JOSÉ FERREIRA, DE SUBSTITUTO QUEBRA-GALHO A CAMPEÃO NACIONAL DE REMO

 

Foto publicada na Revista Flamma (novembro de 1922)

O jovem santista quebrou todos os prognósticos do Campeonato Brasileiro de Remo em 1921 e superou de forma surpreendente os maiores nomes do esporte

No início do século XX, o remo era considerado o “Esporte das Multidões”, preferência nacional em vários cantos do país. E, todos os anos, desde 1890, os principais nomes do badalado desporto náutico se reuniam na capital federal, o Rio de Janeiro, para consagrar os seus maiores ídolos. E, apesar de terem sido considerados os precursores do remo no Brasil, tanto santistas, quanto porto-alegrenses, não conseguiam superar a força e habilidade dos remadores da Guanabara, que se revezavam nos principais postos do pódio nacional, em todas as categorias. Assim, ano a ano, os atletas dos clubes de regatas Vasco da Gama, Gragoatá, Botafogo, Flamengo e Fluminense, todos do Rio, dominavam a cena do Nacional e içavam suas bandeiras no poste mais alto fincado na área de provas da Enseada de Botafogo.

Enfim, tirar cariocas e fluminenses do pedestal era o sonho de consumo dos forasteiros, principalmente para calar a boca da imprensa carioca, que via de regra cutucava os visitantes. “Alguém saberá dizer se os paulistas estiveram na raia do brasileiro?…” era um exemplo de chamada que estampava as manchetes no Rio.

As provas do Brasileiro de Remo eram tão importantes e badaladas que, quando aconteciam, deixavam os campos de futebol da cidade maravilhosa praticamente desertos. As torcidas dos clubes abandonavam a bola e corriam para a Enseada de Botafogo a fim de prestigiarem seus ídolos náuticos. Multidões costumavam se aglomerar às margens da Baia de Guanabara para assistirem mais de perto o embate entre os maiores remadores do Brasil, bem como à coroação do grande campeão, que normalmente era algum carioca. Os prêmios mais importantes do campeonato eram entregues pelo presidente da República em pessoa.

Apesar de gaúchos, paulistas e catarinenses tentarem, com toda as suas forças, fazer parte da galeria dos grandes heróis do remo nacional, quase sempre “morriam na praia”. Houve um campeonato que só deu carioca, de ponta a ponta, fazendo os 1º, 2º, 3º, 4º e 5º lugares. Na ocasião, a imprensa fluminense se divertiu e zombeteou a turma de fora, em especial os paulistas, tidos como rivais em outros aspectos da vida nacional “Alguém saberá dizer se os paulistas estiveram na raia do brasileiro?”, repetiam a manchete, mais uma vez.

O intruso inesperado

Tudo ia era um “mar de rosas” para os cariocas, até que veio o Campeonato Nacional de 1921, disputado no final de outubro. Naquele ano, como sempre, figuravam como favoritos os remadores dos clubes do Rio, como Carlito Rocha, Abrão Saliture, Arnaldo Voight e Claudionor Provenzano. Tudo levava a crer que essa turma paparia facilmente todos os canecos, afinal eram os craques do remo brasileiro à época. Mas, o que ninguém esperava é o que o destino reservaria um estraga-prazeres no caminho dos soberbos guanabarinos. E a surpresa viria na condição mais inesperada possível.

A delegação paulista para aquele certame já tinha seus nomes marcados: Paulo Gomes, Delfo Betti, Estevão Shata, José Carlos Kruel, Luiz Fenandini, Damazio dos Santos e José Ferreira. Este último era o mais jovem do grupo. Tinha apenas 19 anos de idade, o caçula do selecionado bandeirante, e uma surpresa inesperada, pois estava ali na condição de substituto, um quebra-galho, de última hora de um dos grandes titulares da equipe, que acabou vetado por ter caído doente dias antes. Ferreira, jovem atleta do Clube de Regatas Vasco da Gama, de Santos, era tido como um remador altamente potencial, e havia sagrado-se como uma das grandes revelações do Torneio Paulista, ocorrido meses antes nas mansas águas do Valongo. A imprensa paulista apostava suas fichas no garoto, alegando que tinha todos os requisitos para se tornar uma grande estrela do remo na categoria “um remador”, ou “single skif”, tida como a mais importante do esporte. Nela, um único remador tinha a missão de conduzir por 1000 metros, no menor tempo possível, uma embarcação de 14 quilos e 8,20 metros de comprimento.

Boquiabertos

O ambiente era de festa. Depois de várias provas disputadas, em diversas categorias, com um desfile carioca, como de praxe, veio finalmente a decisão da principal categoria do torneio. Não houve pré-classificatório. A primeira prova era também a decisiva. O povo gritava extasiado os nomes de seus ídolos, que não mediam esforços para vencer na raia botafoguense. De repente, um tiro marcou a largada. Os favoritos dispararam e ficaram tão focados um nos outros, que mal perceberam que um barco estranho se aproximara inesperadamente, lépido como uma gaivota durante um rasante sobre a água do mar.

Os guanabarinos, então, testemunharam, boquiabertos, o barco intruso se igualar aos grandes, à altura dos 1.700 metros. E mais incrédulos ainda quando viram o mesmo intrometido deixá-los para trás nos dez metros restantes, ganhando-a por bico de proa.

A multidão, atônita, indagava-se sobre quem poderia estar no barco campeão. “Teriam o Voight, o Saliture ou Provenzano corrido em outra embarcação que não a deles?”, era o que corria à boca solta. A resposta, no entanto, veio rápida. Ao longe, no pavilhão dos juízes, os presentes viram ser içada pela 1ª vez em 19 anos de torneio, a flâmula do Estado de São Paulo. Descrentes da autêntica “zebra”, só foi depois de algum tempo é que, então, verificaram no programa o nome do barco e de seu condutor: Cananor, de José Ferreira.

Herói Santista recebido com festa

Quando a Cananor rumou para o varandim situado às margens da Enseada de Botafogo, Ferreira desceu à terra para receber das mãos do então presidente da República, Epitácio Pessoa, a coroa de louros. Em seguida, as sirenas das lanchas e das enormes barcas de Niterói, fundeadas no local, misturaram-se aos aplausos e aos gritos de entusiasmo que aquele inesperado triunfo provocara. O herói paulista era o jovem santista José Ferreira, do C.R. Vasco da Gama.

Da noite para o dia, Ferreira virou herói. Quando o atleta chegou à Estação do Valongo, dois dias depois, foi carregado em triunfo pela multidão pelas ruas da cidade até a Associação Comercial de Santos, que abrigava a sede da Federação Paulista das Sociedades do Remo. Depois das homenagens protocolares, Ferreira e seus admiradores foram para o Café Paulista, de proprietário de Francisco Augusto Real. Além de confraternizar, a ideia era juntar um dinheiro para presentear o novo herói da cidade com uma medalha de ouro.

Sorte de principiante? Que nada!

Enquanto os santistas faziam a festa por terem quebrado o tabu histórico do remo nacional, os cariocas, ainda inconformados com a derrota, alegaram que o feito de José Ferreira foi possível graças à máxima da “sorte de principiante”. O santista respondeu no mar, vencendo no ano seguinte, em 1922, o Brasileiro, que homenageou os 100 anos da Independência do Brasil e ainda garfou novamente em 1924, sagrando-se tricampeão brasileiro, deixando definitivamente sua marca no panteão dos grandes nomes dos esportes aquáticos nacional.