Nobres italianos ajudam a criar a Vila de Santos

Giuseppe (José) Adorno, em desenho de Padron

Entre os colonos fundadores, figuravam os irmãos Adorno, membros de uma família que dominou por dois séculos a República de Gênova

Santos, 1545. O capitão-mor Braz Cubas reuniu os principais colonos da região para anunciar sua determinação em transformar o modesto povoado de “Enguaguaçú” numa vila oficial. Afinal, depois que decidira, dois anos antes, transferir o porto da Capitania de São Vicente, da boca do Canal da Barra (atual Ponta da Praia) para as cercanias do Outeiro de Santa Catarina; e fundar uma instituição para acudir os necessitados, a Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos, Cubas compreendeu que já estava mais do que na hora do pequeno núcleo agrícola e portuário dispor de instrumentos jurídicos fundamentais para o seu desenvolvimento, como uma Casa de Câmara e Cadeia. Durante o encontro, diversas demandas foram tratadas entre os principais homens do povoado, mas algo chamaria a atenção de quem não conhecesse bem cada um deles. Apesar da língua portuguesa ser a mais natural entre os primeiros povoadores, três homens posicionados ao fundo da sala conversavam entre si num dialeto diferente e, apesar de apoiarem o capitão-mor em suas decisões, tinham suas próprias ideias e planos para com a futura terra santista. O trio não tinha origem lusíada e figurava ali na condição de exilados políticos, tendo eles sido expulsos de sua terra natal havia quase 20 anos. Eram, enfim, naturais da República de Gênova, a terra de Cristóvão Colombo, uma pequeno país na região da Ligúria, noroeste da Península Itálica, onde a família exerceu pleno domínio por mais de dois séculos.

Assim, no encontro que reuniu os lusos Braz Cubas, Pascoal Fernandes, Domingos Pires, André Botelho, Mestre Bartolomeu e os irmãos Luís, Pero e Cipião de Góes, ocasião em que foi dado o pontapé inicial para o início do processo de criação da nova vila do Porto de Santos, se consolidava, também, a forte influência local dos nobres genoveses, os irmãos José, Francisco e Rafael Adorno.

Brasão da República de Gênova

A origem

A família Adorno dominou a República de entre 1321 e 1528. O pioneiro desta trajetória foi Janfranco Adorno, eleito ao posto de ancião (o equivalente a senador) num episódio que marcou o início das conquistas populares sobre o país e determinaram, quase vinte anos depois o declínio do sistema feudal, encetado pelo governo de Simão Boccanegra (1339-1363). Logo depois, a família tomaria em mãos o poder absoluto do país, com a eleição de Gabriel Adorno (1363-1370) ao cargo de doge (líder, comandante, uma espécie de presidente da República). Ele seria o primeiro da sua linhagem a exercer o vultoso posto. Outros Adornos que chegaram ao mesmo status foram: Antônio (1340-1398), Giorgio (1350-1430), Rafael (1375-1458), Barnaba (1385-1459), Prospero (1428-1486), Agostino (1488-1499) e Antônio II (c. 1479-1528).

Mercadores natos, eles acabaram, contudo, sendo acusados de traição por alguns compatriotas, por supostamente permitirem o domínio francês sobre o país. A relação da família foi se desgastando de tal forma que, em 1528, a república genovesa, sob o comando de Antônio II, foi invadida por uma tropa de dissidentes liderada pelo famoso mercador Andrea Dória, que não só tomou o poder para si como também expulsou o doge e todos os seus familiares do país.

Brasão da Família Adorno

Exílio em Portugal e vinda para o Brasil

Definitivamente alijados do comando genovês, os Adornos foram buscar, então, exílio no Reino de Portugal, aproveitando-se das boas relações que mantinham com o Rei D. João III. Reconhecidos na Corte lusitana como judeus, uma vez que mantinham fortes ligações com armadores (de navios) e bancos judaicos, os genoveses precisaram se converter como “novos cristãos”, condição imposta para que fossem mantidos sob a proteção do país luso.

