Crime da Mala – Assassinato de Maria Fea choca o mundo

Maria Mercedes Fea, durante a viagem de lua de mel com o marido e futuro algoz, Giuseppe Pistone.

Santos, domingo, 7 de outubro de 1928. O imponente transatlântico francês “Massilia”, procedente de Buenos Aires, estava atracado no cais do armazém 14 do porto santista preparando-se para empreender mais uma viagem de retorno à Europa, com destino aos portos de Lisboa, Vigo e Bordeaux. Tudo seguia o script costumeiro. Passageiros e tripulantes se misturavam no convés, integrando-se num ritmo frenético e até natural ao ambiente do agitado cais da cidade. Um verdadeiro formigueiro humano de trabalhadores e carregadores havia se formado no entorno do transatlântico. Já havia se passado metade do dia quando, porém, algo sairia do roteiro. Durante a operação de embarque das bagagens para o porão do navio, realizada por guindastes, um magote de carga despencara por consequência de um cabo rompido. Na queda das malas, uma delas, aparentemente bem mais nova do que as demais, feita de madeira e assemelhada a um baú, acabou seriamente avariada. Os responsáveis pela tarefa, assustados, se entreolharam. Na superstição do mar, um cabo arrebentado quase sempre indicava mau presságio. 

O marinheiro Flowy Delphonse, trabalhador do porão, foi o primeiro a chegar ao ponto da queda. Ao tentar endireitar a mala-baú, que caíra de lado, sentiu que ela exalava um cheiro insuportável. Em fração de segundos, o odor empesteou o ambiente. Delphonse também notou que, com o impacto, a mala sofrera uma pequena rachadura e, dela, escorria um líquido escuro, a origem do mau cheiro. Preocupado, chamou seu coordenador e este, sem perda de tempo, mandou acionar o comandante do navio, Paul Charmesson.

As autoridades policiais de Santos foram chamadas às pressas. Algo muito grave estaria acontecendo. A mala foi levada para o convés e, de lá, para o costado do cais. Ali, o carpinteiro de bordo arrombou a fechadura e cortou as cordas que protegiam o baú. Àquela altura já estava presente ao local o delegado Armando Ferreira da Rosa, que jamais imaginaria estar prestes a conduzir o maior caso de sua vida.

Uma multidão rodeava o misterioso cofre de madeira, querendo entender o que acontecia. Eis que, aberta a mala, descortina-se um cenário de horror: entre várias peças de roupas femininas, estava o cadáver de uma jovem moça, de cabelos loiros, magra e muito clara, e em avançado estado de decomposição. Junto ao corpo, mutilado na altura dos joelhos, havia uma navalha, certamente a utilizada no hediondo crime. Mais tarde, quando o baú fora levado para os médicos legistas, descobriu-se algo mais estarrecedor.  Junto à jovem mulher, também estava um feto de uma criança do sexo feminino, com aproximadamente seis meses de gestação.

Entre as curiosas testemunhas do horrendo espetáculo, um misterioso homem, visivelmente angustiado, virou-se e se afastou, partindo para longe do cais, sem ao menos olhar para trás.

Cidade em choque

A notícia sobre o achado correu a cidade santista feito rastilho de pólvora e ganharia letras garrafais nos jornais do dia seguinte. A Tribuna estampava o caso da “Mala Sinistra”, indagando ser aquela uma “nova edição da célebre tragédia de Miguel Trade” (nome de um cidadão sírio que, em 1908, protagonizou crime semelhante, esquartejando e depositando os despojos de um conterrâneo, Elias Farhat, também numa grande mala estilo baú, igualmente despachada em um navio).

O novo “Crime da Mala”, como todos passariam a chamar o hediondo assassinato da jovem cujo nome só seria descoberto no dia seguinte, movimentou policiais de Santos e São Paulo. Era preciso capturar o criminoso rapidamente, antes que ele sumisse sem deixar pistas.

