Irmãs Meireles deslumbram os santistas com suas vozes e personalidades

Foi em Santos que Cidália conheceu Waldyr Moritz, o amor de sua vida

As Irmãs Meireles, os “Rouxinóis de Portugal”, formaram um dos mais brilhantes grupos de musica lusitana da história.

Cidália, Milita e Rosária (de cima para baixo). As Irmãs Meireles, os “Rouxinóis de Portugal”, formaram um dos mais brilhantes grupos de musica lusitana da história.

Elas eram um dos maiores orgulhos de Portugal, as vozes mais lindas e afinadas da terra lusitana. A história de Cidália (nascida em 09/05/1925, na cidade do Porto), Rosária (11/10/1926, idem) e Milita (25/09/1928, idem), na música iniciou-se em 1941, quando a irmã mais velha começou a carreira artística na Rádio Nacional de Lisboa. Dois anos depois, as outras duas jovens Meireles se juntaram à Cidália e, como um trio de vozes que se encaixavam perfeitamente, venceram diversos prêmios musicais.

Em 1947, já muito conhecidas na Europa, decidem excursionar pela América do Sul, onde visitam o Brasil pela primeira vez e ganham o coração dos habitantes deste lado do Atlântico. Chegaram a combinar um espetáculo em Santos, estiveram na cidade e se encantaram com as suas praias e edifícios antigos, além do movimentado porto. A apresentação, no entanto, acabou não acontecendo por questões de agenda. As Irmãs Meireles ainda promoveriam apresentações na Argentina, Chile e Uruguai, até que decidiram retornar à Portugal, em 16 de março de 1949, à bordo do paquete “Itália”.

A volta ao Brasil

Depois de rever a terra natal e fazer algumas apresentações em Lisboa e Barcelona, na Espanha, em 27 de agosto de 1949 regressam ao Brasil para iniciar uma nova temporada, desta vez em São Paulo, onde assinam um contrato com a Rádio Record, para uma série de apresentações, cantando sempre às terças, quintas e sábados, no mesmo horário, 21h30, sob o patrocínio do Sabão Albatroz, Tintas e Vernizes Cil e Conhaque Ipiranga.

Acompanhadas a todo tempo pelo pai, José Meireles, que administrava a carreira das filhas, o trio de jovens cantoras voltou a excursionar pelo Brasil e pela América Latina. Desta vez, a cidade de Santos não deixaria de ter o privilégio de ver e ouvir, ao vivo, o grandioso espetáculo das meninas que já eram amplamente conhecidas como os “Rouxinóis de Portugal”.

Voltando a Santos, agora pra valer

Em 20 de janeiro de 1950, sem nenhuma comunicação prévia, Cidália, Rosária e Milita apareciam em Santos, junto com o pai, para negociar a apresentação do famoso recital do trio na cidade, desta vez em parceria com a Rádio Atlântica. Um dos lugares visitados é o jornal A Tribuna, que assim registrou a visita das famosas cantoras:

As Irmãs Meireles, em Santos, em janeiro de 1950. Horas antes do show no Coliseu, as artistas tiraram uma série de fotos para a imprensa local.

As Irmãs Meireles, em Santos, em janeiro de 1950. Horas antes do show no Coliseu, as artistas tiraram uma série de fotos para a imprensa local.

Sem qualquer aviso protocolar, espontaneamente, surgiram ontem, à tarde, em nossa redação, trazendo-nos a graça de seus sorrisos, as famosas cantoras portuguesas Irmãs Meireles, que retornam a Santos depois de dois anos de vitoriosa viagem por diversos países da América do Sul e da Europa, inclusive Portugal, berço natal das encantadoras artistas. Irradiando simpatia, com a mesma vivacidade que já lhe conhecíamos, as Irmãs Meireles – Milita, Cidália e Rosária – em companhia de seu progenitor, sr. José Meireles, vieram trazer à “A Tribuna” os seus comprimentos e dizer algo sobre a “tournée” que realizam. Depois dos efusivos cumprimentos, entremeados de gostosas risadas, uma a uma das famosas cantoras começou a desfilar as suas impressões, contando os algo de suas vidas, emoções, trabalho, desejos, realizações e esperanças.