Sem perspectivas e condições de promover a retomada de seu país, os Adornos decidiram investir suas economias no Reino de Portugal, obtendo permissão para explorar o crescente negócio do açúcar nas terras da Ilha da Madeira, onde levantaram um moderno engenho. O empreendimento prosperou e garantiu boas recompensas financeiras na comercialização do produto, que era altamente valorizado nos mercados europeus.

Em 1530, após receberem notícias de que o Rei D. João III desejava promover a colonização do Brasil e lastrear sua fonte econômica ao cultivo da cana-de-açúcar, os genoveses imediatamente se colocaram à disposição do soberano luso, oferecendo-lhe seus préstimos para a implantação da cultura açucareira nas terras portuguesas da América. Assim, quando parte da armada colonizadora de Martim Afonso de Sousa passou pela Ilha da Madeira, em dezembro de 1530, lá estavam os irmãos Adornos com tudo pronto para encarar um negócio promissor no Novo Mundo.  Eles separaram o maquinário para a montagem de um engenho bem estruturado, além de diversas mudas de cana-de-açúcar, que se tornariam responsáveis pelo início do plantio na região conhecida como São Vicente, assim batizada pelo cosmógrafo florentino Américo Vespúcio durante a viagem exploratória de 1502, comandada por André Gonçalves.

Os Adornos, então, munidos de autorização real, incorporaram a armada colonizadora de Martim Afonso de Sousa que, por sua vez, fora orientado por D. João III para que brindasse os genoveses com terras férteis, pelo sistema de sesmaria. Desse modo, ao chegarem a São Vicente, que se tornaria Capitania Hereditária em 1534, sob a titularidade do próprio Martim Afonso de Sousa, eles ergueram um engenho sob a invocação de São João nas terras que lhes foram confiadas às margens do ribeirão de São Jerônimo (local equivalente hoje ao trecho compreendido entre a Cadeia Velha e o túnel Rubens Ferreira Martins). O equipamento concorreria com o engenho do Governador (ou do Trato – que, em 1540, se tornaria Engenho dos Erasmos), e o Engenho da Madre de Deus, pertencente a Pero de Góes, localizado no Sítio das Neves (atual Área Continental de Santos).

Assim, os nobres genoveses se estabeleceram em Santos, construindo uma nova e rica história, ao lado de Braz Cubas e dos outros colonos que deram o tom para o início da civilização santense.

O chefe da família – Giuseppe Adorno (José)

Figura mais relevante da família genovesa em Santos, José Adorno foi provedor da Santa Casa em 1560. Grande benfeitor dos jesuítas, ajudou a construir o Colégio dos Meninos de São Vicente e auxiliar os padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta em várias necessidades. Também contribuiu de forma decisiva na expulsão de piratas franceses na Guanabara, partindo de Santos com um exército e, logo depois, dando suporte ao governador Mem de Sá para fundar a cidade do Rio de Janeiro. Em 1583, negociou com o pirata Edward Fenton, evitando que ele pilhasse a vila de Santos. Em 1589, construiu a Capela da Graça, abrigando ali os frades da ordem carmelita quando da chegada desses. Também viabilizou junto com Braz Cubas diversas melhorias no povoado e promoveu diversas excursões ao sertão brasileiro. Dizem os historiadores que José Adorno morreu com quase 100 anos de idade, em 1605.

Antônio Adorno

Foi capitão de infantaria e alcaide-mor da vila de Bertioga, nomeado pelo primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa. Foi também almoxarife dos armazéns e da artilharia da fortaleza de Bertioga. Em 1552, graças à sua intervenção junto ao governador-geral, recebeu da Bahia armamentos e munições que tornaram o pequeno forte de Bertioga apto a defender o povoado, constantemente assaltado pelos índios[2].Também no Recife, no Córrego do Jenipapo, há uma rua homenageando Antonio Dias Adorno.[4]Ainda, em Belo Horizonte, existe a Rua Dias Adorno, no bairro Santo Agostinho.