Veja foto da mala com o cadáver de Maria Fea (imagem forte)

O comandante do Masillia, Paul Charmesson

Os legistas logo foram acionados para buscar entender quando e como a misteriosa mulher fora sacrificada sob tamanha barbaridade. Ela estava seminua e seu olho direito estava praticamente fora da órbita ocular. As pernas, acima do joelho, foram golpeadas de tal forma que denunciaram o tamanho do esforço do assassino. A cabeça da jovem estava inclinada para baixo. Para obter esta posição, o criminoso teve de fraturar-lhe a coluna vertebral. As mãos brancas e unhas polidas denotavam ser aquela uma mulher vaidosa e bem cuidada. A roupa que mal a cobria também indicava que não era uma qualquer. A vítima usava um vestido preto de seda, um rico chapéu de seda com a etiqueta “Rue de La Paix, 21, Paris” e um lenço de seda com a inicial “R” bordada a capricho. Rodeando o corpo, ainda havia um vidro de perfume e uma caixa de pó-de-arroz, ambos vazios. Chegou-se à conclusão que o criminoso buscou usar os produtos para disfarçar o odor que o cadáver iria exalar em curto prazo.

Verificou-se na autópsia a existência do cadáver de um feto, do sexo feminino, contando com mais ou menos seis meses de vida intrauterina. Devido aos fenômenos da putrefação, este feto desceu através do canal pelviano, acarretando na inversão uterina.

As investigações começam

Na etiqueta colada à mala havia um nome e um destino: Francisco Ferrero, Bordeaux, França. O comandante Charmesson mandou pegar a lista de passageiros para verificar onde poderia estar o “dono da mala”.  Nada encontrou e, ao lado do delegado Rosa, sentiu que aquela era uma pista falsa.  As autoridades santistas, então, liberaram o Massilia para seguir sua viagem. Enquanto o vapor francês já navegava para além da barra de Santos, no necrotério municipal, os agentes policiais descobriram, dentro da sinistra mala, um bilhete de primeira classe da São Paulo Railway, que partira da Estação da Luz no dia anterior.  Certamente haveria pistas do assassino na estação da SPR no Valongo.

O comissário do vapor francês Massilia

Romenos testemunham

Rumando para o Rio de Janeiro, o navio francês ainda produziria fatos novos para o caso. O comissário de bordo fora até o comandante levar-lhe uma informação intrigante, resultante de uma sindicância que promovera internamente a fim de apurar o episódio da mala misteriosa. Descobriu-se que os responsáveis pelo registro da mala e seu embarque foram três cidadãos romenos, passageiros da terceira classe: Estephan Lizine, Catherine Juckebske e Armant Pantelunem. Interrogados pelo comando do Massilia, eles explicaram que, quando encaminharam suas bagagens, da estação da São Paulo Railway, em Santos, para o armazém 14 das Docas, foram abordados por um homem loiro, bem vestido e com a barba por fazer, que lhes pediu que levasse sua mala também, pois ainda ia se despedir de um amigo. Disse ainda que, pela gentileza, pagaria o transporte de toda a bagagem.

O comandante Charmesson, de posse dos depoimentos, telegrafa para o delegado de Santos e conta o que conseguiu colher. As autoridades policiais santistas pedem, então, auxilio à Polícia do Rio de Janeiro, para que prendam preventivamente os romenos, o que é feito assim que o Massilia atraca no cais carioca. No entanto, depois de igualmente interrogados pelos agentes da capital, eles são liberados, por entender que, de fato, não tiveram ligação direta com o crime, por desconhecer o conteúdo da mala.

Diligência na Gare da SPR em Santos

Com o bilhete encontrado na mala e as informações originadas a partir do depoimento dos romenos ao comandante do Massilia, o delegado Rosa promoveu uma diligência na estação do Valongo. Lá, descobriu que o carregador nº 71, Antônio Alves de Aguiar, auxiliado pelo colega nº 69, transportara a mala macabra, junto com outras, no caminhão 1.549. Os traços do homem que contratara o serviço coincidiam com o descrito na oitiva feita pelo comandante Charmesson. Ao descarregar a mala, no sábado, disse que havia sentido um forte mau cheiro, ao qual não deu muita importância em razão de muitos imigrantes costumarem levar comida dentro das malas e, estas, via de regra, estragavam.

Quando o caminhão partiu, porém, Aguiar notou que no local onde a mala ficara aguardando o embarque, surgira uma grande mancha escura, que lhe pareceu sangue. Teve suspeita, então, de que o baú poderia esconder um crime, mas acabou dissuadido de levar a dúvida adiante por seu imediato.  

