Caravela estilizada que rememora 500 anos dos Descobrimentos Portugueses perdeu seu rastro de navegação

Monumento, instalado nos jardins do entorno do Aquário, ostentava um rastro de navegação que oferecia uma linguagem estética única.

Monumento produzido em comemoração aos 500 anos dos descobrimentos portugueses foi inaugurado pelo primeiro-ministro de Portugal, Cavaco Silva. É a única obra da cidade inaugurada por um chefe de Estado estrangeiro.

Santos, julho de 1987. Tudo começou com um concurso promovido pelo Conselho da Comunidade da Área de Jurisdição do Consulado de Portugal em Santos, que premiaria com uma viagem a Lisboa quem desenvolvesse um projeto para a revitalização da praça existente na confluência da avenida Washington Luís com a Rua Barão de Paranapiacaba. A ideia era transformar aquele espaço num pedacinho de Portugal. Dez trabalhos foram apresentados, mas o vencedor foi o assinado pela arquiteta Regina Maria Lourenço Adegas, que bolou, em parceria com o designer Ricardo Campos Mota, o Rica, uma caravela de concreto, de 6 metros de altura. 

O monumento de concreto possui 6 metros de altura e inclinação de 10 graus.

Ocorre que a proposta do local acabou sendo alterada alguns meses depois. O então prefeito Oswaldo Justo, em razão das proximidades dos 500 anos Descobrimentos Portugueses, empolgado com a obra, ofereceu um espaço na região da orla praiana, nas proximidades do Aquário Municipal. A ideia era correr para inaugurar o monumento nas festividades do dia 10 de junho (Dia de Portugal).

A Prefeitura conseguiu buscar a adesão da empresa Ventura Empreendimentos Imobiliários, que se ofereceu para fornecer mão-de-obra e material para viabilizar o projeto. Além do aspecto histórico, o monumento tinha potencial para se tornar mais um atrativo turístico.

Ricardo Campos Mota acompanhou diretamente cada etapa do trabalho de construção da caravela, no galpão da empresa Retroporto, do Grupo Dickinson. A forma foi montada sem muitas dificuldades. Um aspecto que empolgava o autor da obra era o piso feito em cerâmica vermelha, de cerca de 30 metros, que contornaria a peça principal. Rica, com a colaboração arquiteto Antonio Roberto Simões Ventríglia, sugeriu que tal piso, elaborado para dar a ideia do rastro da caravela no mar, atuasse como um complemento da escultura, figurando não somente como uma simples base, mas um pedaço importante da obra de arte. “Será como uma ilustração no chão”, disse Rica na época.

A caravela foi construída em concreto aparente, com linhas muito suaves e ostentava velas estilizadas. Com 6 metros de altura, a peça foi levemente inclinada (em 10 graus em relação ao piso).

Susto

No dia 25 de abril de 1988, uma segunda-feira, finalmente a peça foi enviada para seu lugar definitivo. Foi necessário o uso de um caminhão especial da Codesp e um guindaste “Bantan” com capacidade de levantar 14 toneladas (a peça tinha 3.000 quilos). A operação de içamento para os jardins da praia começou cerca de 11 horas. Dez minutos depois, um susto. Durante a operação, uma das cintas de amarração arrebentou, provocando a queda da enorme escultura sobre o gramado. O acidente fez com que a peça de concreto passasse por sua primeira prova de resistência. E passou. E ninguém se machucou.

Inaugurado pelo primeiro-ministro de Portugal, Cavaco Silva

A obra “Caravela” foi solenemente inaugurada no sábado, dia 11 de junho, embaixo de uma insistente chuva, pelo então primeiro-ministro de Portugal, Aníbal Cavaco Silva (1985/1995), diante de mais de duas mil pessoas, que compareceram nas imediações do Aquário Municipal para celebrar a grande obra de exaltação ao povo lusitano. A “Caravela” foi o único monumento da cidade inaugurado por um chefe de Estado estrangeiro na história de Santos.

Prêmio para o artista e a atual situação do monumento

Ricardo Mota e Regina Adegas receberam como prêmio, pelo concurso, uma passagem de ida e volta a Lisboa. Rica aproveitou sua ida à Europa para fazer cursos e trabalhos na área do design e artes. De Portugal, mudou-se para Torino (Torino), onde morou por 6 anos.

Praticamente vinte anos depois, a Caravela, já integrada à paisagem da Ponta da Praia, perdeu um importante pedaço da obra, além da placa de bronze, que foi furtada. Em uma das obras de manutenção dos jardins envoltórios do Aquário, a Secretaria de Obras acabou retirando boa parte dos azulejos que compunham o “rastro” da caravela, descaracterizando a estética do monumento. É como se a caravela deixasse de navegar. A Prefeitura está avaliando a recolocação dos azulejos, de tal modo que a obra retome o brilho original que marcou sua origem há 35 anos. Rica deve acompanhar o processo de restauração daquele local, resgatando este importante patrimônio artístico santista.

O primeiro-ministro de Portugal, Cavaco Silva, discursa no Centro Real Português, apenas duas horas depois de ter inaugurado o monumento na Ponta da Praia. 

Ricardo Mota e Regina Adegas receberam como prêmio, pelo concurso, uma passagem de ida e volta a Lisboa. Rica aproveitou sua ida à Europa para fazer cursos. De Portugal, mudou-se para Torino (Torino), onde morou por 6 anos.

 

A Caravela com o seu rastro, brilhando ao por-do-sol num belo fim de tarde. Piso era parte indispensável na estética da obra.

Imagens da confecção e instalação da obra.

Imagem panorâmica do local da caravela, em foto tirada em maio de 2022.

Imagem panorâmica do local da caravela, em foto tirada em maio de 2022. Ausência dos azulejos retirou parte da beleza da obra.