Primeiro samba-enredo santista gravado em disco recebeu a bênção do escritor Jorge Amado

São Paulo, Estúdio de Gravação Vice-Versa, novembro de 1977. Após quatro horas de trabalho intenso, os componentes da bateria do Grêmio Recreativo e Escola Império do Samba, da litorânea cidade de Santos, se abraçavam, entusiasticamente, por terem executado de forma brilhante o samba proposto para o desfile no Carnaval 1978. As lágrimas e risos daqueles homens, tornados momentaneamente em crianças eufóricas, não celebravam apenas a conclusão de um trabalho impecável. Elas traduziam o orgulho de um pioneirismo, o de fazerem parte do primeiro samba enredo gravado em disco na história do Carnaval santista.  

Em meio à festa, o compositor da exuberante obra, o estreante Geraldo César Pierotti, olhou com gratidão ao intérprete do samba, Diniz de Jesus. Jamais ele poderia supor que sua primeira composição carnavalesca alcançaria tamanha distinção.

Pastores da Noite, samba enredo da Império do Samba para os desfiles de 1978, foi o primeiro a ser gravado na história do Carnaval santista.

Tudo acontecera muito rápido. Alguns meses antes, a escola havia decidido eleger uma das obras do celebrado escritor baiano, Jorge Amado, como tema da Império para o Carnaval do ano seguinte. O jornalista Carlos Pinto fora, ao lado de Vicente Cley, o grande responsável pela minuciosa pesquisa do livro “Os Pastores da Noite”, lançado em 1964 e que ganhara uma versão para o cinema naquele ano de 1977, alcançando enorme sucesso, tendo no elenco nomes como Grande Otelo, Antônio Pitanga, Jofre Soares, Zeni Pereira, Maria Viana, entre outros.

Definido o tema, a Império lançou o desafio aos seus compositores. Entre eles estava o jovem advogado Geraldo Pierotti, de 29 anos de idade, que estreava como autor de letras para sambas-enredos. Ele disputaria com velhas raposas do samba, como Baru e Dráuzio da Cruz, mas não se intimidou. Nos três julgamentos (duas eliminatórias e a final), obteve a primeira colocação, não pondo em dúvida nenhuma a qualidade da letra que propôs.

Ô abram alas
Para os Pastores da Noite
Suas dores, seus amores
Romantismo e Misticismo
A invasão do Mata Gato
Casamento e batizado
A Bahia emoldurando
A estória de Jorge Amado
Com suas ladeiras
Seus mestres de capoeira
Cais do Porto
Terreiros e saveiros
E formosa natureza
Que beleza! Que beleza!

BIS

Ê Ê Ê Ê
Abram alas para ver.

Cabo Martim, malandro fino
Curió e Jesuíno
Pé de vento e suas mulatas
Ypicilone e suas serenatas
Cravo na Lapela
Marialva, Otália e Tibéria
Ogum compadre de Massu
Beatriz, Doninha e Exu
No enredo trazem a mensagem
De amor, fé e coragem

BIS

Salve a velha Bahia
Salve São Salvador
Salve sua magia
O seu povo e sua dor

Ô abram alas

Premiado pelo Rei

Aclamado pela imprensa local, Pierotti decidiu partir para outra conquista: viabilizar a gravação, em estúdio, do samba de sua autoria. Contando com a colaboração de várias empresas do setor portuário, transporte e exportação, das relações de sua família, o compositor levantou os fundos necessários para a gravação do que viria a se tornar o primeiro samba-enredo santista registrado em Long Play (LP).

Em 19 de novembro, a Império do Samba decidiu promover uma grande festa nos salões da Associação Atlética Portuguesa Santista, contando com a ilustre presença de ninguém menos do que o Rei do Futebol, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. O ex-craque do Santos Futebol Clube havia se despedido em definitivo dos gramados pouco mais de um mês antes, em 1º de outubro de 1977, numa partida simbólica ocorrida em Nova Iorque entre o time da Vila Belmiro e o Cosmos, ultima morada futebolística do Rei. Neste jogo, o time da casa vencera o visitante por 2×1, com um gol marcado justamente por Pelé.

Na festa da Império do Samba, em novembro de 1977, o Rei do futebol foi a grande presença. Recém saído dos gramados, Pelé parabenizou Pierotti pela conquista e lhe deu alguns presentes, como um quadro seu autografado.

A presença do Rei na festa realizada no salão da Portuguesa se configurou um privilégio à agremiação carnavalesca e ao jovem Pierotti, que pode receber das mãos do ilustre convidado um medalhão alusivo ao concurso da Império do Samba, além de uma medalha comemorativa ao encerramento da carreira do Rei e um quadro com a fotografia de Pelé autografado. Foi uma noite memorável, com a mistura samba/futebol fazendo a alegria dos presentes.

Na carta de Jorge Amado, escrita no papel timbrado da Academia Brasileira de Letras, o autor original de Pastores da Noite enseja a melhor sorte aos santistas.

Reconhecimento e benção de Jorge Amado

A Império do Samba tinha a esperança de poder trazer a Santos o autor da obra original, tema da escola para o Carnaval 1978. Depois de ter seu samba enredo escolhido no julgamento de novembro, Pierotti telefonou e enviou carta a Jorge Amado, convidando-o a viajar até Santos para participar do desfile. O aclamado escrito baiano, entretanto, envolto a outros compromissos, acabou declinando ao convite, mas fez questão de redigir uma resposta, em papel timbrado da Academia Brasileira de Letras, datada de 27 de janeiro, agradecendo a honraria e desejando a melhor sorte à escola de samba santista. (veja carta ao lado)

Na avenida, muita confusão

Se até então tudo pareciam flores para a Império do Samba, durante o desfile as coisas não aconteceram conforme o esperado. O Carnaval 1978 foi marcado por muita confusão na passarela montada na orla da praia do Gonzaga. Tida como uma das favoritas para vencer a competição, a Império cometeu alguns erros e ainda foi seriamente prejudicada pela Escola Unidos do Boqueirão, cujo puxador iniciou seu canto antes mesmo da agremiação do Macuco. Independentemente dos problemas na evolução dos passistas, não havia o que dizer sobre o samba enredo “Pastores da Noite”, sem sombra de dúvida o mais cantado pelo povo que lotava as arquibancadas e as faixas de desfile. A música de Pierotti deixou sua história na memória do samba santista, pelo sucesso na avenida e, principalmente, pelo pioneirismo, como o primeiro enredo de Carnaval gravado.

Império do Samba – curiosidades

Oito vezes campeã de Carnaval santista (1965-66-67-68-69-70-72 e 74), disputando com agremiações até da capital paulista, a Império do Samba é uma das mais importantes escolas carnavalescas que já existiu na cidade. Um dos maiores nomes formados na agremiação do bairro do Macuco foi o celebrado sambista Luiz Américo.

Imprensa santista repercutiu o apoio de Jorge Amado ao enredo da Império do Samba para 1978. Na imagem, a partitura do samba-enredo para piano.

Mapa da área de desfile do Carnaval 1978

A musica de Pierotti foi a vencedora em todas as etapas do concurso da Império.