O delegado Rosa também descobriu que o suspeito tinha pedido informações sobre possíveis locais para se hospedar do sábado para o domingo. Um dos carregadores indicara a Pensão Roma. E, então, para lá foram os agentes santistas, encontrando o proprietário do local, que foi indagado sobre o homem de sotaque italiano. O hoteleiro disse que, de fato, um homem com as características apresentadas pelos policiais havia chegado na noite anterior, por volta de 21h15, pagando 10 mil reis por um quarto. Registrado como Giuseppe Russo, o sujeito nem ficara o período de hospedagem completo, tendo partido na manhã seguinte.

Outra questão observada pelos investigadores de Santos era a da etiqueta, colada na tampa do baú, que marcava o número de despacho da estação ferroviária: 75.016. Ouvido o funcionário encarregado deste serviço, ele declarou que o homem que lhe pedira este despacho, visivelmente apressado, viajara de São Paulo a Santos no trem das 8 horas e 11 minutos – o trem mais procurado pelos comissários de café. Firmou-se, assim, a convicção de que o criminoso viera efetivamente da capital paulista e era para lá que se voltava, então, todo o foco da investigação.

 

Os delegados responsáveis pelo caso – Carvalho Franco, de São Paulo, e Ferreira da Rosa, de Santos

 

Policiais de São Paulo em cena

De posse desta certeza, O delegado Rosa acionou os colegas do “Gabinete de Investigações” da Capital (o atual Departamento Estadual de Investigações Criminais – Deic). As principais pistas para se chegar até o assassino só poderiam estar por lá. Os agentes paulistanos se dividiram em três grupos. Enquanto um grupo se dirigiu até a Estação da Luz, da São Paulo Railway, o segundo promoveu diligências nos principais hotéis da cidade e uma terceira equipe foi investigar a possível origem da mala.

Depois de uma fustigante peregrinação por quase todas as fábricas de malas da cidade, os agentes encontraram pistas na da avenida São João, 111. O seu proprietário, sr. Domingos Mosci, reconheceu na mala sinistra a que vendera dois dias antes a um estranho que surgira na loja com muita pressa de que lhe entregasse o objeto adquirido. Ele incumbira seu jovem empregado, Plinio Moreira, a realizar a entrega, à Rua da Conceição, 34 (hoje, avenida Cásper Líbero). O produto deveria ser deixado no apartamento de número 5, situado no 3º andar da edificação. Aquele era um precioso elemento colhidos pelos agentes e um pouco do fio que se desdobrava do novelo misterioso.

O senhorio do casal, sr. Ramiro Franco

Os senhorios de “Mariuska”

Quando os agentes do Gabinete de Investigações de São Paulo chegaram ao endereço informado por Domingos Mosci, eles não tiveram a sorte de encontrar o suposto assassino. No lugar, depararam apenas com os donos do prédio, o casal Ramiro Franco e Maria Citrangulo de Oliveira. A mulher, durante depoimento informal dado aos policiais, disse que vivia dias de angústias e preocupações sobre o estado de saúde da pequena “Mariuska”, carinhoso apelido que eles haviam dado a Maria Mercedes Fea Pistone, uma jovem de 22 anos de idade que até poucos dias antes residia no quarto de número 5 ao lado do marido, um italiano de nome Giuseppe Pistone. Naquele momento, então, a polícia passou a ter conhecimento dos nomes do assassino e sua vítima.

O sr. Franco disse à polícia que o casal, nos últimos dias, estava levando uma vida irregular, com brigas que chamavam, inclusive, a atenção de toda a vizinhança. A sra. Citrangulo contou que na quinta-feira, dia 4, cerca de uma hora da tarde, ouviu uma gritaria intensa vinda do quarto dos italianos. Ela teve muita vontade de interferir na briga dos inquilinos, mas ficou receosa, pois estava sozinha em casa. Poucas horas mais tarde, tornou a ouvir a briga, e os gritos de Mariuska pareciam mais agudos, estridentes. No entanto, estes últimos pareceram se extinguir lentamente, até que o silêncio imperasse no prédio. 

Quando o sr. Franco retornou para casa, a esposa o pôs a par da situação e lhe pediu para verificar o que havia ocorrido. O senhorio, no entanto, aconselhou a mulher a ficar quieta, alegando que não iria “meter a colher” na vida dos outros, ainda mais dos hóspedes. No dia seguinte, pela manhã, o casal Franco testemunhou a entrega de uma mala nova, por um rapaz da loja da avenida São João. Ato contínuo, Giuseppe Pistone, aparece para informar aos senhorios que estava mudando-se para a Barra Funda, onde estabelecera com um amigo uma sociedade, entrando com 75 mil réis de capital.

