ESTÁDIO ULRICO MURSA – PATRIMÔNIO HISTÓRICO DO FUTEBOL BRASILEIRO

Santos, década de 1940. O Ulrico Ursa, campo da AA Portuguesa divide com a Santa Casa um enorme espaço ainda desabitado.

Santos, 20 de novembro de 2017. No entroncamento dos canais 1 e 2, havia um estádio iluminado, em festa, cujo brilho emanou para toda a cidade. E não era para menos, afinal, a Associação Atlética Portuguesa, a Briosa Santista, estava festejando sua rica história centenária. O verde e vermelho, assim, pintavam os céus da cidade. Eram as cores contagiantes de uma agremiação cuja trajetória orgulhou o povo santista, mesmo àqueles que não inclinam sua paixão futebolística de forma prioritária à equipe de Pinheiro Machado. Por outro lado, praticamente todos os apaixonados pelo esporte bretão, na cidade santista, têm na “Briosa” um enorme respeito, quase como um segundo time do coração. 

A Associação Atlética Portuguesa nasceu no dia 20 de novembro de 1917, formada pelas mãos de 37 portugueses aficcionados por esporte e suas tradições culturais, da saudosa terra lusitana. E não poderia deixar de ser numa cidade considerada “a mais portuguesa do mundo” fora do Velho Continente europeu.

A maior parte dos fundadores trabalhava na Pedreira do Jabaquara (ou do Contorno), de onde saía a matéria prima para o aterramento de boa parte do cais do porto de Santos. Praticamente todos eles eram “canteiros” (profissionais especializados em  no ofício de talhar as rochas), e praticantes natos do futebol que já existia na cidade. O maior sonho do grupo era criar uma agremiação que pudesse organizar os jogos da turma, bem como outros eventos em homenagem a Portugal. E a deferência à terra lusa surgiu logo de cara no próprio nome do clube: Associação Atlética Portuguesa.

Pedreira do Contorno, no Jabaquara, onde eram extraídas as pedras para o aterramento do Cais de Outeirinhos. Os trabalhadores portugueses deste local foram os fundadores da AA. Portuguesa.

Clube oficialmente criado, a missão seguinte foi encontrar um terreno onde pudessem criar um campo para os jogos. Entre os lugares procurados, havia um especial, situado nas margens da avenida Pinheiro Machado, junto à linha férrea das Docas e quase em frente ao Morro dos Lima. O problema é que o lugar estava repleto de pedras soltas, que eram restos do prolongamento do morro do Contorno. Porém, o que poderia ser visto como um problema irresolúvel, acabou não sendo para os habilidosos canteiros portugueses. Assim, em menos de três meses, utilizando-se das horas vagas, eles limparam complemente o terreno e abriram espaço para que o campo, enfim, ganhasse uma cara. De tal forma, em 17 de fevereiro de 1918, acontecia o primeiro treino no sítio que viria a abrigar a vida da futura “Briosa”.

Rapidamente alguns dos membros do clube tiveram a ideia de instalar pequenas tabuleta às margens do campo, ostentando o nome do novo clube santista. A escolha das cores foi simples, eram as de Portugal. A criação do escudo também não demandou muito tempo e ideias. No centro do brasão do clube foi inserida a Cruz de Malta e as letras AAP. Pronto, a AA Portuguesa, enfim, era um clube de verdade, e contava até com sede administrativa, situada na Rua do Rosário (atual João Pessoa, 27).

O início do futebol e a luta pelo sonho de ter um estádio

Os três primeiros anos de vida futebolística da Portuguesa foram só por lazer. Até que, em 1920, os canteiros eram convidados a levar o clube para disputar o Campeonato Santista de Futebol, porém na Segunda Divisão. Convite imediatamente aceito, a novata surpreendeu a todos e sagrou-se campeã. E lá foi a Briosa, no ano seguinte, direto para a Primeira Divisão santista.

Com toda a moral conquistada pelas vitórias, os portugueses perceberam que era necessário cuidar melhor do campo. Foi aí que a Portuguesa teve sua história cruzada com a vida e obra do engenheiro Ulrico Mursa, uma personalidade de algo gabarito do quadro de funcionários da Companhia Docas de Santos, um participante direto da construção do porto, atuante desde o final do Século 19.

