
Edith Pires Gonçalves Dias e as histórias que percorriam os trilhos diante do Casarão Branco
Durante o mês de agosto, a coluna Era Uma Vez… Santos seguirá pelos antigos trilhos da cidade. Não será, porém, uma história dos bondes contada apenas por meio de datas, números de linhas, modelos de carros, itinerários ou transformações tecnológicas. Nosso propósito será outro: recuperar a relação afetiva dos santistas com aquele meio de transporte que, durante tantas décadas, fez parte da paisagem e da vida cotidiana.
A cada semana, vamos buscar nas obras literárias e memorialísticas as pequenas histórias deixadas por pessoas que conheceram a Santos dos bondes. Foram testemunhas oculares de uma cidade em que o som das rodas sobre os trilhos anunciava chegadas, partidas, encontros, namoros, idas à escola, deslocamentos para o trabalho e passeios em família.
Começamos essa viagem com a escritora Edith Pires Gonçalves Dias, autora de Memórias do Casarão Branco. Publicado originalmente em 1999, o livro reúne as recordações da família Pires e da residência que hoje abriga a Pinacoteca Benedicto Calixto, na Avenida Bartolomeu de Gusmão. De seu terraço, de seus jardins e de suas janelas, Edith observou uma cidade que crescia diante do mar e que tinha nos bondes um de seus principais personagens.
O bonde que levou Santos para a praia
Antes mesmo de contar suas lembranças pessoais, Edith reconheceu o papel dos bondes na transformação urbana de Santos. No início do século XX, as famílias ainda se concentravam principalmente no Centro e nos morros. As praias eram distantes, pouco ocupadas e pontuadas por chácaras.
A extensão das linhas de bonde em direção à orla ajudou a mudar essa realidade. Segundo Edith, os trilhos que avançavam até a praia representavam um convite para que as famílias construíssem suas residências naquela região. As antigas chácaras foram divididas em lotes e Santos começou a se expandir pelas avenidas Ana Costa e Conselheiro Nébias e pelos bairros próximos ao mar.
Naqueles primeiros tempos, os bondes ainda eram puxados por burros. Automóveis não circulavam pelas ruas santistas e apenas as famílias mais abastadas possuíam veículos particulares.
O bonde parava diante do casarão
Em 1923, o cenário da praia já estava mudado. Os bondes eram elétricos, mas a avenida ainda não estava pavimentada.
Os trilhos encontravam-se sobre dormentes, numa área um pouco elevada e coberta por pedregulhos. Como havia um intervalo considerável entre a passagem de um carro e outro, Edith e os irmãos transformavam a linha em espaço de brincadeira. Pulavam de dormente em dormente, atentos ao momento em que um novo bonde poderia surgir.
Na mesma época, uma costureira trabalhava diariamente para a família. Todas as manhãs, ela chegava pelo bonde 13. A frequência era tão regular que o motorneiro já conhecia sua passageira. Ao se aproximar do casarão, parava o veículo diante da residência para que ela pudesse descer.
Não importava se ali existia ou não um ponto convencional. Na Santos daquela época, o motorneiro conhecia os hábitos dos passageiros, sabia onde trabalhavam e, algumas vezes, adaptava a parada às necessidades de quem viajava todos os dias.
Era uma relação humana que dificilmente sobreviveria à velocidade e à impessoalidade dos sistemas de transporte que vieram depois.
O bonde dos estudantes
Em 1932, Edith deixou o Colégio Stella Maris e ingressou no Colégio São José. Para chegar às aulas, ela e outras meninas do bairro tomavam o bonde na esquina da avenida da praia, diante da chácara de Júlio Conceição, onde existiu posteriormente o Parque Indígena.
Enquanto aguardavam a condução, sentavam-se numa pequena mureta de alvenaria construída ao redor de uma palmeira. A espera, porém, não era indiferente. O mesmo bonde transportava um grupo de rapazes que estudava pela manhã no Ginásio Santista e no Luso-Brasileiro.
Edith admitiu que as meninas ficavam alvoroçadas e até um pouco exibidas quando os rapazes apareciam. Dentro do bonde, entre conversas, olhares discretos e o movimento do carro pelos trilhos, formou-se um convívio que ela descreveu como agradável e respeitoso.
Muitas das amizades nascidas naquelas viagens escolares atravessaram as décadas. O bonde funcionava como uma espécie de extensão dos colégios. Era um espaço de sociabilidade, no qual jovens de diferentes escolas se encontravam diariamente e começavam a construir relações que levariam para toda a vida.
A baleia e o rapaz no estribo
Entre todas as lembranças de Edith, talvez nenhuma reúna de forma tão delicada os bondes, a cidade e sua própria história de vida quanto o dia em que uma enorme baleia apareceu na Ponta da Praia.
A notícia despertou a curiosidade dos santistas. Todos queriam ver o animal. Para transportar a multidão, a Companhia City colocou bondes extras em circulação, acompanhados por reboques. Os carros passavam completamente lotados diante do Casarão Branco.
Edith, então com 14 anos, observava o movimento do terraço superior da residência. Entre os passageiros que seguiam para a Ponta da Praia, reconheceu Cyro, o rapaz com quem viria a namorar, casar-se e compartilhar 58 anos de vida. Ele viajava no estribo de um dos bondes.
Depois que o carro passou, Edith permaneceu no terraço. Esperou pacientemente que o bonde completasse o percurso e retornasse, apenas para poder ver novamente o jovem que começava a despertar sua atenção.
A baleia mobilizou a cidade. Os bondes extras levaram centenas de curiosos até a Ponta da Praia. Mas, para Edith, o que importava era ver o rapaz que se tornaria o homem de sua vida.
Histórias que viajaram pelos trilhos
Assim, nas memórias de Edith Pires, o bonde transportou histórias indeléveis: as brincadeiras de infância junto aos trilhos, a costureira que desembarcava diante do casarão, os estudantes em busca de amizades e encontros e a jovem que avistou no estribo o futuro marido. São pequenos episódios que revelavam o papel dos bondes na construção da memória afetiva de todos os santistas. E, embora eles tenham desaparecido e seus trilhos retirados ou cobertos, os velhos bondes continuam percorrendo Santos, agora pelos caminhos da lembrança.