A Sra. Citrangulo ficou em choque com a terrível morte de sua “Mariuska”

Dois dias depois, quando apareceram os carregadores para levar a bagagem do casal de italianos, o sr. Franco notou o esforço que os homens faziam para carregar a mala-baú. Em tom de brincadeira, e coincidentemente lembrando o velho crime da mala (de 1908), o senhorio chegou a brincar com Pistone, dizendo: “Até parece que aí dentro vai um turco”. Mal sabia ele que não estava tão errado.

Quando os jornais estamparam em suas manchetes a tétrica cena do cadáver de uma mulher encontrada dentro de uma mala no Porto de Santos, os senhorios de Pistone congelaram. Impulsionada pela sra. Citrangulo, Ramiro Franco foi até a esquina, no estabelecimento comercial Pistone & Cia (que pertencia a um parente distante de Giuseppe) e lá descobriu que o ex-inquilino, além de não ser sócio do lugar, como lhe costumava contar, era um empregado malquisto, por sua insolência, e que ganhava apenas 350 mil réis mensais.

Investigação na Estação da Luz

Enquanto isso, a equipe que fora até a estação da Luz coletou vários depoimentos com carregadores, motoristas e responsáveis pela operação de trens de passageiros. Um dos condutores, de nome Vicente Caruso, do caminhão 716, disse que havia realizado o serviço de transporte da mala que aparecia nos jornais. Ele confirmou que a origem da macabra carga era a Rua da Conceição, 34.

Assim que desembarcou na Luz, ela foi remetida para a pesagem. O balanceiro da São Paulo Railway informou que eram 7h40, quando um sujeito de cor branca, estatura regular, bem vestido e falando mal o português, apareceu no armazém de despachos puxando a dita bagagem. Foi, então, expedido o despacho

nº 76.016, sob responsabilidade do passageiro portador do bilhete de ida e volta a Santos, nº 4276. O coordenador do serviço de bagagens da São Paulo Railway informou que a mala fora despachada para o litoral no dia 6, no trem das 8h11. Porém, também disseram que o tal passageiro, que deveria ocupar o assento 37 do segundo vagão, acabou não seguindo na composição.

A cena do crime, já sem os móveis, na Rua da Conceição, 34.

Agentes conhecem a cena do crime

Naquele momento, no prédio da Rua da Conceição, 34, 3º andar, os policiais entravam no pequeno aposento alugado por Ramiro e Maria Citrangulo ao casal Pistone. O lugar estava vazio e apresentava algumas manchas de sangue pelas paredes e chão. Os investigadores perceberam que o assassino tentou apagar as pistas, mas não obteve sucesso. Os móveis haviam sido retirados no sábado à tarde, uma vez que Giuseppe os vendera por cerca de 450 mil réis, a um negociante que fora lá examina-los logo depois da saída das bagagens.  

As pistas se uniam a cada minuto. Capturar o assassino parecia ser algo cada vez mais possível.

Uma carta definiu a captura

No meio da tarde, uma surpresa surgia na sede do Gabinete de Investigações. Sabedor do movimento policial na Rua da Conceição, um amigo de Pistone, João Perroti, foi procurar o delegado responsável pelo caso na capital, Dr. Carvalho Franco. Em depoimento espontâneo, disse que, desconfiado como estava de que o autor do crime que apareceu nos jornais era Giuseppe, resolveu entregar aos agentes uma carta, que estava em sua posse, endereçada a Pistone. Perroti acreditava que o conteúdo da correspondência poderia apontar algum indício esclarecedor.

O delegado perguntou ao depoente se ele conhecia os lugares mais frequentados pelo suspeito do crime de Maria Fea. Perroti disse que costumava encontrar o amigo, de forma assídua, na Pensão Grasso, que ficava na Rua Ipiranga, 34. Com a informação, Carvalho Franco ordenou que uma turma de agentes para lá se dirigisse, a fim de tentar capturar o criminoso. E, para sorte da polícia, não demorou para Giuseppe aparecer, dentro de um automóvel. Ao descer do carro, recebeu ordem de prisão, não resistindo à mesma. O assassino de Maria Mercedes Fea, enfim, fora capturado.  