Mursa comprou a “briga” dos canteiros da Pedreira do Contorno e os ajudou a obter todas as autorizações para a doação do terreno, que pertencia justamente à Companhia Docas. A partir daí, uma verdadeira metamorfose tomou conta do espaço. O terreno foi cercado, o gramado replantado, uma arquibancada de madeira construída, bem como um quiosque para autoridades e imprensa, bar, vestiários e sanitários. A transformação aconteceu em tempo recorde, tanto que já em 5 de dezembro de 1920, a Portuguesa Santista inaugurava com festa sua bela praça de Esportes. E nada mais justo do que batizá-la com o nome do homem que tanto se empenhou para que o sonho fosse realizado: o engenheiro Ulrico Mursa.

Assim, na edição do jornal A Tribuna, do dia 6 de dezembro, a inauguração mereceu destaque: “Atestando a grande simpatia que lhe merece, a novel Associação Atlética Portuguesa, a população desportiva de Santos que frequenta os campeonatos da Associação Santista, acorreu ontem, em massa, a assistir a inauguração da praça de esportes “Dr. Ulrico Mursa”, que aquela pujante coletividade levantou ao mesmo local do seu antigo campo.Bem mereceu esse apoio a Portuguesa. Bem digna dele se tornou pelo arrojo másculo que significa o erguimento de um campo o que inaugurou, sob o mais feliz auspício e com os aplausos calorosos e unânimes do nosso mundo desportivo. Nós, que bem sabemos quanto de sacrifício e tenacidade é necessário dispender para levar o bom termo empreendimento de tamanha monta, comungamos jubilosamente nos aplausos e nas simpatias que envolvem a Portuguesa”.

A imprensa, destarte, evidenciou o caráter da luta e dos sacrifícios que os membros da agremiação, com o importante auxílio do engenheiro Ulrico Mursa, empreenderam para que o clube concretizasse o sonho de ter seu próprio estádio. 

A Portuguesa Santista construiu a primeira arquibancada de concreto da América Latina, inaugurada em 1932, com casa cheia.

A Briosa e o Primeiro estádio com arquibancada de concreto da América Latina

O mesmo brio demonstrado para o alcance do objetivo de possuir um campo próprio era visto também dentro das quatro linhas do gramado futebolístico. A garra da Portuguesa, com o tempo, a levou a receber o apelido carinhoso de “Briosa”.

O primeiro embate com o vizinho Santos Futebol Clube, já tido como uma agremiação mais estruturada, ficou marcada pela expectativa. A equipe de Pinheiro Machado causava certo burburinho na cidade, por conta de suas vitórias incontestáveis no certame local. Em 11 de março de 1923, enfim, ocorria a primeira partida entre os dois clubes santistas,  jogo que teve como palco o Estádio Ulrico Mursa. A anfitriã, a Portuguesa, venceu a partida por 1×0, gol marcado por Borracha, aos 13 minutos do segundo tempo. Aquele jogo repercutiu em todo o estado de São Paulo, uma vez que foi cercado de sensacionalismo. Naquele mesmo ano, a Portuguesa sagrava-se campeã santista da Primeira Divisão, repetindo o feito depois em 1924, 1926 e 1927. O time da colônia portuguesa, enfim, se tornou a sensação da cidade portuária.

Em 1927, tendo a Portuguesa alcançado o auge de sua fama em Santos e até no Estado de São Paulo, a diretoria decidiu lançar algo ousado em termos estruturais para seu estádio, algo inédito a nível nacional. Era assentada, no dia 20 de novembro, aniversário de 10 anos do clube, a pedra fundamental da construção da primeira arquibancada de concreto da América Latina. O estádio Ulrico Mursa, enfim, escrevia seu nome na história do futebol brasileiro. A arquibancada foi concluída em 1932, inaugurada num dia de grande festa.

No embate português, venceu a Briosa

Notadamente famosa por conta das notas publicadas nos principais jornais esportivos do país, a Portuguesa Santista acabou sendo convidada, em 1928, a disputar uma partida amistosa contra o igualmente lusitano Vasco da Gama, clube do Rio de Janeiro.  A equipe carioca fora campeã da Primeira Divisão no Rio em 1923 e 1924 (neste ano foi invicto), e vice em 1926. Os cruzmaltinos eram considerados um time extremamente forte. Diante da fama do adversário, a Briosa não se intimidou. Tomou o trem em Santos e viajou até a capital federal via Central do Brasil. Chegou exausta a São Januário mas, no dia 4 de março, diante da lotação máxima no estádio rival, massacrou o time da casa por 5×3. No regresso a Santos, a Portuguesa foi recebida com imensa festa na estação do Valongo.

