Elias Bakhos e a incrível história do Restaurante Beduíno

Imigrado da Síria com os pais no final da década de 1940, o comerciante construiu uma identidade única na cidade de Santos

Santos, 24 de março de 1961. A cidade santista estava agitadíssima por conta das eleições municipais, cujo pleito iria ocorrer no dia 26. Os candidatos Athiê Jorge Coury, Luís La Scala, Mário Covas e Antônio Feliciano, disputavam acirradamente a atenção do eleitorado, visando conquistar a cadeira de prefeito municipal. Distante desta disputa, o jovem imigrante sírio Elias Bakhos, de 21 anos, tomava a decisão de abrir um negócio de comida típica de sua terra, algo que ainda não existia em Santos, apesar da cidade abrigar alguns de seus compatriotas sírios, libaneses e outros representantes dos povos do Oriente Médio. Essa massa de imigrantes árabes começou a desembarcar na terra santense a partir de 1884, pelo porto, incentivados pelo então imperador brasileiro, D. Pedro II, e aqui faziam seus pratos típicos apenas para consumo próprio. O jovem Elias, então, decidiu ousar e testar o paladar do santista, oferecendo a eles a oportunidade de experimentarem as delícias da culinária árabe.

A família Bakhos a caminho do Brasil. Elias é o primeiro garoto à esquerda, embaixo do pai, Hnein (João). 

Elias pertencia a uma geração de refugiados sírios que migraram para a América do Sul por conta dos conflitos armados que começaram a se desenhar no Oriente Médio alguns anos depois do fim da Segunda Grande Guerra, principalmente após a criação do Estado de Israel (em 1948, pela ONU). Cansados e assustados perante a situação terrível que se consolidava em seu belo país, os Bakhos resolveram reconstruir a vida, em 1947, no distante país sul-americano e tropical. Viajando com os pais, Hnein (aportuguesado para João) e Alice, quatro irmãos e um primo, ele deixou Damasco, capital de sua terra natal, quando contava com apenas seis anos de idade. O primeiro destino da família foi a França, embora fosse um asilo provisório. Alguns dias depois, eles tornaram a embarcar, desta vez num cargueiro (o Formose Paquebot, de bandeira francesa) com destino ao Brasil (se acomodando em cabines da tripulação). Foi uma viagem longa, de 54 dias, atravessando o Oceano Atlântico, em condições bem difíceis. Na cidade paulista de Santos, a família reencontrou alguns parentes (irmãos de João, portanto, tios de Elias), que ficaram felizes em os acolher e oferecer as primeiras oportunidades no novo lar. Era tudo o que os Bakhos precisavam para dar a volta por cima.

É claro que os primeiros anos de Brasil não foram fáceis. Um clima diferente, uma língua difícil de aprender e costumes bem distintos, principalmente culturais e políticos. Mas Elias e seus irmãos se esforçavam e se adaptaram rapidamente. Era preciso. Afinal, as oportunidades, ainda mais numa espécie de segunda chance, eram desafiadoras naquele país repleto de cidadãos de todos os cantos do mundo.

A Pensão Vitória, na Carlos Affonseca, 3. Comprada pelo irmão de João, foi o primeiro negócio da família em sua nova moradia. Ali, eles iniciaram uma trajetória no ramo da gastronomia árabe, vendendo quibes e esfihas para compatriotas da região e da capital.

Um dos tios de Elias, José, havia comprado, naquele ano de 1947, uma pensão situada na Rua Carlos Affonseca, 3 (Pensão Vitória), onde empregou João como gerente. Sua função era administrar o lugar, embora também acabasse fazendo as vezes de garçom e cozinheiro, enquanto a esposa, Alice, lidava como arrumadeira e lavadeira. Elias, que era o mais velho dos filhos, ajudava varrendo o quintal. Com o passar do tempo, e juntando dinheiro, João acabou comprando de seu irmão o estabelecimento e implementou um serviço de venda, por encomendas, de quitutes árabes, quibes e esfihas. O sucesso atraiu membros da colônia árabe da capital, que procuravam a pensão santista para se sentirem um pouco em casa, a terra natal.