Pistone (sentado, à direita), em seu primeiro interrogatório, com os agentes do Gabinete de Investigações

O depoimento do criminoso

Perante às autoridades, Pistone contou a sua versão do caso, esforçando-se a fazer crer a quantos o rodeavam que era um sujeito tranquilo. Disse que havia conhecido Maria Mercedes Fea havia pouco mais de um ano, quando fazia uma viagem de navio da Europa para a Argentina, na segunda classe do vapor “Giulio César”. Estava ele no tombadilho a observar os passageiros da terceira classe, quando descobriu a figura encantadora de “Mariuska”. Logo passou a corteja-la e, ao ver correspondido seus olhares, chegou a pagar mil libras para poder trocar de classe dentro do navio. A partir do momento em que passaram a viajar juntos, descobriram que ambos eram nascidos na mesma cidade da Itália, Canelli (região do Piemonte, perto de Gênova). Com tantas coisas em comum, se apaixonaram e engataram um romance ardente.

Chegando à Argentina, Giuseppe Pistone conheceu a família da moça e a pediu em casamento, que foi realizado logo depois. Resolveram, então, gozar a lua de mel e tornaram a viajar para a Itália, ocasião em que ele recebeu uma pomposa herança do pai (cerca de 150 mil liras), Carlos Pistone, falecido em 1923. Retornaram à Argentina no navio “Conte Biancamano” e lá residiram por algum tempo. A certo momento decidiram tentar a vida no Brasil, vindo pelo vapor “Conte Rosso” e foram residir na capital paulista, inicialmente no Hotel D’Oeste, onde ficaram por um mês, antes de se instalarem na Rua da Conceição, 34.

O casal Pistone no vapor Conte Biancamano, felizes, em lua de mel, um ano e meio antes do crime.

Pistone disse aos agentes da polícia que viveu dias de muito conflito com a esposa e que, na sexta-feira, dia 5, ao chegar em casa, pôs-se ele a discutir com maior intensidade. Disse ainda que o motivo dessa última discussão fora que, naquela tarde, chegando em casa, ao aproximar-se do quarto, viu um homem sair dele. Cheio de ódio, certo de que estava sendo miseravelmente traído, investiu contra a esposa, que se ajoelhou, dizendo-se inocente. Agarrou-a brutamente, então, e na cegueira do amor próprio ofendido, estrangulou-a.

Cometido o crime e já no seu estado normal, Pistone disse que avaliou toda a desgraça que cometera, entregando-se em profundas meditações na ânsia de descobrir um meio de livra-se do cadáver da esposa. Viu correr a noite inteira e nessa vigília torturante, preocupado em eliminar aquela prova do seu crime, testemunhou a chegada da manhã. Já tinha em seu pensamento todo o macabro plano, que era meter o corpo numa mala e despacha-la para a Europa no vapor Massilia, que no dia seguinte deveria atracar em Santos.

Assim, logo pela manhã, foi até a loja de malas da rua São João, 111, e lá adquiriu o baú, que serviria de caixão da pobre e grávida vítima. Porém, o corpo de Maria Fea não cabia perfeitamente no espaço. Desesperado, Pistone, então, pegou a navalha que utilizava para fazer a barba e, serenamente, cortou os joelhos de sua esposa morta. Para completar o tétrico serviço, ainda teve de quebrar a espinha dorsal da jovem, a fim de encaixa-la completamente na mala. O criminoso completou o serviço recheando o baú com algumas roupas da vítima e, na intenção de evitar a propagação do odor cadavérico, esvaziou um vidro de perfume e uma lata de pó-de-arroz sobre o corpo.

Fechada a mala, mandou-a para a Estação da Luz no caminhão 716, dirigido pelo chauffeur Vicente Caruso que, nesse serviço, foi auxiliado pelo carregador 89. Na gare da São Paulo Railway da capital, a mala passou pela pesagem e embarcou no trem das 8h11.

Pistone no momento em que fora preso, à porta da Pensão Grasso.

