A história do Edifício Travessia, o novo prédio da prefeitura de Santos

A partir dos anos 1920, com a pujança econômica brasileira advinda das exportações de café, Santos testemunhou uma enorme transformação urbana, em especial em sua região administrativa central. Um dos lugares mais “badalados” era, sem dúvida, a aprazível Praça Mauá, abrigo de hotéis e lojas de luxo, além de escritórios comerciais de grandes importadoras e agentes marítimos e a nova agência dos Correios (a antiga ficava na Praça Ruy Barbosa). Neste turbilhão arquitetônico, entre as edificações que saltavam aos olhos nesta fase de ouro da cidade, estava o prédio situado à esquina das ruas General Câmara e D. Pedro II, conhecido como Edifício Travessia.

Imagem panorâmica (tirada do terraço do prédio dos Correios) mostra o Travessia na esquina da D. Pedro II com a General Câmara. Nesta época a Prefeitura ainda não havia sido construída. Foto de cerca de 1929.
Imagem panorâmica (tirada do terraço do prédio dos Correios) mostra o Travessia na esquina da D. Pedro II com a General Câmara. Nesta época a Prefeitura ainda não havia sido construída. Foto de cerca de 1929.


A imponente edificação, de estilo eclético, atualmente tendo como vizinho o Paço Municipal (o prédio é anterior à sede da Prefeitura, de 1939, tendo sua construção registrada em meados dos anos 1920), teve como primeiro proprietário o empresário José da Silva Reis, que alugava os espaços do andar térreo para estabelecimentos de venda; e as salas do segundo e terceiros pisos para escritórios de advocacia e contabilidades, entre outros prestadores de serviços. As referências documentais mais antigas ainda guardadas nos acervos da Fundação Arquivo e Memória de Santos – Fams (que cuida da documentação administrativa do município) dão conta dos pedidos de licenças e projetos modificativos nos estabelecimentos comerciais, como foi o caso da loja “Ao Paraquedas”, de propriedade de José Novoa que, em novembro de 1930, solicitou autorização para “instalar 2 (duas) vetrinas para o embelezamento do negócio, sito à Rua d. Pedro II, nº 29”.

Imagem do Edificio Travessia (à esquerda na foto), dos anos 1930. Note que as lojas possuem toldos de proteção.
Imagem do Edificio Travessia (à esquerda na foto), dos anos 1940. Note que as lojas possuem toldos de proteção.


Nos anos 1940, o Edifício Travessia ainda mantinha seu perfil comercial, exibindo belas lojas no térreo. Nos acervos da Fams constam pedidos para a implantação de “palanques” na parte interna de alguns desses estabelecimentos, conforme plantas anexadas aos processos (veja imagem). Vários comerciantes atuaram no local, como Antonio André Ferreira (nº 27), Rafic Farah (nº 25) e João Gonzalez Leiras (nº 25). Entidades importantes, como o Sindicato dos Empregados no Comércio de Santos, também chegaram a ocupar o espaço. Ainda na mesma década, ocorreu a compra do edifício pelos irmãos Bento Francisco dos Santos Martins e Joaquim André Martins. Durante alguns anos, ambos mantiveram o local com suas características físicas e comerciais. No final dos anos 1950, o imóvel contava apenas com um proprietário, Joaquim André Martins, que veio a falecer nos anos iniciais da década de 1960.

Entidades importantes, como o Sindicato dos Empregados no Comércio de Santos, ocuparam o imóvel.
Entidades importantes, como o Sindicato dos Empregados no Comércio de Santos, ocuparam o imóvel.


Em 1964, Maria Leonor Ribeiro Martins, viúva e inventariante do espólio de Joaquim André Martins, constituiu Mário André Ribeiro Martins, como seu procurador. Este, por sua vez, contratou o escritório de arquitetura de Otacílio Rodrigues Lima e Arnaldo Conceição Paiva Filho para a elaboração de um projeto que previa uma nova construção no lote. A idéia era demolir o antigo casarão dos anos 1920 e, em seu lugar, erguer um imenso prédio de 15 andares, dotado de fachada em brises. Naquele mesmo ano, a Prefeitura desapropriou trechos importantes da Rua General Câmara, suprimindo as partes frontais de algumas edificações com vistas à ampliação da via (o que, de fato, não aconteceu). Ainda assim, aproveitando-se da situação, os proprietários do Travessia pediram autorização para demolir totalmente o antigo prédio para viabilizar a ideia do edifício de 15 andares, que teria uso comercial. Porém, isso não aconteceu, para sorte da arquitetura preservada no local.

O projeto de
O projeto dos anos 1960 previa a total demolição do Edificio Travessia. Em seu lugar, uma edificação de 15 andares, com fachada em crises de concreto.