Em 1956, os Bakhos recebiam a notícia de que os proprietários do imóvel pretendiam vende-lo (eles eram donos apenas do ponto), para ser demolida e dar lugar a um prédio de apartamentos residenciais. João ficou desnorteado e não sabia o que fazer. Porém, o acaso lhe estendeu as mãos. A pensão havia conquistado muitos clientes fiéis com seus produtos únicos. Entre eles, um homem chamado João Domingos, que era proprietário do Hotel Bongiovanni, situado na avenida Presidente Wilson, 58. Apreciador do trabalho e da garra de João Bakhos, ele ofereceu ao imigrante o seu estabelecimento hoteleiro, uma vez que pretendia se aposentar. O negócio era atrativo, e Domingos não tinha a menor pressa para receber pela venda do hotel. O sírio poderia pagar-lhe de acordo com o movimento, já que o velho hoteleiro não tinha filhos ou quaisquer outros herdeiros, e dizia ter o suficiente para viver bem.

Diante da situação, João saia do “Fusquinha para o Cadillac”. O hotel Bongiovanni era muito maior que a Pensão Vitória. Tinha 46 quartos, cinco garçons, quatro arrumadeiras, cozinha com sete homens trabalhando, enfim, uma equipe com mais de 30 funcionários. Era de fato, um grande desafio, mas João encarou-o de peito aberto. E a vida de todos melhorou.

Do “Fusquinha ao Cadillac”. Assumir um estabelecimento hoteleiro muitas vezes maior que a Pensão Vitória se tornou um desafio e tanto para João, a esposa e os filhos. Mas eles venceram.

No início dos anos 1960, o jovem Elias, depois de ter estudado em São Paulo, onde tentou cursar engenharia na Poli-USP, percebeu que era preciso “cortar o cordão umbilical” em relação ao pai e decidiu abrir um negócio próprio, dentro do ramo da gastronomia que a família dominava, o que era algo inédito na cidade. Santos ainda não tinha um restaurante ofertando um menu do tipo. Assim, ele encontrou um ponto não muito longe do Hotel Bongiovanni (apenas 50 metros de distância – na Avenida Presidente Wilson, 48) e lá instalou o primeiro Lanches Beduíno, inaugurado em 24 de março de 1961. O endereço era nobre, defronte à orla do mar, entre o Gonzaga e o José Menino. O jornal A Tribuna, edição de 23 de março, anunciava numa pequena nota situada na página 3: “LANCHES BEDUÍNO LTDA. – Lanches Beduíno Ltda. fará realizar amanhã, às 17 horas, a solenidade de inauguração de seu estabelecimento à avenida Presidente Wilson, 48, quando servirá aos amigos e demais convidados um coquetel”. No início a casa só funcionava aos finais de semana e se chovesse, não funcionava.

Em março de 1961, João Bakhos (de terno escuro) promove uma festa para os amigos em comemoração à inauguração do primeiro estabelecimento de seu filho, Elias. Nascia ali, o primeiro Beduíno.

Poucos anos depois, Elias vendia o Beduíno e, com a parceria do irmão, Abdalla, comprava um tradicional restaurante situado na situado na rua Amador Bueno, entre as ruas Vasconcelos Tavares e Frei Gaspar. Era o Kash Kash, estabelecimento de dois pavimentos, com lanchonete no térreo e restaurante no andar de cima. Durante o tempo neste estabelecimento, Elias cursou Direito na Faculdade Católica de Santos, onde se formou em 1966. Mas sua vida seria consolidada no mundo do comércio de comida. Alguns anos depois, ele perderia o sócio e irmão, que desenvolveu “Linfoma de Hodgkin” (Câncer Linfático).

O Beirute

Uma das novidades que Elias levou para o Kash Kash, e para Santos, foi o Beirute, um sanduiche brasileiro criado por imigrantes sírios em São Paulo nos anos 1950. Feito com pão sírio, o recheio variava entre queijo, queijo e presunto, queijo e rosbife, com ou sem salada e tomate. Era uma refeição rápida e nutritiva, que caiu no gosto do clientela. Elias introduziu algumas novidades, utilizando a kafta nos ingredientes (Este é hoje o carro chefe do Beduíno, servido com fritas). O sucesso foi garantido!