Pistone disse que depois de pagar uns romenos que iriam embarcar no Massilia, para que o ajudassem a despachar a bagagem, ficou de longe, encostado no armazém 14 das Docas de Santos, observando o embarque da mala. Quando ela desapareceu de suas vistas, carregada pelo guindaste, ele sentiu um alívio. Seu plano dera certo. No entanto, minutos depois ele percebeu um corre-corre no cais e, sem acreditar no que estava testemunhando, a mala era carregada de volta para a beira do cais. O assassino assistiu o ajuntamento do povo e a chegada das autoridades policiais de Santos. Com sangue frio, Pistone se aproximou das pessoas e acompanhou os passos que antecederam a descoberta macabra que chocou os presentes e todo o país no dia seguinte.

Depois de ver a mala sendo levada para o necrotério da cidade santista, o criminoso disse em depoimento que decidiu desistir de voltar pelo trem da São Paulo Railway. Assim, correu de volta para a Pensão Roma, onde ficara hospedado, pegou suas coisas e contratou um carro por 200 mil réis para conduzi-lo à capital paulista pela estrada de rodagem.

Após quatro horas de viagem, ele finalmente chegou até a Pensão do seu amigo Grasso, na Rua Ipiranga, e pediu-lhe que guardasse o recibo do depósito de 12 mil liras feito na Casa Pistone (de seu primo distante), onde era empregado. No dia seguinte, à tarde, Grasso chamou Giuseppe para uma conversa. Disse que escutara que a polícia estava atrás de um italiano de nome Pistone e que a fisionomia do assassino do caso mais comentado nos jornais batia com a sua. Mantendo o sangue frio, o assassino desconversou e disse que estava tranquilo e que até iria buscar a esposa para jantar. Logo depois, Giuseppe encontrou outro amigo íntimo, Antônio Isso, e acabou confessando o crime bárbaro. Antônio aconselhou-o, então, a voltar à pensão de Grasso, e contar-lhe a verdade. Disse que o amigo iria lhe ajudar, arrumando um advogado, Cyrillo Junior, para tratar-lhe da defesa. Momentos mais tarde, quando estava de saída da pensão, acabou preso pela polícia. Pistone disse aos agentes que não estava em busca do advogado, mas sim da morte, pois queria afogar-se no rio Tietê.

Aliás, durante os dias dos interrogatórios, Pistone, ao mesmo tempo em que era acometido de violentas crises que revelaram seu estado de agitação nervosa, demonstrava uma serenidade absoluta, falando em suicidar-se. Por várias vezes fingiu querer matar-se, desempenhando verdadeiras farsas para conservar no espírito dos que acompanharam o processo a impressão de que é um passional com todos os seus característicos inconfundíveis. Outra teatralização do assassino aconteceu quando seu primo e chefe procurou a delegacia para devolver uma quantia de 5 mil réis, que havia sido depositada como prova de confiança sobre a possível celebração da sociedade. Giuseppe recusou-se a pegar o dinheiro e encenou um gesto de benemerência, pedindo ao ex-patrão que doasse o valor para a Santa Casa de Misericórdia.

Milhares de curioso queriam ver Maria Fea

Em Santos, o entorno do necrotério municipal estava apinhado de gente. Segundo a polícia local, cerca de cinco mil pessoas para lá se dirigiram para ver de perto o corpo da infeliz moça brutalmente assassinada. Somente na terça-feira é que Maria Fea foi sepultada, no Cemitério da Filosofia, no bairro do Saboó.

À luz dos verdadeiros fatos

Durante o processo de apuração dos fatos que culminou na morte de Maria Mercedes Fea, realizado ao longo dos dias, semanas e meses seguintes, muitos pontos foram sendo acrescentados na história do casal e as circunstâncias que resultaram no bárbaro crime. As autoridades do Gabinete de Investigações verificaram, desde o primeiro momento, que o crime não foi consequência de delírio passional. Não havia amante algum. No próprio depoimento, Pistone entrou várias vezes em contradição, dizendo ora que o homem que vira saindo do quarto estava de chapéu de palha na mão e elegantemente trajado, e em outros momentos que saíra de sua casa em camisa de mangas. Outro ponto em que ele se contradisse foi quando garantiu que a esposa estava apenas com uma combinação quando entrou no quarto, e foi assim que a meteu na mala, quando, na verdade, Maria Fea estava morta com uma combinação de roupas e um vestido preto. Para reforçar o fato de que não havia nenhum homem em romance proibido com Mariuska, dez minutos antes da chegada de Pistone em casa, a moça estava acompanhada da sra. Citrangulo, que lá estivera com um vidraceiro para trocar um vitrô. A senhoria alegou à polícia que Maria Fea estava cozendo um pequeno casaco que, depois, foi encontrado na mala. Assim, para a polícia, o jovem de chapéu de palha não passava de uma figura criada pela imaginação do assassino.

