SALÃO CAMONIANO – AMBIENTE QUE PULSA HISTÓRIA E LITERATURA

Espaço nobre do Centro Real Português permite ao visitante uma experiência única

Os olhos do visitante percorrem, deslumbrados, cada detalhe da magistral sala de aspecto renascentista. Mobiliário, piso, paredes, teto… tudo, absolutamente tudo, é encantador, hipnotizante, de tirar o fôlego. O ambiente exala arte pura, visual e literária, sem falar da arquitetura que lhe emoldura, plenamente singular. O que dizer deste prédio incomum que destoa ante à urbe monótona que o cerca? É nessas horas que as palavras fogem da mente, diante da perplexidade por notar que o espaço quase sempre está vazio quando, ao contrário, deveria estar sendo frequentado e admirado por dezenas, centenas, milhares de pessoas, daqui e de fora da nossa cidade. Afinal, essa beleza rara, estivesse na Europa, seria tratada como um troféu patrimonial privilegiado, e estaria sendo usufruído com o valor que merece.

Falamos, pois, do imponente Salão Camoniano, o suntuoso espaço de bailes e eventos do Centro Real Português, entidade que, desde o ano de 1900, valoriza o Centro Histórico de Santos pela pujança de seu estilo arquitetônico raro, neomanuelino (só existem outros dois exemplares no Brasil*) e de seus espaços internos únicos. O ambiente fascinou os santistas desde sua inauguração, mas só foi batizado com o nome “Camoniano” apenas dez anos depois, em razão da inserção decorativa inspirada em passagens importantes contidas na mais importante obra literária portuguesa de todos os tempos: Os Lusíadas, do poeta Luiz de Camões.

O teto do Salão Camoniano é, assim, como um sumário visual artístico do famoso livro lusitano escrito e publicado por Camões no Século 16, inspirado nas grandes obras clássicas “Odisseia”, de Homero; e a “Eneida”, de Virgílio. “Os Lusíadas” narra, em forma de poesia épica, as conquistas do povo português na época das grandes navegações.

Os autores das pinturas do forro, todas feitas à óleo, foram os espanhóis Antônio Fernandez e João Bernils, ambos contratados por Antônio Pereira de Carvalho, sócio benemérito do Centro Real Português. O trabalho se iniciou em 1909 e levou pouco mais de um ano para ser concluído. Ao final, o magnífico resultado valeu a espera. Todo o teto do salão de bailes do Centro Real Português se transformou, enfim, em uma autêntica tela poética.

Imagem central representa o Canto IX, Estância XLV (Canto 9, Estância 45). Pintura de Antônio Fernandes, teto do Salão Camoniano.

Os Lusíadas no teto

A sala como um todo chama a atenção. Nas paredes, quadros enormes, emoldurados por verdadeiras peças de arte entalhada, dão o tom aristocrático ao ambiente. Destaques para o retrato do primeiro presidente do Centro Real Português, Manoel Homem de Bittencourt, pintado em 1887; o quadro “A Canhoneira Pátria”, pintado por Benedicto Calixto em 1905; e as várias telas assinadas por Antônio Fernandes, como “A Fundação de Portugal e a Aclamação do Rei Dom Afonso Henriques”, “Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil” e a “Restauração de Portugal e Morte de Miguel Vasconcelos”. Não se pode desprezar também, e isso é tarefa impossível, a presença de um mobiliário especialmente construído para a recepção ao Rei de Portugal D. Carlos, que ocorreria em abril de 1908, não fosse ele assassinado em 1º de fevereiro daquele ano. Contudo, e sem sombra de dúvida, é no teto que está a joia da coroa. Olhando para cima, o visitante entra numa espécie de viagem visual literária, mergulhando nos Lusíadas e suas principais passagens. Há referências aos Cantos I (estâncias 10 e 33); II (estância 101); VII (estância 75) e IX (estâncias 50, 65 e 84). Os ornamentos mostram a interação de Vasco da Gama na sua viagem pela costa africana até a Índia e a interferência dos Deuses da Mitologia Grega, como Vênus, Baco e Zeus, ao longo da história. Basicamente, a obra “Os Lusíadas” retrata a viagem lusitana às Índias e exalta as glórias do povo português, comandado por seus reis, por espalhar a fé cristã pelo mundo.

