Centenas de pessoas empunham faixas, cartazes, em alusão à grande vitória brasileira no festival que, na época, era ainda mais prestigiado do que o Oscar norte americano. Até uma banda, a do 6º Batalhão da Polícia da Força Pública estava lá para a recepção de honra.

A imprensa brasileira em peso fora para Santos e reputou em manchetes que a homenagem santista era tida como “a maior até então tributada a qualquer artista brasileiro”. Sim, aquele era um fato inédito e inesquecível. Anselmo, por todo percurso, levantava a Palma de Ouro sobre a cabeça, repetindo o triunfal gesto que o capitão Mauro Ramos de Oliveira protagonizara no Chile, dias antes, com a Jules Rimet.

Em cima da viatura dos bombeiros, se juntaram ao diretor alguns dos atores do filme, como Glória Menezes, Leonardo Vilar e Dionísio Azevedo, além do autor da obra que deu origem ao filme, Dias Gomes (que embarcara durante a escala no Rio de Janeiro) e o produtor Osvaldo Massaini. Destarte, conta a história que Anselmo Duarte teve um certo trabalho para convencer o dramaturgo Dias Gomes para adaptar sua peça de teatro às telas do cinema. Conseguiu e se deu bem. Ambos se deram bem, até porque no ano seguinte, o Pagador de Promessas conseguiria uma indicação ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro ao Oscar.

A festa santista

Ainda em Santos, Anselmo e seus companheiros percorreram, sob aplausos e foguetes, as principais ruas do Centro de Santos. Eram festejados como heróis nacionais. Com a face vermelha e os olhos brilhantes, o diretor brasileiro era a felicidade em pessoa. Cercado pelo repórteres, ele diria: “Uma vez me perguntaram onde os brasileiros encontraram reservas de vergonha para suportar as vaias do público, quando se apresentavam em festivais de cinema desta categoria. A reposta está aí!”.

No alto do caminhão dos bombeiros, Duarte repete o gesto do capitão Mauro durante o regresso da seleção brasileira vencedora da Copa do Chile de 1962. O Brasil era manchete mundial duas vezes em menos de três semanas.

O comboio passou pela porta do Jornal A Tribuna, onde foi recepcionado pelo jornalista Olao Rodrigues. Representando a imprensa santista, ele entregou uma placa ao diretor contendo uma homenagem a Duarte.

O Pagador de Promessas estava longe de ser o favorito em Cannes. Havia concorrentes de peso entre franceses, italianos e espanhóis. Porém, um a um, iam caindo diante do júri, que não enxergava na maior parte das fita a centelha da novidade, do inusitado. Eles procuravam nas películas o tal elemento primordial exigido em um festival de cinema. Já no terceiro dia de exibições, Anselmo percebeu que reunia chances de vencer, e venceu, para a ira dos italianos, que reputavam o filme “Divorzio All’Italiana”, uma fita imbatível. Mas essa era uma visão apenas deles, porque os críticos foram duros com o filme, dizendo se tratar de “o maior fracasso coletivo da história do cinema”. A fita italiana fora dirigida por cinco diretores consagrados, em episódios.  O brasileiro, por sua vez, que não tinha nada a ver com o problema dos outros, enfim levou para a casa a cobiçada Palma de Ouro que, naquele 4 de julho, desfilava ao sabor do sol na terra santista, diante de uma população ciente do tamanho da conquista da sétima arte verde e amarela.

Anselmo e seus amigos estavam muito felizes. Ao longo do percurso entre o cais e prédio da Prefeitura, onde todos seriam recebidos pelo então prefeito José Gomes, por diversas vezes o diretor de O Pagador de Promessas mandava interromper o desfile para cumprimentar algum amigo conhecido no meio da multidão. Foi assim quando avistou, por exemplo, o também cineasta Lima Barreto, a quem fez questão de descer do carro e lhe dar um forte abraço. Muitos parentes de Anselmo Duarte também se fizeram presentes, vindo da cidade de Salto apenas para a recepção do famoso membro da família.

Anselmo Duarte recebe os cumprimentos do prefeito de Santos, José Gomes, ao lado de parte de seu elenco e atores amigos, como John Herbert (ao centro), além  do autor da história, o dramaturgo Dias Gomes.

Antes mesmo de ser homenageado pelo prefeito nas escadarias do Paço Municipal, o diretor brasileiro ainda disparava: “Os italianos não se conformam com a minha vitória em Cannes. Mas “O Pagador de Promessas” era um filme original e por isto venceu. Os diretores brasileiros precisam saber que não adianta copiar Antonioni ou Fellini para obter sucesso. Estou contente porque o júri do Festival não conseguiu definir o meu filme. Situaram-no na Escola clássica, na épica, no neo-realismo e até na “nouvelle vague”. Finalmente, acabaram falando no “filme do Brasil”. Era isso o que eu queria e isso foi o que mais me orgulhou. Nosso país caminha, hoje, para um verdadeiro amadurecimento artístico. Ainda mostraremos ao mundo muitos filmes de valor”.

 

Almoço em restaurante santista

Após o recebimento de todas as homenagens, onde participaram também os deputados Athiê Jorge Coury, Abreu Sodré, o vereador Esmeraldo Tarquínio e o líder sindical Osvaldo Lourenço, Anselmo Duarte e seus companheiros de filme rumaram em caravana até o aprazível bairro do Gonzaga, onde almoçaram no Restaurante Hi-Fi, na avenida Floriano Peixoto, 50. No local, uma enorme massa popular aguardava os heróis do cinema nacional. Com bastante dificuldade o diretor de O Pagador de Promessas, elenco, produtores, amigos, autoridades locais e convidados, chegaram ao interior do badalado restaurante santista, para desfrutar do almoço. Às 15 horas, finalmente, depois de muito agradecer a calorosa recepção, Anselmo Duarte e seus acompanhantes rumaram para São Paulo, onde seriam recebidos pelo governador do Estado, Carvalho Pinto, além de desfilarem por algumas da principais vias da capital bandeirante.

A passagem histórica do primeiro vencedor brasileiro de um grande festival de cinema, assim, nunca mais foi esquecida. A passagem pela terra santista foi justa, para uma cidade que tem uma longa lista de marcas com a história do cinema no Brasil.

A cidade praticamente parou naquela manhã de quarta-feira. Não foi um dia comum para os santistas, que lotaram as ruas do Centro para festejar o regresso dos heróis de Cannes.

Anselmo não cabia em si de tanta alegria pela recepção santista.

Depois da festa no Centro, todos foram confraternizar em um almoço preparado no Restaurante Hi-Fi, no Gonzaga. Na foto se vê o ator John Herbert (amigo do diretor) e sua então esposa, a atriz Eva Wilma (sentada). Ambos não faziam parte do elenco do filme, mas foram prestigiar a chegada de Anselmo Duarte.