Em 9 de abril de 1970, os herdeiros de Joaquim André Martins (Alice Martins de Andrade, Arnaldo Martins, Arthur Ribeiro Martins e Mário André Ribeiro) finalizam o formal de partilha, com a aquisição definitiva do prédio. No documento o detalhamento do histórico imóvel: prédio em dois andares (não contaram com o térreo), da Rua D. Pedro II, 25/27 e 29, esquina da rua General Câmara, onde tem o número 28, e seus respectivos terrenos, medindo 38,35 metros de frente para a Rua D. Pedro II, por 9,70 metros de frente para a Rua General Câmara e 9.85 metros de largura. Ainda na partilha, surge as informações do imóvel vizinho, também parte do espólio: prédio da Rua General Câmara, 30/32, com 5,45 metros de frente, por 45 metros da frente aos fundos.

Pouco mais de quinze anos depois, foi solicitada junto à Prefeitura a unificação dos dois lotes, com o objetivo de retomar a idéia de expansão do lugar. Os novos donos, porém, optaram em não colocar abaixo o Edifício Travessia, e mandaram executar um projeto ampliação do conjunto. O representante dos proprietários, Mário André Ribeiro Martins, contratou, assim, o escritório da arquiteta Regina Maria Lourenço Adegas, para que fosse elaborado um plano moderno, que unisse o antigo ao novo com o acréscimo de um andar completo no conjunto (ambos os lotes) e mais três andares na metade do lote. O trabalho de elaboração, cujo responsável técnico da obra foi o arquiteto Sergio Saraiva Martins, ficou pronto em 1985, porém sofreu várias interferências, mudando, inclusive, a quantidade de andares proposto para a ampliação. A proposta, que variou entre 3, 5 e 7 andares, além do pavimento completo, acabou sendo viabilizada com cinco andares.

Um dos projetos de meados dos anos 1980. Este previa a construção de mais oito andares. Note, em vermelho, a alteração com a inclusão do sobrado vizinho, incorporado ao conjunto do Edificio Travessia.
Um dos projetos de meados dos anos 1980. Este previa a construção de mais sete andares. Note, em vermelho, a alteração com a inclusão do sobrado vizinho, incorporado ao conjunto do Edificio Travessia.

Em 1989, quando as alterações e ampliações já estavam praticamente concluídas, os proprietários do imóvel optaram pela contratação dos arquitetos do Grupo de Estudos do Patrimônio Histórico Santista (GEPAS) para proceder à restauração da fachada antiga do prédio, oferecendo “um tratamento contemporâneo para o edifício que se ergue acima do velho, com a criação de uma grelha de tijolo aparente sobre um fundo de massa raspada cinza, inspirando-se na construção antiga, integrando-se a ela”. O trabalho foi concluído no início dos anos 1990.

Foto: Gepas
No final dos anos 1980, o Edificio Travessia, além de ampliado, teve sua fachada totalmente restaurada. O projeto previa integrar o antigo e o novo. Foto: Gepas


Mais de vinte anos se passaram com a edificação servindo de base para vários escritórios e lojas, até que em 23 de abril de 2007, a Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobrás) fez uma oferta aos proprietários e aluga todo o conjunto (4.064,97 m²), para ali instalar sua unidade de negócios do Pré-Sal. Por um contrato de cinco anos, a estatal federal pagaria R$ 40, 000,00 mensais, e se comprometeria a promover uma grande reforma na edificação, incluindo a estrutura de concreto, alvenaria, caixilhos, instalações hidráulicas e sanitárias, instalações de combate a incêndio através de hidrantes, revestimento cerâmico e granito, impermebialização e pintura. Foram demolidos todos os trechos de alvenaria interna, peças cerâmicas das paredes, piso cerâmico, lajes (para execução de shafts) espelhos dos sanitários, esquadrias com impossibilidade de recuperação, corrimãos de escadas, bancadas de granito, instalações hidráulicas, elétricas e sanitárias, escadas de estrutura metálica e parte superior da cobertura. Foram gastos mais de R$ 5 milhões nesta reforma, que duraram dois anos. O projeto e a responsabilidade técnica de reforma foram assinados pelo engenheiro Claudio Zopone.

A Petrobrás ocupou a edificação a partir de
A Petrobrás ocupou a edificação a partir de 2007.


A unidade da Petrobrás funcionou ali até meados de 2014, quando foi transferida para as edificações próprias da estatal, construídas no bairro do Valongo. Paralelamente a esta mudança, a Prefeitura de Santos iniciou as tratativas para a compra do imóvel, com o objetivo de ali instalar diversos dos seus departamentos.  Após várias rodadas de negociações com os proprietários, o imóvel acabou desapropriado pelo decreto n° 7.007/2014, registrando a compra amigável no valor de R$ 12,7 milhões, parcelados em 20 prestações. Chamado de “Centro Administrativo da Prefeitura”, começou a funcionar em julho de 2016, reunindo setores de cinco secretarias (incluindo três gabinetes), com destaque para serviços de apoio e abertura de novos negócios como a Sala do Empreendedor Santista e o escritório técnico do Alegra Centro e a agência Investe Santos.

O Edifício Travessia ao fundo, à direita.
O Edifício Travessia ao fundo, à direita.
Vista da Praça Mauá, nos anos 1940.
Vista da Praça Mauá, nos anos 1940.
Detalhe de projeto para o Travessia em 1930. Note o nome do então proprietário: José da Silva Reis.
Detalhe de projeto para o Travessia em 1930. Note o nome do então proprietário: José da Silva Reis.

 

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