A incontestável vitória da Briosa ecoou por todo o Estado de São Paulo. Diante do burburinho, a LAF (Liga Amadora de Futebol), que havia sido criada em 1925 para contrapor a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), convidou o time santista para disputar o torneio estadual. Antes do início da temporada, a Liga promovia um torneio de um dia, chamado “Torneio Início”, com partidas de 20 minutos entre os inscritos no campeonato. De forma surpreendente, a novata, que era a Portuguesa Santista, levou a melhor em todas as partidas e faturou o primeiro prêmio. Mais um orgulho para o time do litoral.

Estádio Ulrico Mursa havia inaugurado seu sistema de iluminação em 1938, mas teve que se desfazer do mesmo em 1940. Depois de muita luta, em 1958, após uma bem sucedida campanha de arrecadação de fundos, chamada “Campanha do Coração em Prol da Iluminação”, a Portuguesa conseguiu mandar construir as torres de cimento armado.

Time iluminado

Quando completou 20 anos de existência, a Portuguesa Santista podia se gabar por ser uma agremiação respeitada. Tinha estádio, jogava em torneios da elite do futebol e era convidada para disputas de amistosos nacionais e internacionais. Estava mais do que na hora de ver seu estádio avançar e ganhar iluminação, para que pudesse promover jogos noturnos, a exemplo do Santos FC, que havia inaugurado a iluminação em Vila Belmiro em março de 1931.

Assim, a diretoria, para angariar os recursos necessários para a melhoria, criou uma campanha na cidade intitulada “Vagalume”. A ideia era instalar em Ulrico Mursa quatro torres de iluminação com 20 projetores cada, dotadas com 14 lâmpadas de 1.500 watts seis lâmpadas de 1.000 watts. Quando inaugurou o sistema, com grande festa, em 23 de outubro de 1938, o sistema do estádio da Briosa era tido como o mais moderno do país.

Fundadora da Federação Paulista de Futebol

A Briosa vinha de bons campeonatos da LAF, quando a entidade resolveu encerrar suas atividades, para dar lugar à Federação Paulista de Futebol (FPF). Todos os clubes que disputavam a Liga Amadora foram alçados à condição de fundadores da nova entidade. Junto com a Portuguesa Santista, estavam o Comercial (de São Paulo), o Corinthians, O Hespanha (Jabaquara, de Santos), o Juventus, o Palestra Itália (Palmeiras), a Portuguesa de Desportos (de São Paulo), o Santos, o São Paulo FC, o São Paulo Railway (Nacional, de São Paulo) e o Ypiranga (de São Paulo). Por este fato, o distintivo da Portuguesa Santista está até hoje na porta de entrada da FPF, ao lado dos clubes fundadores.

Crise e iluminação retirada

Nos anos 1940, tempos difíceis no mundo por conta da Segunda Grande Guerra Mundial, a Portuguesa perde suas torres de iluminação. Elas foram retiradas e vendidas. Somente em 1958 é que o estádio voltaria a ter esperanças para se tornar iluminado novamente, com a criação da “Campanha do Coração em Prol da Iluminação”, ocasião em que foram construídas as torres de cimento armado.

Ulrico Mursa nos anos 1940. Características internas praticamente ainda são as mesmas.

A Fita Azul

Em 1959, excursionando pela África, no período de 16 de abril a 28 de maio, a Portuguesa Santista fez história, conquistando 15 vitórias em 15 jogos. Por mais que pareça que os times africanos não possuíam tradição no esporte, basta dizer que equipes famosas como o Benfica, Porto e Sporting, de Portugal, além do Bolton, da Inglaterra, e o Dínamo, da extinta Tchecoslováquia, também promoveram excursões pela África sem ter o mesmo sucesso da Briosa, pois acabaram sofrendo derrotas.

Na volta pra casa, a Portuguesa foi ovacionada pelos santistas, orgulhosos do feito da sua “Briosa”. Uma multidão tomou as ruas para ver o time, que desfilou em um carro de bombeiros. Foi um momento inesquecível, tanto para os jogadores, que foram responsáveis pela conquista, quanto para a Portuguesa Santista, que ganhou mais destaque no futebol brasileiro, ostentando então a cobiçada “Fita Azul” de 1959.