A sra. Citrangulo, que chegou a ouvir alguns dos lamentos de Mariuska, disse que à polícia que a moça estava desgostosa em relação ao caráter do marido. De fato, Pistone já havia aprontado na Argentina e chegou a ser preso em Buenos Aires por crime de roubo. A ida para o Brasil, na verdade, se tratava mais de uma fuga de um ambiente tornado hostil do que uma atitude planejada. A mãe de Maria Fea era contra o casamento, mas a cegueira da filha provocada pela paixão ao homem de palavras gentis e ilusórias foi mais forte, e se mostrou fatal. Em depoimento colhido em Buenos Aires, dona Vitória Lazarine, genitora de Mariuska, contou que sempre teve má impressão do caráter do genro porque, na intimidade, nas conversas que travava com a família, revelava todas as extravagâncias de um temperamento anormal. Depois de fazer gastos fabulosos com o dinheiro da herança do pai, ao casar-se, pretextando dificuldades financeiras, pediu, por várias vezes, dinheiro emprestado ao cunhado, irmão de Maria Fea, José.

A vítima estava também para mandar uma carta à sogra, correspondência esta encontrada numa valise que Pistone acabou esquecendo na Pensão Roma, em Santos. Ela dizia:  “Somente hoje, eu soube do sr. Pistone (o primo), que Giuseppe, de acordo com o mesmo, do qual é empregado, te escreveu pedindo 150.000 liras. Este fato causou-me aborrecimento, porque eu estava certa de que, ao menos agora, ele não me mentisse mais para obter essa quantia. Eu já o repreendi severamente, sem que as minhas admoestações e as tuas tenham sentido efeito. Bem sei que tu nada lhe deves, e se porventura ainda lhe devesse alguma coisa, recomendo-te, querida mãe, de lhe remeteres qualquer importância, do contrário ele seria o mesmo sempre. Peço-te perdão pelo desgosto involuntário que te dou, desejo-te boa saúde e envio-te um beijo afetuoso. Tua Maria”. A polícia deduziu que, pelo teor da carta, a correspondência deve ter sido fundamental para as atitudes revoltosas e truculentas de Pistone.

Desenho publicado na revista O Malho ilustrando o terrível caso que abalou o país.

 

 

 

Tentativas de manchar o nome de Maria Fea

Pistone tentou por várias vezes manchar a memória de sua vítima, a esposa, imputando-lhe a pecha de adúltera. Mas todas as tentativas não lograram êxito, em razão da ausência de provas cabais. Ainda assim, a opinião pública estava dividida quanto ao tema. Estaria, de fato, Maria Fea tendo um caso extraconjugal? Para desfazer perante a sociedade brasileira qualquer dúvida que ainda pairasse sobre Mariuska, os dois irmãos da vítima, José e Esther Fea, vieram de Buenos Aires para Santos, no navio “Cabo Palos”, prestar seus depoimentos acerca do caráter da irmã e como acusadores de Giuseppe. Indignados com o crime, eles disseram que cansaram de alertar Maria Fea sobre má índole do italiano, haja visto que ele estava sendo processado na capital argentina pelo crime de estelionato.

Esther Fea, que era cantora lírica, estava inconsolável. Ela nem conseguia pronunciar o nome do cunhado assassino, sem que tremesse toda. Chorando muito, falou aos jornalistas de São Paulo: “Mariucha, a caçula da família, era um anjo de pureza. Nunca seus lábios se abriram para pronunciar uma palavra que não fosse ungida de ternura. Por isso vimos espontaneamente, imbuídos do propósito de reabilitar a sua memória, manchada pelas infâmias do monstro que a matou”. Esther contou que Maria Fea se casou precipitadamente, em meio a um sonho, numa grande irreflexão. “Não demorou para que ele mostrasse sua face vigarista. Vivia pedindo dinheiro para nosso irmão”.

