Flamma, a revista representativa da sociedade santista

Criada há 100 anos, ela circulou por quatro décadas e meia depositando em suas páginas as transformações e o cotidiano de Santos e região, bem como a produção intelectual de grandes nomes.
Santos, 1921. Há exatos 100 anos, a cidade vivia um período de plena ebulição, desenvolvendo-se de maneira avassaladora, impulsionada, principalmente, pelas riquezas provenientes das exportações de café. Enfim, havia definitivamente virado a página em relação ao seu passado colonial, aos seus problemas sanitários e à falta de estrutura portuária. Os santistas, assim, testemunhavam uma verdadeira metamorfose, por todos os cantos, fosse no coração da urbe original ou em seus arrabaldes, com destaque para os lados da orla praiana. Neste cenário, as atividades comerciais giravam a todo vapor e a vida social era plena, principalmente nos clubes.
 
Acompanhando essa revolução positiva, a imprensa também procurava se transformar a fim de atender a contento os anseios de uma sociedade cada vez mais exigente em relação à difusão das suas ações. Os jornais eram, notadamente, o meio mais popular, porém não atendiam certos pontos de exigência, em função da qualidade do papel e do seu ritmo de produção e edição.  O que se clamava, então, era pela criação de revistas ilustradas, que vinham ganhando cada vez mais espaço no país, em especial nas capitais. Santos bem que tivera suas experiências, embora curtas, neste segmento. O precursor fora a Santos Ilustrado, lançada em 1903, mas que não avançara além do primeiro número, situação que acabou copiada pelas revistas “A Pena” (1909) e “A Bruxa (1910). Somente em 1911 é que os santenses puderam, enfim, “bater no peito” e dizer que publicavam uma revista ilustrada que em nada devia às que circulavam nas capitais. Esta era “A Fita”, lançada pelos jornalistas Bento de Andrade e Manoel Pompílio dos Santos. A gana por ter um veículo de imprensa de tal natureza era tão grande que sua publicidade externava que o “intento da revista era espancar a monotonia atrofiante da cidade”.
 
De fato, o novo órgão de imprensa causou grandes alardes não só em Santos, como no resto do país. “A Fita” chegou até a “furar” as grandes revistas nacionais, publicando uma reportagem exclusiva sobre o primeiro voo de um brasileiro, Edu Chaves, pelos céus do Brasil, em 8 de março de 1912. Editada semanalmente, ela, enfim, introduzia na cidade tudo o que havia de mais badalado neste segmento, mantendo inclusive seções em que os leitores podiam colaborar. No entanto, mais uma vez, os santistas não conseguiram usufruir do privilégio de possuírem seu magazine local por muito tempo. Em 1914, Bento e Manoel Pompílio decidiram fechar as portas, já que as contas não fechavam.
 
Alguns outros empresários tentaram “tapar o buraco aberto” pela ausência de “A Fita”, mas, até 1921, nenhum obtivera êxito na empreitada. Ensaiaram essa tentativa os periódicos “O Riso” (1914), “Miramar” (1916), “O Pimpão” (1919) e “A Nota” (1919). Mas todos sucumbiram ainda na tenra infância. Porém, em meio à ebulição desenvolvimentista da cidade santista, eis que surgia finalmente, em fevereiro de 1921, o magazine que viria a construir uma história à altura das tradições da imprensa local. E ele não poderia ter melhor nome, já que nascera com o propósito de acender a chama da sociedade. Era criada, assim, pelas mãos de Norberto Paiva Magalhães, a revista “Flamma”.
 
Foram 45 anos (1921-1966) de intensa circulação, semanal, cobrindo os principais eventos e acontecimentos esportivos, culturais, políticos e sociais da cidade de Santos e região, sempre recheando suas páginas com muitas imagens, artigos, poesias, crônicas e informações. Sem contar de, obviamente, anúncios, de todos os setores do comércio varejista. A revista, inclusive, fora a responsável pela introdução, neste meio, do “Painel Profissional”, onde eram publicados pequenos reclames, quase na forma de cartão de visitas, dos mais diversos profissionais liberais que atuavam na cidade. E isso funcionava muito bem.

Capas da Flamma nos anos 1920, 1930, 1940 e 1950.

 
A revista “Flamma”, que em maio de 1941 passou a se chamar “Flama” (tirando uma das letras “m”), rivalizava, a exemplo da “A Fita”, com suas concorrentes de fora. Grandes nomes do jornalismo e da política santista, além de poetas e escritores, eram colaboradores do órgão, tais como Martins Fontes, Afonso Schmidt, Lincoln Feliciano, Emília de Freitas Guimarães, João Freitas Guimarães, Antônio Passos Sobrinho, Ibrantina Cardona, Stockler de Lima, Mariano Gomes, Itacy de Souza Teles, Agenor Silveira, Guilherme de Almeida, Durwal Ferreira, Roldão Mendes Rosa, Rui Ribeiro Couto, Oacy Rodrigues (caricaturista), Rosinha Mastrângelo, Francisco de Marcchi, Francisco Martins dos Santos, entre outras “feras” da cidade.
A Flamma, assim, caminhava lado a lado com a sociedade, cobrindo as formaturas de final de ano dos colégios tradicionais, os bailes de carnaval, que ganhavam destaque em suas páginas, além dos acontecimentos marcantes da política, do desenvolvimento e da esportividade santense. Uma curiosidade na linha do tempo da revista foi ter lançado, logo quando começou suas atividades, o primeiro concurso de beleza feminina da história santista, vencido por Maria José Leone, em 1992. Pela conquista, ela alcançou o direito de representar a cidade no primeiro concurso nacional de beleza, por ela também vencido no ano seguinte. Zezé Leone é considerada a precursora das misses, ganhando o título de “Sua Majestade, a Mais Bela” mulher do Brasil. Graças à Flamma, e obviamente à sua beleza peculiar.
 
A vida da Flamma não foi fácil em vários momentos, mas o ápice das dificuldades veio nos anos 1960. O clima político instalado no país e o fato de Santos ter sofrido com a perda de sua autonomia, balançando sobremaneira o meio comercial da cidade, fez com que a revista não resistisse à crise, fechando definitivamente suas portas em 1966. 
 
Flamma foi, assim, um repositório importante de quatro décadas e meia de fatos, curiosidades e da produção intelectual de grandes personalidades de Santos. Hoje, todo o acervo possível (até porque muita coisa se perdeu) foi digitalizado e está disponível para consulta na Hemeroteca Digital Brasileira, da Fundação Biblioteca Nacional, graças ao trabalho executado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santos que, em 2019, providenciou a digitalização de mais de 50 mil páginas de jornais e de revistas como a Flamma e A Fita. 

Algumas capas dos anos 1920