Por toda essa carga poética e pela beleza que salta aos olhos de quem tem a oportunidade de entrar no Centro Real Português, definitivamente visitar o Salão Camoniano é viver uma experiência única, que merece sua atenção.

TRECHOS RETRATADOS NO FORRO CAMONIANO

Os deuses do Olimpo se reúnem, em Concílio convocado por Júpiter, para decidirem se os Portugueses deverão chegar à Índia. Pintura de Antônio Fernandes, teto do Salão Camoniano. Canto I, Estância XXXIII.

CANTO I 

Camões indica o assunto global da obra, pede inspiração às Ninfas do Tejo e dedica o poema ao rei D. Sebastião. Na estrofe 19 inicia a narração da viagem de Vasco da Gama, referindo brevemente que a armada já se encontra no Oceano Índico, quando os deuses do Olimpo se reúnem, em Concílio convocado por Júpiter, para decidirem se os Portugueses deverão chegar á Índia. Apesar da oposição de Baco e graças à intervenção de Vénus e Marte, a decisão é favorável aos Portugueses que, entretanto, chegam à Ilha de Moçambique. Ali, Baco prepara-lhes várias ciladas que culminam no fornecimento de um piloto por ele industriado a conduzi-los ao perigoso porto de Duíloa. Vênus intervém, afastando a armada do perigo e fazendo-a retomar o caminho certo ate Mombaça. No final do Canto, o Poeta reflete acerca dos perigos que em toda a parte espreitam o homem. No Salão Camoniano estão retratadas em imagens, as estâncias X (dez) e XXXIII (trinta e três).

Estância X 

Vereis amor da pátria, não movido
De prêmio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prêmio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de til gente.

Estância XXXIII 

Sustentava contra ele Vênus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga tão amada sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela,
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.

Vasco da Gama é recepcionado com festa pela Rei de Melinde, após safar-se de uma armadilha planejada contra ele por Baco. Pintura de Antônio Fernandes, teto do Salão Camoniano. Canto II, Estância CI.

CANTO II

O rei de Mombaça, influenciado por Baco, convida os portugueses a entrar no porto para os destruir. Vasco da Gama, ignorando as intenções, aceita o convite pois os dois condenados que mandara à terra colher informações tinham regressado com a boa notícia de ser aquela uma terra de cristãos. Na verdade, tinham sido enganados por Baco, que estava disfarçado de sacerdote. Vênus, ajudada pelas Nereidas, impede a armada de entrar no porto de Mombaça. Os emissários do rei e o falso piloto, julgando terem sido descobertos, põem-se em fuga. Vasco da gama, apercebendo-se do perigo que correra, dirige uma prece a Deus. Vênus comove-se e vai pedir a Júpiter que proteja os portugueses, ao que ele atende e, para consolar, profetiza futuras glórias aos Lusitanos. Na sequência do pedido, Mercúrio é enviado a terra e, em sonhos, indica a Vasco da Gama o caminho até Melinde onde, entretanto, lhe preparam uma calorosa recepção. A chegada dos Portugueses a Melinde é efetivamente saudada com festejos e o Rei daquela cidade visita a armada, pedindo a Vasco da Gama que lhe conte a história do seu país.

Estância CI 
Já no batel entrou do Capitão
O Rei, que nos seus braços o levava;
Ele coa cortesia, que a razão
(Por ser Rei) requeria, lhe falava.
C’umas mostras de espanto e admiração,
O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
Como quem em mui grande estima tinha
Gente que de tão longe à índia vinha.