            “O Brasil – iniciou a jovem Milita – é para nós como Portugal. Aqui estamos como em nossa casa. Povo acolhedor, com os mesmos sentimentos da gente lusa, ele nos prendeu, Nos cativou. Onde quer que estivéssemos, o pensamento voltava-se para cá e para Portugal. Fomos felizes em todas as cidades que percorremos. Conhecemos ótimas plateias, quer no Uruguai, na Argentina, quer no Chile. Entretanto, sentimos que algo estava faltando em nós. Era essa atmosfera amiga que existe no Brasil. A nossa satisfação é imensa em estar novamente em Santos. E para demonstra-la, realizaremos no próximo dia 31 um grande espetáculo no Coliseu, quando teremos ocasião de nos apresentar como sempre sonhamos: com trajes característicos, músicas portuguesas e folclore internacional, principalmente brasileiro.”

            Com a palavra, Cidália, a fadista do harmonioso trio, assim se expressou, usando o velho sotaque luso: “Sabes o que mais? As saudades eram grandes. Isso de se andar a viajar para aí e lá é muito bonito. Mas creia que o “diabo” da saudade que se carrega nos vai martirizando, obrigando-nos a voltar para rever a nossa gente, o nosso povo: brasileiro ou português. Temos tido muita sorte. Conhecemos os outros povos, tivemos novos êxitos. Contudo, aqui estamos, como disse à manita, como se estivéssemos em casa. Antes de partir de Santos, sem sabermos quando cá poderemos voltar, realizaríamos um espetáculo quem pretendíamos levar a efeito Na outra vez que aqui estivemos. Agora, porém, é chegado o momento e isso o faremos com a maior de nossa alegria”.

            Após ser servido um cafezinho, procuramos ouvir a palavra de Rosária. E, como as suas irmãs, ela também manifestou a sua saudade pelo Brasil e principalmente por Santos. Disse do entusiasmo que sentia em estar novamente em nossa cidade e da vontade que tem de se apresentar ao público santista. Está satisfeita com sucesso que vem obtendo na Rádio Atlântica espero alcançar o mesmo no próximo dia 31, no Teatro Coliseu, quando ela e suas manas trajarão vestidos de noivas do Minho do século XIX.

José Meireles, o pai onipresente, passeia com as filhas na Praça Mauá, em Santos, algumas horas antes do sensacional espetáculo oferecido no Coliseu.

José Meireles, o pai onipresente, passeia com as filhas na Praça Mauá, em Santos, algumas horas antes do sensacional espetáculo oferecido no Coliseu.

Passeio pela cidade e sessão fotográfica

Nos dias que seguiram à entrevista ao jornal A Tribuna, cartazes com o recital foram distribuídos pela cidade, ao mesmo tempo em que as páginas culturais da imprensa anunciavam o grande show que se aproximava. A apresentação se daria na noite de uma terça-feira, dia 31 de janeiro. Cidália, Milita e Rosária, chegaram cedo à cidade, na companhia inseparável de José Meireles, o orgulhoso pai do trio. Durante a manhã ficaram à disposição da imprensa para sessões fotográficas. As famosas cantoras portuguesas percorreram o centro santista, passando pelo Paço Municipal, pelo tradicional restaurante “Paulista”, onde apreciaram um típico café exportação e também pela Casa Globo, importante estabelecimento comercial santista e apoiador do espetáculo.

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As Irmãs Meireles se apresentaram como tanto desejavam: com trajes característicos do regionalismo português, o de noivas do Minho. No Coliseu, cantaram músicas de raiz e também do folclore internacional, principalmente brasileiro.

