Dança de Rua do Brasil, de Santos para o mundo!

Marcelo Cirino: Da periferia para os maiores palcos de dança do Brasil. Seu projeto, incorporado à Secretaria de Cultura de Santos ganhou notoriedade nacional e internacional. Foto de 1991.

Joinville, 26 de julho de 1993. Todos os lugares do Ginásio Ivan Rodrigues, palco central para a grande final da 11ª edição do Festival de Dança de Joinville (SC), estavam ocupados por cerca de oito mil espectadores absolutamente entusiasmados (a maior parte composta por bailarinos de todos os cantos do país). O grupo santista “Dança de Rua”, nascido nas dependências da Secretaria Municipal de Cultura apenas dois anos antes, enfim, debutava na competição tida como a maior e mais importante do gênero em território nacional. Formada por 17 bailarinos, a “trupe” santense trazia à frente o jovem coreógrafo Marcelo Cirino, idealizador do projeto e um adepto apaixonado do estilo que nasceu timidamente nos Estados Unidos final dos anos 1920, fruto da crise econômica que se abateu sobre o mundo, e que ganhou novos contornos estéticos nos anos 1960, com o funk, e 1980, com o surgimento do break dance.

A ida do grupo santista a Joinville era despretensiosa, mas ao mesmo tempo ousada, uma vez que a coreografia, ensaiada exaustivamente pelo grupo, “Questão de Alma”, era, de fato, um número poderoso, e não decepcionou. “A precisão da coreografia e a interpretação impactante foram tão grandiosas, que somente um defunto ficaria impune ao que foi visto aqui”, chegou a dizer a crítica de dança Suzana Braga, uma das mais respeitadas do Brasil na época. O público foi ao delírio e ovacionou o grupo de Santos por mais tempo do que qualquer outro competidor. Fora uma estreia perfeita. Os seis jurados que avaliaram a apresentação do “Dança de Rua” deram nota geral 9,29, fazendo com que o grupo santista conquistasse o primeiro lugar na categoria Amador I, enquanto Cirino fora o grande vencedor da categoria solo.

A repercussão da vitória do grupo santista em Joinville foi gigantesca e o impacto do estilo transformou o próprio festival catarinense, a ponto de inserirem a categoria “dança de rua” na edição de 1993 que, afinal, foi conquistada por Cirino e seus bailarinos, com a coreografia “Os Deuses”. O grupo de Santos foi novamente ovacionado pelo público e alcançou a maior nota entre todas as companhias do festival: 9,74. Neste ano, o grupo já fazia uso do nome como ficou ainda mais conhecido no universo da dança: “Dança de Rua do Brasil”. O ano de 1993 ficou marcado pela fome do grupo pelas conquistas Brasil afora, com vitórias no XIV Festival Brasil Sesc de Dança (São Paulo/SP) e do Encontro Nacional de Dança (ENDA), também ocorrido na capital paulista.

Nesta época, o grupo era composto por João Celso, Saulo Santos, André Luiz, Ricardo Dias, Daniela Lourenço, Laís Paula, Tatiana Justel, Graziela Gonçalves, Leonice Santos, Sabrina Campos, Ana Carolina, Raimundo dos Santos, Luiz Wanderlei (K-çapa), Valmir Andrade, Fernando Petrilli, Kleber Franco (Faísca), Marcelo Franco (Fumaça), Rodney Barbosa (Biro) e Marcelo Cirino.

João Celso, André Luiz, Faísca & fumaça, KÇapa, Biro, Cirino e Tatiana Justel, alguns dos integrantes da primeira formação do Dança de Rua de Santos

Astros da TV

Em 1995, o “Dança de Rua de Santos” se transformou em “Dança de Rua do Brasil”, e já ostentava um status gigantesco, como um verdadeiro papa-títulos, encantando plateias pelos principais festivais de dança do país. Naquele ano foram nada menos do que cinco primeiros lugares conquistados, com destaque para, novamente, Joinville, e o Festival de Uberlândia (MG). As performances trabalhadas naquele ano foram “Espelho Negro” (duo), “A Lenda” (equipe) e “O Monge” (solo). Um detalhe curioso é que o grupo, neste festival, era só composto por homens.

A notoriedade alcançada por Cirino e seus companheiros chamou a atenção da maior emissora de TV do país, a Rede Globo. A chefe do Departamento Artístico da empresa, encantada com o sucesso do grupo santista, convidou-o a participar do projeto Criança Esperança, coreografando ao vivo o “Rap do Borel”. Foi um sucesso que chamou a atenção de vários artistas e apresentadores famosos da TV, que começaram a convidar o “Dança de Rua do Brasil” para atuar em seus programas.