Durante a acareação entre os irmãos Fea e Giuseppe Pistone, apesar dos poucos minutos, ocorreram cenas arrebatadoras. Ao surgimento do criminoso na sala, José Fea saltou para cima dele e teve de ser contido à força pelos agentes. O réu foi, então, retirado do recinto, até que o irmão de Marias Fea se acalmasse e prometesse ficar calmo. Na volta de Pistone, Esther olhou em seus olhos e falando no dialeto de sua terra natal, indagou-o:

– Você tem coragem de reafirmar que minha irmã era adúltera?

E entre o espanto dos presentes, ele cinicamente respondeu:

– Sim!

Esther, ao ouvir a resposta, transfigurou-se. Porém, exercendo forte domínio sobre os nervos, numa violenta reação, arrancou o chapéu envolto em crepes e, terrivelmente, gritou:

– Olhe mais uma vez para os meus olhos! Eu sou irmã de Maria. Você tem coragem de dizer que minha irmã era adúltera?

E Pistone, sem se comover com o apelo, que era um grito partido de uma alma em amargura, friamente, tornou:

– Afirmo e juro sob o túmulo de meu pai!

Esther, os olhos em fúria, cheio de ódio, os punhos cerrados:

– Cínico! Infame! Você pode provar isso?

E ante as testemunhas da cena arrebatadora, Pistone, vencido pela grande dor da cunhada, baixou a cabeça, sem dizer uma só palavra. José Fea tremia, cheio de ódio, escondendo o rosto nas mãos para não ver o matador da irmã. Pistone foi retirado em seguida, e Esther, na sua amargura, caindo num sofá, desabafou:

– Bandido! Até na minha frente sustentou a infâmia!

Cena do julgamento de Giuseppe Pistone, em 1931

O julgamento

José Pistone foi processado com base nos artigos 194 e 356 do Código Penal. A primeira vez que se aventou a formação do Júri foi em janeiro de 1930. O assassino de Maria Fea estava preso provisoriamente desde então. Mas o julgamento acabou sendo protelado e adiado para o ano seguinte. Com a presidência do juiz Herculano de Carvalho e o Ministério Público representado pelo dr. Cesar Salgado, o caso começou a ter seu desfecho definitivo em 15 de julho de 1931, com sua condenação a 30 anos de prisão. Os advogados de defesa, como esperado, recorreram, e um novo julgamento aconteceu em março de 1932, onde foi confirmada a condenação, só que desta vez a 26 anos e meio, uma vez que era o prazo máximo de reclusão segundo o Código Penal da época. Dias depois, um jornalista escreveria uma série de artigos comprovando que o crime de Pistone se restringiria à profanação do cadáver, uma vez que não havia “provas contundentes” da motivação premeditada de crime.  Com os argumentos nas mãos, os advogados de defesa, mais uma vez, requereram revisão do processo, que foi atendida, em 1936, pela Suprema Corte de Apelação. No ano seguinte, em 19 de março, Pistone era retirado da penitenciária para a cadeia pública de São Paulo, onde aguardaria novo julgamento. A imprensa chegou até a aventar a possibilidade de absolvição do assassino de Maria Fea. Mas, o resultado foi o oposto, com a nova condenação, por sete votos, a 31 anos de prisão.   

Pistone atrás das grades, na Penitenciária de Carandiru, na capital paulista.

Casou-se com uma viúva de Taubaté

Em 1949, vinte um ano anos depois do assassinato de sua esposa, Giuseppe Pistone, já sexagenário, casou-se com a viúva Francisca Rodrigues da Silva, de 60 anos, e avó de doze netos. Ele havia concluído o prazo de liberdade condicional em novembro de 1948, e trabalhava, por casa e comida, na própria Penitenciária Agrícola de Taubaté, onde cumprira parte da pena. Ele conheceu a nova esposa, que era costureira, na pracinha localizada no centro da cidade interiorana. Em 28 de junho de 1956, ele viria a falecer, doente e esquecido.

Maria Fea, santa popular

O corpo de Maria Fea foi sepultado no Cemitério da Filosofia (Saboó) e seu túmulo virou uma espécie de santuário. Em 1951, um casal que teve uma “graça alcançada” reformou o local, construindo um mausoléu dedicada à “santa popular”. E até os dias de hoje, 90 anos depois, Maria Fea ainda movimenta centenas de fiéis, que buscam sua divina intercessão.

 

Fachada do prédio da Rua Conceição, 34, onde aconteceu o crime.