O Palácio do Gonzaga

O hotel que olhava o mar e o cassino que iluminava as noites santistas

Santos, 29 de novembro de 1928. Naquela tarde de primavera, quando o Gonzaga ainda guardava ares de bairro elegante em formação, abriu suas portas um edifício que mudaria para sempre o perfil da orla: o Atlântico Hotel. Erguido na esquina da Avenida Presidente Wilson com a Avenida Ana Costa, dominava a paisagem com seus cinco andares imponentes e suas duas fachadas — uma voltada inteiramente para o mar, outra para a principal avenida residencial da cidade. Ali, onde outrora existiram chácaras e terrenos esparsos, consolidava-se o centro balneário mais sofisticado de Santos.

O Atlântico não surgira isolado. Integrava um complexo pertencente à Companhia Atlântico Hotel Theatro Casino, que já mantinha, desde 1922, o Cassino Atlântico. Hotel, cassino e teatro funcionavam como um único organismo social, cultural e turístico. A alta elite frequentava o Parque Balneário, mas o Atlântico direcionara-se a um público mais amplo, menos aristocrático e mais diversificado — ainda elegante, ainda exigente, mas mais plural.

A construção fora confiada aos engenheiros Duarte & Cia., que conceberam um edifício moderno para os padrões da época. A laje de concreto protegia os andares superiores do calor excessivo do verão, permitindo que as aragens marinhas circulassem com generosidade. A reforma apresentada em 1941, celebrada em revista especializada, confirmava a larga visão de seus diretores: os ambientes haviam sido requalificados com esmero, sobretudo no cassino, dotando Santos de um dos mais atraentes e modernos estabelecimentos do gênero.

Ao atravessar o saguão de entrada, o visitante encontrava balcões de madeira nobre, colunas robustas e luminárias que pendiam do teto com elegância geométrica. O hall apresentava escadaria de linhas sóbrias, com corrimãos trabalhados e piso em xadrez que refletia a luz filtrada pelas amplas janelas. Corredores longos, iluminados por luminárias cilíndricas suspensas, conduziam aos salões, onde o silêncio era interrompido apenas pelo murmúrio de conversas discretas.

HALL DE ENTRADA DO HOTEL (REVISTA ACROPOLE 1941)

O hotel contava, conforme registros da época, entre 150 e 175 apartamentos, com capacidade para até 380 hóspedes. Dispunha de água quente e fria, telefones, banheiros privativos na maioria das unidades e acomodações adaptadas a casais, solteiros e famílias com crianças. Havia salões de leitura, de festas, de reuniões, de chá e até espaço destinado aos brinquedos infantis. A lavanderia a vapor atendia hóspedes e dependências internas, enquanto a instalação frigorífica garantia qualidade aos serviços de cozinha.

O salão de chá exibia cadeiras de vime e piso em padrão quadriculado, criando ambiente leve e acolhedor para as tardes à beira-mar. Já o salão de jantar impressionava pela amplitude: mesas cobertas por toalhas brancas alinhavam-se sob lustres delicados, prontas para receber famílias, viajantes e figuras de destaque que passavam por Santos. No American-Bar, preferido pelos apreciadores de bons aperitivos, a conversa fluía animada enquanto o balcão exibia bebidas importadas.

FACHADA DO HOTEL (REVISTA ACROPOLE 1941)

O Cassino Atlântico, em edifício anexo, revelava sofisticação ainda maior. A iluminação fria e indireta produzia efeito semelhante à luz solar difusa. Mesas de jogos alinhavam-se em amplo salão, sob teto elevado e paredes claras. Ventiladores metálicos, discretos, movimentavam o ar. Tapetes fornecidos pela Manufatura de Tapetes Santa Helena Ltda., espelhos da Casa Conrado Ltda., serviços de serralheria artística executados por Polizotto & Piccardi, pinturas realizadas por Zanesi & Fonseca e as decorações em gesso de Francisco Francescucci Filho compunham o conjunto requintado que a reforma da década de 1940 consolidara.

Em 1946, o “Grito do Carnaval da Vitória” incendiou o grill do cassino. Celebrava-se o fim da Segunda Guerra Mundial com a presença de Francisco Alves, o “Rei da Voz”, do Trio de Ouro e da Escola de Samba da Rádio Nacional. As noites foram descritas como as mais animadas que o Gonzaga conhecera.

ÁREA GASTRONÔMICA DO HOTEL (RESTAURANTE, AMERICAN BAR E SALA DE CHÁ) REVISTA ACRÓPOLE 1941

Durante o conflito mundial, o hotel servira, por períodos, como alojamento para soldados estrangeiros em trânsito. À noite, cortinas escuras cobriam as janelas para evitar qualquer sinal luminoso que pudesse orientar navegações inimigas. Os painéis de azulejo instalados naquele tempo sobreviveram às décadas e, mesmo após a restauração de 2005, permaneceram como parte do patrimônio tombado.

Na década de 1970, a especulação imobiliária impôs-lhe oito anos de silêncio. O edifício fechou as portas, sofreu danos e perdeu parte de suas características originais. Quando reabriu, já revitalizado, não era exatamente o mesmo — mas ainda conservava o espírito do antigo palácio à beira-mar.

INTERNAS DO CASSINO (REVISTA ACROPOLE 1941)

Em 2004 iniciou-se o processo de tombamento da fachada, do telhado, do hall, da portaria, do alpendre e dos painéis de azulejo. Em 2008, consolidou-se o reconhecimento como patrimônio material.

Quem hoje observa a fachada voltada para a Avenida Presidente Wilson talvez não imagine o brilho das noites no cassino, o tilintar de taças no salão de jantar, o som do piano ecoando entre as colunas, nem as tardes tranquilas no salão de chá com vista para o Atlântico. Mas houve um tempo em que o hotel olhava o mar como quem guardava segredos — e o Gonzaga, ainda jovem, aprendia ali o que significava elegância, modernidade e vida social à beira da praia.

E assim permaneceu na memória santista: não apenas como edifício, mas como cenário de encontros, celebrações e capítulos silenciosos da história da cidade.

PERSPECTIVA DA FACHADA – PROJETO DO CASSINO MODERNIZADO (ANOS 1940)

CASSINO E CORREDOR DO CASSINO (REVISTA ACRÓPOLE 1941)