A visita do presidente Eurico Gaspar Dutra a Santos (1949)

O presidente Dutra ao lado do governador Ademar de Barros e de vários acompanhantes chegam ao cais do Sabor, em Santos (fotos de Henri Ballot).

Santos, 15 de outubro de 1949. Eram cerca de 8h30 da manhã de um sábado com bom tempo na cidade de Santos. A expectativa em torno da primeira visita do então presidente da República, o general Eurico Gaspar Dutra, era grande em toda a região. E não era para menos, uma vez que o presidente militar, eleito em 2 de dezembro de 1945, com mais de 3,3 milhões de votos, já governava o país desde janeiro de 1946, e não havia privilegiado a região da Baixada Santista com sua presença.

A chegada do presidente seria pela Base Aérea de Bocaina. A aeronave presidencial, “Lockheed L-18 Lodestar FAB VC 66” pousou na hora programada trazendo, além de Dutra, uma pequena comitiva, composta pelos ministros da Justiça. Adroaldo Mesquita da Costa; do Trabalho, Indústria e Comércio, professor Honório Monteiro; e da Viação e Obras Públicas, Clóvis Pestana, além do presidente do Conselho Consultivo das Caixas Econômicas Federais, Raul Miranda Jordão e do secretário da presidência da República, professor Pereira Lira.

Logo após o desembarque, Dutra foi recepcionado pelo governador do Estado de São Paulo, Adhemar de Barros, que havia também chegado de avião naquele mesmo campo de pouso um pouco antes. Ao seu lado estavam o então prefeito de Santos, Rubens Ferreira Martins; o prefeito de São Paulo, o tenente-coronel Asdrúbal da Cunha; o comandante da Segunda Região Militar (2ª RM), general Henrique Batista Duffles Teixeira Lott; o subcomandante da Segunda Região Militar (2ª RM), general Azambuja Brilhante; o comandante de artilharia da Segunda Região Militar (2ª RM), general Honarato Pradel; o comandante do Destacamento Misto de Santos, coronel Milton de Sousa Daemon; o secretário de Justiça do Estado de São Paulo, César Lacerda de Vergueiro; o comandante da Base Aérea de Bocaina, capitão José Leite; o secretário do Trabalho do Estado de São Paulo, José João Abdala; o agente do Lloyd Brasileiro, coronel Laurentino Lopes Bonorino; o inspetor chefe da Polícia Marítima e Aérea, José Joaquim da Cruz Sêco; o representante do SESI (Serviço Social da Indústria) na cidade de Santos, José Aflalo Filho; o presidente da Associação Comercial de Santos, Alceu Martins Pereira, que estava acompanhado dos diretores Álvaro Augusto Vidigal, Homero Leonel Vieira, Geraldo Meira e Augusto Peixoto.

a) Dutra chega na Base Aérea de Santos com o avião presidencial, sendo recepcionado pelo governador Ademar de Barros e pelo prefeito Rubens Ferreira Martins; b) O presidente passa em revista as tropas federais lotadas nos batalhões de Santos; c) Dutra e Barros seguem de carro para o cais do Saboó, para um evento de inauguração daquele trecho do porto.

No Cais do Saboó

Em lanchas especiais, postas à disposição dos visitantes e acompanhantes, fez-se o trajeto entre a Base Aérea e o Cais do Valongo, onde grande número de autoridades e pessoas de destaque aguardavam. Entre eles, o presidente da Companhia Docas de Santos, Guilherme Guinle; o diretor da empresa, Ismael Coelho de Souza e diversos funcionários do alto escalão do porto. Também lá estavam o bispo auxiliar de São Paulo, padre Enzo Gusso, representando o cardeal d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota; o coronel Cicero Bueno Brandão, comandante do 6º Batalhão de Caçadores; o delegado de polícia, Miguel Texeira Pinto; o prefeito de São Vicente, José Monteiro; o prefeito de Cubatão, Francisco Cunha; o vice-presidente da Câmara Municipal de Santos, Luiz La Scala; o bispo diocesano de Santos, D. Idilio José Soares; entre outros.

