
Santos, 11 de janeiro de 1987. A tarde de verão pareceu ter ardido mais do que o habitual quando a Avenida Ana Costa foi interditada e entregue ao ronco das motocicletas, como se a cidade houvesse permitido que a juventude escrevesse, sobre o asfalto quente do Gonzaga, uma página inédita de sua história. Mais de vinte mil pessoas comprimiram-se ao longo da via, ocupando calçadas, muretas e cada fresta de sombra disponível, enquanto o mar, ali ao lado, assistiu silencioso ao que se tornaria o 1º Wheeling Moto de Santos 87. Promovido pela Revista Lazer e pelo Jornal de Santos, o evento assumiu contornos de espetáculo urbano, transformando uma das principais avenidas da cidade em arena aberta, onde o equilíbrio sobre uma roda foi celebrado como arte e desafio.
A juventude do Litoral compareceu em peso, misturada a moradores antigos e turistas curiosos, todos atraídos por aquela disputa que, até então, não possuía tradição formal no Brasil. O wheeling (o ato de empinar a motocicleta) já era prática conhecida nas ruas, mas naquele janeiro de 1987 começava a adquirir regras, notas e juízes. Qualquer moto pôde ter sido utilizada, desde que estivesse em boas condições mecânicas, e assim desfilaram Vespas, Mobylettes e máquinas mais potentes, provando que o talento do piloto sempre pesara mais do que a cilindrada.
A avenida transformada em pista
Às 16 horas, sob o comando do locutor Beto Zarif, da Cultura FM, a competição teve início ao som de muito rock. Vinte e um competidores dispuseram de um minuto para demonstrar coragem e domínio, enquanto quatro juízes, Lucas, preparador de motos; Gilmar Vidal, campeão paulista de velocidade na 125 cc; Fábio, diretor de promoção da Yamaha; e James, o Pamico, atribuíram notas de zero a dez. Avaliaram-se tempo de permanência sobre uma roda, dificuldade das manobras, estilo e criatividade.
As motos ergueram-se em ângulos próximos aos 90 graus, raspando placa e pára-lama no chão, como se desafiassem a própria gravidade. Houve manobras com garupa, de frente e de costas; o santista Wagner Peres, o Vaca, chegou a colocar os pés no guidão, arrancando aplausos e exclamações da multidão. A cada apresentação, a avenida vibrou como arquibancada viva, os aplausos misturados ao cheiro de combustível e maresia.

A disputa e os finalistas
Após a primeira fase, os dez melhores foram selecionados, mas a diferença mínima de meio ponto levou os juízes a promoverem nova bateria com os cinco mais bem colocados. Na decisão, cada finalista dispôs de dois minutos para nova exibição. Enquanto as notas eram apuradas, o público assistiu às apresentações do malabarista Éder, com sua bicicleta, e à equipe de bicicross da CicloNativa (Nenê, Fábio, Waldir e Wagner) que executaram saltos e aéreos de front e back side na rampa montada para o espetáculo.
O vencedor foi o paulista André Luiz Campos, de 17 anos, que utilizou uma Yamaha DTN 180 cc e impressionou ao privilegiar o controle e a precisão em baixa velocidade, recebendo troféu e prêmio de três mil cruzados. Em segundo lugar ficou Fábio Rolin, de 18 anos, também paulista, premiado com troféu e dois mil cruzados. O terceiro posto coube ao santista Wagner Peres, o Vaca, que levou troféu e mil cruzados. Maurício Santos, o Cejão, destacou-se ao raspar o pára-lama traseiro de uma CG a 90 graus por mais de dez metros, recebendo o prêmio de manobra mais ousada, enquanto João Carlos Ribeiro Júnior, o Juninho, foi apontado como piloto revelação ao empinar a moto com garupa, prancha de surf e até lendo um exemplar da Revista Lazer.
Apoio, organização e repercussão
A realização do evento contou com autorização da Prefeitura Municipal de Santos, então administrada pelo prefeito Oswaldo Justo, que permitiu a interdição da avenida. Ediney Camargo, presidente da Associação de Motociclismo de Santos, atuou como head judge e controlador da saída das motos, sinalizando com bandeira amarela. O patrocínio de Tiko Motos, Turbo Car, Mesquita Motos e Barulho dos Automóveis, além do apoio da Cultura FM, Lavasómoto, Toads e da própria Associação, garantiu a estrutura necessária para o êxito da prova.
O público participou intensamente, aplaudindo pilotos e, por vezes, vaiando juízes considerados rigorosos demais. Comentários posteriores mostraram aprovação majoritária. Luciano Salvetti Jr. avaliou a iniciativa como excelente novidade para a cidade, enquanto Isidoro Trigo ponderou sobre os benefícios ao turismo, ainda que manifestasse preocupação com a segurança. Fábio Rolin assegurou que possuía total controle da motocicleta, afirmando que riscos só existiriam em caso de invasão da pista.
Naquele verão de 1987, a Avenida Ana Costa pareceu ter pertencido às máquinas erguidas sobre uma roda e à ousadia juvenil que marcou época. O 1º Wheeling Moto de Santos inscreveu-se na memória esportiva santista como experiência pioneira, expectativa de continuidade e símbolo de um tempo em que a cidade permitiu que o asfalto se tornasse palco e que o equilíbrio fosse celebrado como espetáculo.
Da esquerda para a direita: Juninho, atleta revelação; Fábio Rolin, o vencedor, em duas DTs diferentes; e Xandi
Classificação geral
Primeira fase
1º Fábio Rolin – 40,0 pontos
2º André Magalhães – 39,0 pontos
3º Maurício Santos – 38,5 pontos
4º Marcos Castro – 38,0 pontos
5º Wagner Perez – 37,5 pontos
6º Alexandre Nunes – 37,0 pontos
Haroldo Rocha – 37,0 pontos
7º João Carlos Jr. – 36,5 pontos
8º Marcos Generoso – 36,0 pontos
9º Ivan Guimarães – 34,5 pontos
Fase final
1º André Magalhães – 39,5 pontos
2º Fábio Rolin – 38,5 pontos
3º Wagner Perez – 37,5 pontos
4º Maurício Santos – 37,0 pontos
4º Marcos Castro – 37,0 pontos
Kamikaze fez jus ao apelido: largou com velocidade, não chegou a completar uma volta na área e acabou quebrando o pé.