imagem: Eduardo Dias Coelho aplica a primeira dose do antibiótico na pequena Benedita (A Tribuna)

 

Em outubro de 1944, Santos presenciou sua estreia na era dos antibióticos, quando a penicilina foi aplicada pela primeira vez na cidade para salvar a vida de uma criança, inaugurando um novo capítulo da medicina local.

Santos, segunda-feira, 9 de outubro de 1944. Já se aproximava o fim da tarde quando uma voz embargada atravessou a cidade, irradiada pelos microfones da Rádio Atlântica. Os ouvintes da popular emissora santista logo perceberam que não se tratava da fala ensaiada de um político nem do timbre reconhecível de um locutor da casa, mas da voz crua e trêmula de um pai sem recursos, que projetava seu pedido de socorro para além das paredes estreitas de uma morada modesta, situada na rua Visconde de Cairú, no bairro do Campo Grande. A filha, Benedita, de pouco mais de um ano de idade, estava ardendo em febre alta, prostrada por uma broncopneumonia que se agravara em meningite purulenta, e o médico que a atendera havia sido categórico: apenas a penicilina, um remédio novo e raríssimo, poderia oferecer alguma chance de sobrevivência. Até então, nenhum hospital ou clínica da cidade havia empregado aquele medicamento extraordinário, que apenas poucos meses antes começara a circular, após a liberação pelos órgãos oficiais de saúde.

O pai acreditava que a iniciativa da transmissão poderia surtir efeito. Afinal, lera, dias antes, nas páginas de A Tribuna, que uma mãe, viúva e tão aflita quanto ele, recorrera a expediente semelhante em uma importante emissora de rádio da capital e fora socorrida pela Legião Brasileira de Assistência, conseguindo, por fim, a tão desejada penicilina — a grande panaceia do momento.

E assim foi. O apelo, transmitido ao vivo, espalhou-se por salas, bares, farmácias e portarias, convertendo as ondas radiofônicas numa espécie de ponte entre a dor íntima de uma família e a consciência coletiva da cidade. O primeiro a atender ao chamado foi o médico Eduardo Dias Coelho, que prontamente se mobilizou diante da urgência do caso.

A penicilina como  esperança extrema

Até então, a penicilina era, em Santos, mais notícia do que realidade concreta. A maior parte da população tomava conhecimento de seus efeitos quase milagrosos por meio das páginas dos jornais, que relatavam seu emprego nos grandes hospitais do Rio de Janeiro (então capital do Brasil) e de São Paulo, bem como nas experiências conduzidas em instituições vinculadas às Forças Armadas. O dr. Dias Coelho, ao reconhecer a gravidade do quadro da pequena Benedita, compreendeu de imediato que não se tratava de um caso passível de tratamento comum, mas de uma situação-limite, que exigia o emprego daquele recurso novo e reconhecidamente eficaz, porém difícil de obter, uma vez que era cercado por rigorosos controles e pela escassez imposta pelas circunstâncias da guerra que ainda acontecia na Europa. Ainda assim, quando o apelo da família angustiada ecoou pelas ondas do rádio, a cidade respondeu em uníssono, solidária, empunhando coletivamente uma verdadeira batalha pela vida da pequena Benedita.

A cidade mobilizada pela palavra

A resposta não tardou. Telefones começaram a tocar na emissora, nomes e endereços foram anotados às pressas, e o apelo atravessou fronteiras municipais, sendo repetido por rádios de São Paulo e do Rio de Janeiro. Entre as vozes que atenderam ao chamado estava a do comissário de café Mário Covas, figura conhecida nos meios sociais e comerciais de Santos. Ele tinha acesso a algumas doses do precioso remédio e não hesitou em oferecê-las à criança. Quando as ampolas chegaram às mãos do médico, trazidas com urgência, toda a cidade acompanhava cada passo daquela luta.

A Beneficência Portuguesa e a primeira aplicação

Benedita foi internada na Sociedade Portuguesa de Beneficência, onde passou a receber as primeiras doses de penicilina aplicadas na cidade de Santos. O momento carregava um peso histórico que poucos perceberam de imediato, pois, naquele leito discreto, a medicina local estabelecia contato direto com uma das mais profundas revoluções científicas do século XX. O medicamente foi, então, administrado com cautela e esperança, enquanto a menina permanecia sob cuidados intensivos, inclusive na câmara de oxigênio, ainda em estado considerado gravíssimo.

Solidariedade e continuidade do cuidado

A melhora inicial não afastou, entretanto, o perigo, e novas doses tornaram-se necessárias. Foi então que uma verdadeira rede de solidariedade se ampliou, envolvendo a Legião Brasileira de Assistência em Santos, presidida por Ambrosina Sales Gomide Ribeiro dos Santos (esposa do então prefeito Antonio Gomide Ribeiro dos Santos), e alcançando o Rio de Janeiro, de onde partiu, por trem, uma nova remessa do medicamento, enviada com a intermediação da primeira-dama do país, Darcy Vargas.

A chegada do medicamento foi imediata, assim como sua aplicação em Benedita, que, dois dias depois, pôde ser retirada da câmara de oxigênio e teve a febre finalmente debelada. Todo o episódio, acompanhado de perto pela imprensa, alimentou a esperança coletiva da cidade, ainda que os médicos mantivessem a prudência própria de quem sabia estar lidando com um território até então pouco explorado pela ciência.

Memória de um gesto inaugural

O episódio de outubro de 1944 inscreveu-se como um caso clínico exitoso e permaneceu na memória da medicina santista como um gesto inaugural, ao representar, no âmbito regional, a primeira experiência concreta e bem-sucedida com os efeitos terapêuticos da penicilina.

Alexander Fleming, o pioneiro da penicilina

Breve história da Penicilina

A penicilina foi descoberta em 1928 pelo bacteriologista escocês Alexander Fleming, ao observar que um fungo do gênero “Penicillium” inibia o crescimento de bactérias. Inicialmente esquecida, a substância foi retomada no final da década de 1930 por cientistas da Universidade de Oxford, que conseguiram purificá-la e demonstrar seu uso clínico. Durante a Segunda Guerra Mundial, passou a ser produzida em larga escala, salvando milhares de vidas. Após a guerra, tornou-se amplamente disponível e transformou o tratamento das doenças infecciosas. Chegou ao Brasil em 1942, inicialmente para estudos. Foi liberada para uso em 1944. Até hoje, a penicilina é um marco da medicina moderna e símbolo dos avanços científicos do século XX.