O presidente da República foi saudado pelo povo que se aglomerou nas cercanias do Cais do Valongo, onde Dutra desembarcou. Durante o trajeto, diversos navios promoveram um “apitaço”, saudando a visita ilustre. Logo após pisar em terra firme, no lado santista, o presidente passou em revista as tropas federais lotadas nos batalhões de Santos e São Vicente. Na sequência realizou-se uma cerimônia para a assinatura de um convênio de tráfego mútuo entre a Lloyd Brasileiro e a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí.

A seguir, o dr. Guilherme Guinle, presidente da Cia Docas, discursou pondo em destaque os melhoramentos realizados no Porto de Santos e as vantagens que o país teria como aquele acordo logístico. O presidente também inaugurou o novo trecho do Cais do Saboó.

Guilherme Guinle (de terno claro), presidente da Cia Docas, explica ao presidente as melhorias e modernidades do novo Cais do Sabor.

Bolsa do Café e Associação Comercial

Após o fim das cerimônias no porto, a comitiva presidencial rumou na direção da Bolsa Oficial de Café, onde o presidente foi recebido pelo presidente da entidade, Heitor Muniz, além de todos os corretores de café da cidade e dos funcionários da Bolsa. Dutra teve a oportunidade de assistir o pregão habitual de sábado, e ficou bastante interessado com a dinâmica. O presidente, em seguida, recebeu de presente um memorial das Bolsas Oficiais de Valores de São Paulo e Santos.

Deixando a Bolsa de Café, o presidente e sua comitiva foram visitar a tradicional Associação Comercial de Santos, entidade fundada em 1870, e que é reconhecida por ter recebido todos os chefes da nação que estiveram de passagem por Santos desde o Imperador D. Pedro II. Na Sala de Reuniões da diretoria, Dutra foi recebido por Alceu Ferreira, que pronunciou algumas palavras de satisfação pela honrosa visita à entidade central da Praça Cafeeira. O presidente deixou sua assinatura no famoso Livro de Ouro e rumou para o Salão Nobre da entidade, onde foi saudado por representantes de sindicatos trabalhistas e por diretores de instituições de assistência social.

Em nome dos trabalhadores de Santos, falou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Administração do Comércio do Café, Ricardo Peres. Logo depois, a senhorita Helena de Oliveira Pinto, a “Rainha do Café”, em nome da mulher paulista, fez um discurso acerca do trabalho bandeirante e da significação da vinda do presidente da República à cidade de Santos.

O ministro do Trabalho, Honório Monteiro, agradeceu em nome do presidente, pela manifestação de simpatia por parte dos trabalhadores e comerciantes santistas. Disse que os operários representavam rigorosamente o espírito do povo trabalhador santista, e citou o exemplo de grandes vultos do passado da cidade, como os Andradas, os Gusmões, Martins Fontes e Vicente de Carvalho.

O presidente é recepcionado na Associação Comercial de Santos, onde profere discurso sobre as questões relacionadas ao comércio de café. Dutra também registra seu nome no famoso Livro de Ouro da Instituição, aberto em 1875 pelo Imperador D. Pedro II.

Inaugurações

A cerimônia seguinte foi a inauguração do Ambulatório Médico da CAP de Serviços Públicos. Dutra foi recepcionado pelo presidente da entidade, major Carlos Albuquerque Galvão Vasques, que proferiu discursos elogiosos ao presidente. Depois foi a vez do restaurante dos trabalhadores do Porto de Santos, uma promessa feita pelo governo federal alguns anos antes. A comitiva passou então, de carro, pelas principais ruas do Centro, sendo o presidente aclamado pela população que lotava todo o percurso até o bairro do Macuco, onde aconteceu a entrega oficial de um núcleo composto por 536 residências construídas pela Fundação da Casa Popular. Dutra foi encaminhado até o prédio que abrigaria o Grupo Escolar, onde foi oferecida uma taça de champagne.

Logo depois, foram todos para a estação da Estrada de Ferro Sorocabana, à avenida Ana Costa, onde presidiu a inauguração do carro dessa estrada, transformado e adaptado em ambulatório médico e posto de puericultura, o qual iria percorrer a linha Santos-Juquiá, prestando assistência médica aos moradores da região. Após esta cerimônia, o governador Ademar de Barros se despediu do presidente, por ter que seguir com urgência para a capital paulista, deixando como representante do Estado os secretários da Justiça, Cesar Lacerda de Vergueiro e do Trabalho, João José Abdala.