O título havia sido criado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos, atual CBF) para homenagear as equipes que voltavam invictas de excursões ao exterior. Essa honra só foi dada ao Corinthians, Coritiba, Caxias, Bangu, São Paulo, Santos, Vasco da Gama, Portuguesa de Desportos e ao Santa Cruz.

O menino Edson Arantes, o Pelé, em agosto de 1958, jogando no Estádio Ulrico Mursa. O atleta retornava da Copa da Suécia, dois meses antes, como a grande estrela do Mundial. De certa forma, o campo da Portuguesa Santista era como uma segunda casa para o Rei do Futebol.

Expansão do clube

Em 1971, a Portuguesa Santista obtinha a cessão em comodato, junto à Companhia Docas de Santos, de um amplo terreno ao lado do estádio. Foi a grande oportunidade para o clube ampliar sua área social. Quatro anos depois, a diretoria iniciou o trabalho para a construção de uma piscina olímpica, obra orçada em quase Cr$ 1 milhão (o equivalente a R$ 6 milhões atuais), concluído em 1983. O Conjunto Poliesportivo, que levaria o nome de José Augusto Alves, o presidente que obteve o terreno junto às Docas, incluía também uma piscina infantil, playground, quiosques com churrasqueira, academia de ginástica, vestiários, quadra de malha, salão de jogos, campo de futebol society, quadras de tênis e tamboréu. O salão de festas foi adequado para se tornar um pequeno ginásio, onde passaram a ser realizadas, além das festas sociais, atividades como futebol de salão, patinação artística, box e futebol de mesa.

Altos e baixos, mas seguindo a tradição

Durante os anos 1960 e 1970, a Briosa viveu verdadeiras gangorras em sua posição no futebol. Havia temporadas inesquecíveis e outras um tanto quanto dignas de serem apagadas, além de mais uma excursão pelo exterior onde encheu de orgulho os brasileiros. A campanha fora do país aconteceu em 1975. Foram 19 partidas em países como Romênia, Kwait, Argélia, Espanha, Tunísia, Nigéria, Costa do Marfim e Senegal. A Briosa somou nove vitórias, seis empates e quatro derrotas. Não foi uma campanha como a que deu à Portuguesa Santista a Fita Azul, mas repercutiu positivamente em todo o Brasil. 

Nas décadas seguintes, até os dias atuais, o clube manteve sua tradição no futebol, aguerrido, surpreendendo em alguns momentos, como em 2003, quando a Briosa chegou à terceira posição no badalado Campeonato Paulista, ficando à frente de Santos e Palmeiras.

Estádio e Shopping

No final de 2016, às vésperas de se tornar centenário, o clube recebeu uma proposta para modernizar o Estádio Ulrico Mursa, enviado pelo Grupo Mendes. O projeto previa a construção de uma arena moderna integrada a um Shopping Center. Apesar de aprovada de forma unânime pela diretoria, a ideia não vingou, o que acabou preservando as características originais do estádio, o 9º mais antigo do país, o 2º mais antigo do Estado de São Paulo, o 1º a ostentar uma arquibancada de concreto na América do Sul.

Proposta do Grupo Mendes para a AA Portuguesa, apresentado em 2016. Ideia era construir um shopping com 22 mil metros quadrados de área construída. O campo de futebol e o estádio novo seriam acessados no primeiro andar.

A forma atual do Ulrico Mursa, conservado com características arquitetônicas praticamente originais o torna diferente, único, para a história do futebol brasileiro. É como uma peça de museu, que pode ser contemplada a ponto de fazer seu visitante ter a sensação de uma viagem ao passado, aos tempos do futebol romântico, amador. A arquibancada de concreto armado, a primeira da América do Sul, é a grande estrela deste conjunto patrimonial, que deve ser conservada como uma joia rara que é, tanto quanto uma igreja barroca, um prédio gótico do início do século 20 ou um edifício artdecó dos anos 1950. Santos, com tanta riqueza arquitetônica histórica não pode abrir mão deste tesouro chamado Estádio Ulrico Mursa.

Cenas de um jogo entre a Portuguesa Santista e a Sociedade Esportiva Palmeiras, nos anos 1950.

Dirigentes da Companhia Docas, no início do Século 20. O engenheiro Eurico Mursa é o último da esquerda para direita.

Logomarca do Centenário do Estádio Ulrico Mursa, celebrado em 2020.