Paulo da Gama (irmão mais velho de Vasco da Gama), explica ao Catual o significado dos símbolos das bandeiras portuguesas, contando-lhe episódios da História de Portugal nelas representados. Pintura de Antônio Fernandes, teto do Salão Camoniano. Canto VII, Estância LXXV.

CANTO VII

Paulo da Gama (irmão mais velho de Vasco da Gama), explica ao Catual o significado dos símbolos das bandeiras portuguesas, contando-lhe episódios da História de Portugal nelas representados. Baco intervém de novo contra os portugueses, aparecendo em sonhos a um sacerdote brâmane e instigando-o contra os navegadores através da informação de que vêm com o intuito de pilhagem. O Samorim interroga Vasco da Gama, que acaba por regressar às naus, mas é retido no caminho pelo Catual subornado, que apenas deixa partir os portugueses depois destes lhe entregarem as fazendas que traziam. O Poeta traça considerações sobre o vil poder do ouro.

 

Estância LXXV  
Pelo que vê pergunta; mas o Gama
Lhe pedia primeiro que se assente,
E que aquele deleite, que tanto ama
A seita Epicureia, experimente.
Dos espumantes vasos se derrama
O licor que Noé mostrara à gente:
Mas comer o Gentio não pretende,
Que a seita que seguia lho defende.

As ninfas, atingidas pelas flechas do cupido, recebem os portugueses na Ilha dos Amores. Pintura de Antônio Fernandes, teto do Salão Camoniano. Canto IX, Estâncias XLV, L e LXXXIV.

CANTO IX

Após vencerem algumas dificuldades, os Portugueses saem de Calicut, iniciando a viagem de regresso á Pátria. Vênus decide preparar uma recompensa para os marinheiros, fazendo-os chegar à Ilha dos Amores. Para isso, manda o seu filho Cupido desfechar setas sobre as Ninfas que, feridas de Amor e pela Deusa instruídas, receberão apaixonadas os Portugueses. A armada avista a Ilha dos Amores e, quanto os marinheiros desembarcam para caçar, vêem as Ninfas que se deixam perseguir e depois seduzir. Tétis explica a Vasco da Gama a razão daquele encontro, referindo as futuras glórias que lhe serão dadas a conhecer. Após a explicação da simbologia da Ilha, o Poeta termina, tecendo considerações sobre a fama de alcançar a Fama.  Na parte final do episódio o poeta reafirma os valores daqueles que podem ser recebidos na Ilha: a justiça, a coragem, o amor à pátria e a lealdade ao Rei. No Salão Camoniano estão retratadas em imagens, as estâncias XLV (45), L (50) e LXXXIV (84).

Estância XLV  
Vão-a buscar, e mandam adiante,
Que celebrando vá com tuba clara
Os louvores da gente navegante,
Mais do que nunca os d’outrem celebrara.
Já murmurando a Fama penetrante
Pelas fundas cavernas se espalhara:
Fala verdade, havida por verdade,
Que junto a Deusa traz Credulidade.

Estância L  
Já todo o belo coro se aparelha
Das Nereidas, e junto caminhava
Em coreias gentis, usança velha,
Para a ilha, a que Vênus as guiava.
Ali a formosa Deusa lhe aconselha
O que ela fez mil vezes, quando amava.
Elas, que vão do doce amor vencidas,
Estão a seu conselho oferecidas.

Estância LXXXIV  
Desta arte enfim conformes já as formosas
Ninfas com os seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro, e de ouro, e flores abundantes.
As mãos alvas lhes davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia
Em vida e morte, de honra e alegria.

Imagem representa o Canto IX, Estância L (Canto 9, Estância 50). Pintura de Antônio Fernandes, teto do Salão Camoniano.

Imagem representa o Canto I, Estância X (Canto 1, Estância 10). Pintura de Antônio Fernandes, teto do Salão Camoniano.