Na Santa Casa

Na sequência, o presidente rumou para a Santa Casa de Misericórdia, onde foi recepcionado pelo provedor Hugo Santos Silva e pelo presidente do Conselho Geral da Irmandade, Dr. Cyro de Athayde Carneiro (prefeito de Santos entre 1983 e 1941), que proferiu uma eloquente palestra sobre a história do hospital mais antigo da América. Dutra afirmou que por conta do vasto programa de assistência social que a instituição desenvolvia, aliado à sua obra de benemerência e caridade cristã através dos séculos, não poderia visitar a cidade de Santos sem passar pela Santa Casa, fundada por Braz Cubas em 1541. Após a reunião com os membros da Santa Casa, Dutra dirigiu-se para a capela do hospital, a fim de rezar uma Ave Maria em intenção dos doentes internados no local.

No Parque Balneário

Como em toda grande visita ilustre ocorrida em Santos, o Hotel Parque Balneário, maior estabelecimento do ramo na América do Sul, foi responsável por oferecer um banquete ao convidado, custeado pela Associação Comercial de Santos. Mais de 400 pessoas participaram do evento, incluindo toda a comitiva presidencial, os representantes do governador Ademar de Barros, as autoridades de Santos e região e pessoas de todos os setores do comércio e serviços.

Dutra discursa durante cerimônia no Parque Balneário, exaltando os paulistas e, sobretudo, o povo de Santos.

Na ocasião, o presidente proferiu um longo discurso, falando sobre a felicidade de estar visitando o laborioso Estado de São Paulo. Sobre Santos, ele pontuou:

“Os nossos ancestrais vieram, para epopeia do povoamento, pelos caminhos do mar. A comunidade Piratininga teve, assim, o destino singular da penetração e das bandeiras, afastando o meridiano de Tordesilhas e concorrendo para formação do que o maior dos vossos filhos – José Bonifácio – chamou de terra fadada a sede de um grande e vasto Império. O bandeirante deu o molde da estátua do homem do Planalto: voltado para o poente, de costas para o Atlântico. Coube, porém, à cidade de Santos, entre outros serviços com que concorre para a nossa grandeza, o de representar, em nossa história econômica, o papel de entreposto principal do fruto do nosso trabalho, servindo a sua posição insular de medianeira entre a produção do interior e os mercados de ultramar. A vocação marítima desta gleba complementa o determinismo sertanista dos semeadores de cidades e desbravadores do território da Pátria…. A cidade de Brás Cubas é hoje o empório por excelência das nossas forças econômicas e se projeta para os quatro cantos do mundo, onde leva o nosso esforço, o nosso idioma e a nossa bandeira”.

Dutra continuou sua fala abordando sobre as inaugurações ocorridas no seu compromisso na cidade, assim como sobre o papel do café na economia nacional e a importância da Praça Comercial de Santos neste contexto, bem como a liderança exercida pela Associação Comercial neste mercado.

Ao final do discurso, o presidente saudou a cidade santista com um brinde especial:

“O sadio otimismo construtivo que satura a gente de Piratininga é um clima de cura, por excelência, para quaisquer contágios de pessimismo dos que vivem a lamentar a terra de usufruem, e a descrever dos homens que a trabalham, na ânsia demagógica de destruir o que não ajudaram a construir. Com orgulho de brasileiro e como chefe da Nação, brindo à infatigável gente da cidade de Santos e ao povo laborioso de São Paulo.” 

Regresso

Após o evento do Parque Balneário, Dutra e sua comitiva se despediram de todos os anfitriões e convidados, muitos vindos da capital, e partiram de retorno à Base Aérea de Santos, onde tomou o avião presidencial às 17h30, regressando para a capital federal, o Rio de Janeiro.

Esta foi a primeira e única visita do presidente Dutra à cidade de Santos.

Trabalhadores do porto saudam o presidente, que assinou um convênio de tráfego mútuo entre a Lloyd Brasileiro e a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí.

O Parque Balneário tradicionalmente era o espaço oficial para os grandes eventos e recepções de figuras ilustres. Dutra teve uma grande acolhida quando esteve em Santos.