Um crime que chocou Santos: O Assassinato de Mathias Costa

Patrono da Vila Mathias era esposo de Dona Anna Costa, que deu nome a uma das principais avenidas de Santos.

Era uma quarta-feira, 8 de maio de 1889. Como de costume, o cidadão português, radicado em Santos, Mathias Casimiro Alberto da Costa, saiu bem cedo de casa para vistoriar as obras de abertura da avenida que viria a lhe garantir a implantação do tão sonhado serviço de transporte de passageiros e cargas em bondes até a praia da Barra, cujo ponto final se situaria defronte ao bar do amigo e conterrâneo Antônio Gonzaga, famoso comerciante daquela localidade praiana.

Ao inspecionar o trabalho de remoção de terra na nova via, Mathias notou a aproximação de dois velhos desafetos, os irmãos Olívio e Antônio Batista de Lima, membros de tradicional família santista, tida por muitos como honesta e respeitável. Ambos exerciam a profissão de guarda-livros. Olívio era ainda empregado da casa de Vicente Carvalhaes e, diziam as más línguas da cidade, vinha sofrendo “das faculdades mentais”, tendo sido recentemente internado em uma casa de saúde.

Relatos de testemunhas apontaram que Mathias foi “convidado” a tratar de um assunto importante e deveria acompanhar os irmãos Lima até a beira da via. Enquanto caminhava até eles, desprevenido, acabou recebendo, quase à queima-roupa, um tiro de revólver. A bala feriu-o na testa, pouco acima do olho esquerdo que, ainda assim, não produziu morte instantânea. O atentado deu-se às 11h30 e o falecimento às 14 horas.

Alguns dos trabalhadores contratados pelo empresário lusitano, ao ouvirem a detonação do revólver, deixaram o serviço e correram para o local do crime, ainda em tempo de assistir a fuga dos assassinos, que correram em disparada na direção da cidade. Alguns homens foram em perseguição dos irmãos Lima que, ao final, acabaram pegos nas proximidades da Praça José Bonifácio. Antônio, durante a corrida, chegou a receber uma pedrada, que o atingiu na testa. Os trabalhadores, indignados com o homicídio, ensaiaram um linchamento, que acabou impedido pela polícia, que logo chegou ao local.

Vila Mathias, cerca de 10 anos depois do assassinato. A avenida Ana Costa já havia sido concluída. Foto de cerca de 1900.

Vila Mathias, cerca de 10 anos depois do assassinato. A avenida Ana Costa já havia sido concluída. Foto de cerca de 1900.

A notícia do atentado correu a cidade como rastilho de pólvora. Muitos diziam ter conhecimento da existência de uma antiga demanda por conta de um terreno de pequeno valor, que teria sido invadido por Mathias, justamente para usa-lo com parte da nova estrada, que tanto desejava.

Na residência de Mathias Costa, para onde o empresário foi levado, dezenas de amigos e conhecidos se aglomeravam para saber do seu estado de saúde. Mathias agonizava lentamente.

Na Praça José Bonifácio, Antônio Batista de Lima ainda resistia à prisão, enquanto seu irmão, Olívio, entregava-se sem nenhuma resistência. Ambos ainda carregavam na cintura os seus revólveres, sendo que o de Antônio não apresentava uma bala. Ainda assim, foi Olívio quem assumiu a autoria do disparo.

Mathias Costa era relativamente jovem e deixou esposa e quatro filhos pequenos. A notícia da sua morte produziu consternação geral em Santos, porque todos o conheciam e o estimavam como um homem forte, de caráter enérgico, dedicadíssimo ao trabalho, arrojado e empreendedor. Ele estava muito feliz em razão de ter selado acordo com a municipalidade, para batizar a nova via com o nome de sua dileta esposa, dona Anna Costa. Infelizmente, nesta inauguração ele não estaria mais presente.

Investigação e outras versões
Nos dias que se seguiram ao crime que abalou a cidade, várias testemunhas foram ouvidas. Olívio Lima prestou seu depoimento e contou outra versão à polícia. Disse ele que ao chamar Mathias para a conversa, não tinha intensão de mata-lo, mas só intimidá-lo. Confessou que puxou o revólver, mas não iria apertar o gatilho. Ele afirmou que o português, assustado, tentou tomar a arma de suas mãos, o que culminou no que Olívio reputou como “acidente”, um “disparo casual”.

Ao final dos trabalhos de investigação, em 1º de junho, os irmãos Lima foram pronunciados como incursos nas penas do artigo 92 do Código Criminal, por crime de homicídio. O julgamento ficou marcado para o dia 17.

Absolvição e revolta

Cesário Bastos foi o advogado que conseguiu a absolvição dos irmãos Lima.

Cesário Bastos foi o advogado que conseguiu a absolvição dos irmãos Lima.

Enfim, o julgamento aconteceu, no Tribunal do Júri, que ficava na Casa de Câmara e Cadeia, na Praça dos Andradas (atual Cadeia Velha). Os irmãos Lima tiveram como advogado o jovem Dr. Cesário Bastos (que mais tarde se tornaria vereador, deputado e senador). Na acusação, o jornalista, advogado e neto de Martim Francisco de Andrada, Dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada (3º). Dois grandes oradores. O julgamento atraiu a cidade. Havia gente por todos os cantos na Praça dos Andradas e na Casa de Câmara. Falhas no processo, que deixou descaracterizada a autoria do disparo, fizeram com que a vitória caísse no colo dos irmãos Lima, que acabaram absolvidos por unanimidade e soltos, segundo a processualística penal.

Ironia do destino
Um dos fatos mais irônicos da história de Santos tem relação direta com esse episódio. Poucos meses após o assassinato de Mathias, sua esposa, Anna Costa, decidiu deixar a cidade, indo morar no Rio de Janeiro. Assim, cada personagem desta trama seguiu seu caminho. Cesário Bastos, o advogado que absolveu os assassinos do empresário lusitano, como já dito, tornou-se um grande e prestigiado político, a ponto de ter seu nome associado a um dos maiores grupos escolares da cidade, fundado inicialmente na Vila Nova. Mas quis o destino que a escola mudasse de endereço, ocupando, a partir de 1916, o majestoso edifício situado justamente no bairro daquele homem, cujos assassinos, mesmo com várias provas à mão, ele livrou da cadeia. Para piorar, o lugar era o ponto de partida da avenida que levava o nome mulher que se tornou viúva por causa da violência promovida por seus clientes.

 

 

One Comment

on “Um crime que chocou Santos: O Assassinato de Mathias Costa
One Comment on “Um crime que chocou Santos: O Assassinato de Mathias Costa
  1. Quantos detalhes! Deu pra ver na mente a cena toda. Esta história é forte. Outros olhos para a avenida Ana Costa. Parabéns!

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