Um show de sucesso no Coliseu

À noite, finalmente o espetáculo que encantou os santistas e, principalmente, a colônia portuguesa da cidade. O recital, iniciado às 21 horas, contemplou praticamente todo o repertório do grupo, com suas peças folclóricas e apresentações solos. As Irmãs Meireles apresentavam vistosos trajes, como os de noivas do Minho, do século 19, segundo cópia fornecida pelo Museu Etnográfico de Viana do Castelo, e vestidos da atualidade.

Todos os números apresentados foram vivamente aplaudidos, alcançando o recital o mais absoluto sucesso. Os acompanhamentos ao piano foram feitos pelo professor Oleg Kusnetzon, o qual, por especial deferência para com as Irmãs Meireles tocou, no início da 3ª parte, Capricho, valsa op. 24, de J. Wihtol. Os acompanhamentos à guitarra foram feitos por Abel de Oliveira e Etelvino Gil.

Cidália conhece o amor de sua vida, se casa e abandona o grupo

Na biografia das Irmãs Meireles, um fato marcante da vida do trio ocorreu justamente durante a apresentação em Santos. Foi nesta data que Cidália conheceu o engenheiro e empresário brasileiro Waldyr Moritz, com quem viria a se casar no final daquele mesmo ano, contra a vontade do pai. A mais velha das Meireles aproveitou uma excursão ao Peru, sem a presença dos pais, para casar-se, na cidade de Lima, no dia 30 de dezembro no civil e no dia 3 de janeiro de 1951, na Igreja de Montserrat, naquele país. Logo após anunciou sua saída do grupo e partiria para uma carreira solo em São Paulo. As irmãs, Milita e Rosária, não conseguiram formar uma dupla e isso marcou o fim do trio. Milita se casaria em julho de 1952.

Milita e Rosária chegaram a praticar Jiu-Jitsu com o precursor do esporte no Brasil, Hélio Gracie.

Milita e Rosária chegaram a praticar Jiu-Jitsu com o precursor do esporte no Brasil, Hélio Gracie.

 

Curiosidades

Uma das maiores cantoras portuguesas da história, Amália Rodrigues, a mais notável fadista da história, se apresentaria no Coliseu dois dias depois das Irmãs Meireles. Santos viveu momentos inesquecíveis de música portuguesa naquele início de 1950.

Em 1951, Rosária e Milita chegaram a ter aulas de jiu-jitsu com Hélio Gracie, patriarca da família Gracie, que introduziu este esporte no Brasil. O assunto foi parar nas páginas da Revista da Semana (edição 8/9/1951), do Rio de Janeiro.

Cidália Meireles faleceu no dia 25 de setembro de 1972, aos 47 anos. Ela sentiu-se mal enquanto estava no bar da Rádio Nacional, em Lisboa, Portugal.

Recentemente, o escritor português Paulo Borges publicou uma biografia do trio Irmãs Meireles, intitulado “Os Rouxinóes de Portugal” e um vídeo documentário que pode ser visto no facebook, no link https://www.facebook.com/irmasmeireles/ . Neste vídeo, ao final, há um emocionante depoimento de Milita e Rosária, realizado em abril de 2016.

 

A apresentação no Coliseu de Santos foi uma das mais marcantes do trio em solo brasileiro.

A apresentação no Coliseu de Santos foi uma das mais marcantes do trio em solo brasileiro.

Milita, Cidália e Rosária, no Café Paulista. Parada obrigatória em um dos pontos mais tradicionais de Santos.

Milita, Cidália e Rosária, no Café Paulista. Parada obrigatória em um dos pontos mais tradicionais de Santos.

Anúncio do recital das Irmãs Meireles que aconteceria no Teatro Coliseu em 31 de janeiro de 1950, no Jornal A Tribuna

Anúncio do recital das Irmãs Meireles que aconteceria no Teatro Coliseu em 31 de janeiro de 1950, no Jornal A Tribuna

Notícia na Revista da Semana, do Rio de Janeiro, sobre o casamento às escondidas, da cantora Cidália.

Notícia na Revista da Semana, do Rio de Janeiro, sobre o casamento às escondidas, da cantora Cidália.

 

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