Dança de Rua em 1995 venceu todas as competições que participou com sua coreografia “A Lenda”.

Além do Criança Esperança, o grupo de Marcelo Cirino foi ao ar no “Show da Virada”, “Turma do Didi”, “Raul Gil”, “Domingo Legal”, “Jô Soares”, “Otávio Mesquita”, “A Casa é sua”, “Hoje em Dia”, “Eliana”, “Ratinho” e “Xuxa Park”.

A partir das constantes aparições do grupo nas grandes mídias, Santos entrou definitivamente no mapa da dança, se tornando, em 1997 a “Capital da Dança de Rua” do Brasil. Cirino, emocionado com as conquistas, lembrava a todo momento do início de sua trajetória, em 1982, quando, sozinho, mostrava seus passos de dança à população mais carente de Santos. Ele apresentava seus “funks” em bairros afastados da cidade e vivia estudando os clips do cantor pop norte-americano Michael Jackson, até que um dia ganhou uma bolsa de estudos na Academia Walderês, de Santos, e lá ficou quatro anos pesquisando modalidades diversas, alcançando uma importante base no balé clássico. Contudo, seu gosto mesmo era pelos estilos que faziam sucesso nos guetos das grandes metrópoles dos Estados Unidos: o break e o funk. Com uma ideia fixa na cabeça, procurou o então secretário de cultura de Santos, Reinaldo Martins, e propôs a criação de um curso de “street dance” na cidade. O projeto acabou inserido no Programa “Carlitos” e rapidamente chamou a atenção da comunidade. Assim, os quase 50 inscritos de 1990 se tornaram mais de mil no ano de 1997. Era o fruto de um trabalho árduo pela dança, a conquista plena de seus sonhos.

Dança de Rua do Brasil bombava nos programas de TV. Xuxa Meneghel era fã de carteirinha do grupo santista, que também se apresentou muitas vezes no Programa do Faustão e de Hebe Camargo. 

Em 1998, Cirino criou a coreografia “Homens de Preto”, que acabou sendo a marca registrada do grupo por muitos anos. Ao longo da trajetória, que já chega aos dias atuais, grupo ostenta em seu currículo nada menos do que 27 premiações em campeonatos pelo País, isso sem contar as apresentações em eventos especiais, como na coreografia de abertura nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Naquele ano de 98, o Grupo Dança de Rua do Brasil foi homenageado pelo Festival de Joinville com a inserção de uma menção do trabalho santista na “Calçada da Fama” do evento.

O projeto “Dança de Rua” funciona até os dias atuais, com aulas gratuitas, onde os melhores bailarinos são convidados a entrar nos chamados “grupos paralelos”: Cia Adrenalina Infantil e Juvenil (coreógrafo Ricardo Andrade); Grupo Breakdown (coreógrafo Nei Jackson); Grupo Endorfina (coreógrafo Matheus Andrade); Cia. Nação de Rua (coreógrafo Ricardo Dias) e Lambarua (coreógrafos Ricardo Andrade e Erik Rato). Os melhores dos grupos paralelos acabam automaticamente migrando para o “Dança de Rua do Brasil Oficial Masculino” e “Dança de Rua do Brasil Oficial Feminino”. As últimas coreografias apresentadas pelo projeto são desde 2015, “A Lenda, 20 Anos”; “Homens de Preto, 20 anos” (esta coreografia acabou se transformando num espetáculo de 45 minutos) e “Vikings”, que é a mais recente, baseada na mitologia nórdica e na série homônima do canal streaming “Netflix”.

Em 2021, Marcelo Cirino começou a trabalhar a coreografia “Nós somos a Rua”,  e também o espetáculo “Dança de Rua do Brasil – 30 Anos – a Saga”, que será itinerante e percorrerá o país e terá o espetáculo principal realizado em Santos, trazendo uma retrospectiva de toda a trajetória deste grupo santista que nunca mais deixou de fazer sucesso desde que foi ovacionado em Joinville naquela noite de julho de 1993.

 

Dança de Rua na formação da coreografia “Homens de Preto”, marca registrada do grupo por duas décadas. O figurino desta coreografia está eternizado no Museu da Dança, em Joinville.

Entre as coreografias mais recentes do grupo, “Vikings”, baseado na mitologia nórdica e no seriado da “Netflix”

Homenagem ao Dança de Rua do Brasil no Festival de Joinville, em 1998. O grupo santista é o único que tem cinco placas nesta calçada da fama. Nada mais justo para um grupo que fez história no mais tradicional evento de dança do país, estimulando a criação de uma categoria no evento, a partir da apresentação de 1993.