Aspectos internos do Restaurante Kash Kash, que se tornou uma referência de comida árabe em Santos. Diversos eventos da cidade, quando realizavam eventos temáticos à cultura síria, libanesa e outras, chamavam o estabelecimento para providenciar o buffer. Elias, no alto, conheceu sua esposa neste local.

Foi na Kash Kash que Elias conheceu sua esposa, Miriam, que também era advogada e trabalhava num escritório vizinho do restaurante. Depois de casados, ela deixou a profissão para embarcar no projeto do marido.

O resgate do Beduíno

Em 1972, Elias decidiu voltar para os lados da orla e pediu ao pai que cedesse um imóvel de sua propriedade situado na avenida Floriano Peixoto, 78. João estava aborrecido porque havia tomado calote de aluguéis dos três últimos inquilinos e resolvera, então, vender o ponto. O filho pediu e o pai assentiu, desde que tomasse conta pessoalmente do negócio. Elias não titubeou e ali montou novamente o Lanches Beduíno, resgatando o nome que havia perdido quando da venda do ponto da Avenida Presidente Wilson, 48. Ocorre que o comerciante que havia comprado a lanchonete da praia, Nagib Miguel Cury, trocara o ponto de nome, em 1971, que passou a se chamar “Bar Bebum”. O estabelecimento se autodenominava a “Maior Casa de Batidas da América do Sul” (Pioneira em Santos). Elias conversou com Nagib para obter autorização a fim de resgatar o antigo nome, e desta forma se sucedeu.

Loja da Avenida Floriano Peixoto, 78, nos anos 1980. Imóvel que pertencia ao pai ia ser vendido, mas acabou sendo aproveitado por Elias, que ressuscitou o Beduíno. Era o início da expansão dos negócios da família.

Assim, ainda em 1972, renascia novamente o Beduíno, iniciando sua trajetória de expansão. Dois anos depois, Elias recebeu uma proposta para a compra de uma loja que estava à venda na avenida Ana Costa, 466. Ele visitou e aprovou o espaço e lá montou o Beduíno II.

Em 1978, Elias percebeu que havia muita diferença nos sabores dos pratos entre as suas duas unidades de atendimento. Um quibe ou uma esfiha comprada no Beduíno da Floriano Peixoto eram diferentes dos mesmos quitutes comprados no Beduíno da Ana Costa. Assim, ele decidiu abrir uma “central de cozinha” e, para isso, alugou um espaço na Avenida Presidente Wilson, 188, no José Menino. Aquela unidade funcionou por lá até 1999, mudando-se posteriormente para a Rua Particular Aliança, no Gonzaga (onde está até hoje)

No shopping

Em 1989, alguns meses depois da inauguração do Shopping Miramar, Elias decidiu adquirir uma das lojas da Praça de Alimentação e ali montou mais um Beduíno, o terceiro. De forma definitiva, a empresa se consolidava no segmento da culinária árabe em Santos, ganhando destaque em jornais e revistas. O Parque Balneário também ganhou uma unidade, mas isso em 2015, se tornando a quarta unidade. Recentemente, em 2020, a unidade do Miramar foi fechada.

Hoje o Beduíno é tocado pela segunda geração, pelos filhos de Elias: Paulo, Vivian e Lilian. Os netos começam a surgir e já participam, de alguma forma, do dia a dia da operação dos negócios, principalmente nas redes sociais, um ambiente muito diferente daquele que o jovem Elias vivia em março de 1961.

A chegada da família Bakhos ao Brasil, em junho de 1947. Sem dominarem o idioma e sem terem a vivência sobre a cultura do novo lar, o desafio estava lançado para Hnein e Alice. O pequeno Elias (o mais velho entre as crianças) faria sua parte e construiria sua história no Brasil.

No Kash Kash, final dos anos 1960. Culinária árabe tinha endereço em Santos e Elias era o comandante do negócio. Foi ele quem introduziu o famoso Beirute na rotina gastronômica da cidade.

 

Unidade Ana Costa em 2011 e 2020.

Unidade Parque Balneário, inaugurada em 2015.

Unidade no José Menino contava com a cozinha central. Foto dos anos 1980.