Luiz José de Mattos e o pensamento racional que nasceu em Santos

No centenário de sua desencarnação, Santos celebra o homem que transformou inquietação espiritual em uma filosofia racional nascida em seu próprio chão.

Santos, 15 de janeiro de 1926. Naquela manhã de Verão pesado, o ar parecia mais denso nos aposentos onde Luiz José de Mattos enfrentava seus últimos instantes no plano material. O corpo, já exausto da longa jornada, entregava-se em silêncio, enquanto a consciência, segundo a doutrina que ele próprio ajudara a edificar anos antes, desprendia-se serenamente da matéria. Não houve alarde, nem gestos dramáticos: apenas a sensação de encerramento de uma missão cumprida, como se o tempo, respeitoso, houvesse diminuído o passo para assistir à desencarnação de um espírito que marcara época. No instante derradeiro, a cidade do Rio de Janeiro, então capital nacional, onde Luiz de Mattos residia,  sem perceber, testemunhou o rompimento de um vínculo raro entre pensamento, ação e propósito.

A pouco menos de 500 km dali, em Santos, porém, algo pareceu se mover de forma imperceptível e profunda. Ainda que o porto continuasse a ranger sob o peso das sacas de café, os bondes percorressem seus trilhos e o mar insistisse no vaivém antigo, uma espécie de vibração atravessou a cidade. Era como se o chão santista, que por décadas sustentara os passos e os ideais de Luiz de Mattos, reconhecesse a partida do homem que ali plantara uma doutrina singular, sem dogmas, sem deuses, sem promessas fáceis. Santos, berço do Racionalismo Cristão, parecia sentir a energia da despedida da figura que transformara sua inquietação espiritual em filosofia organizada e racional.

O homem que Santos moldou

Embora tivesse nascido em Chaves, no norte de Portugal, fora em Santos que Luiz de Mattos se fizera homem pleno. Aqui chegara ainda jovem e aqui permaneceria por 37 anos, construindo fortuna no comércio do café e uma reputação como um dos maiores especialistas do ramo num porto que se tornara o maior exportador do mundo. A prosperidade material, no entanto, jamais o afastara da vida intelectual e humanitária: fundara escolas e asilos, presidira a Beneficência Portuguesa, exercera o vice-consulado de seu país natal e colocara sua pena a serviço das grandes causas de seu tempo, como a Abolição da Escravidão e a consolidação da República.

Tal trajetória, marcada por dignidade e hombridade, preparava, no entanto, o terreno para algo maior. Santos não havia sido apenas o cenário de sua ascensão econômica e social, mas o laboratório espiritual onde suas reflexões ganharam corpo. A cidade, com sua efervescência comercial e cultural, oferecia o ambiente propício para que ele questionasse, estudasse e, por fim, formulasse uma leitura racional da vida e do universo, distanciada do misticismo e das imposições religiosas.

A doutrina nascida no chão santista

Foi em 1910 que o destino, ou a necessidade espiritual, como ele próprio entenderia, colocou Luiz de Mattos frente a frente com o conterrâneo Luiz Alves Thomaz. Do encontro casual nasceu uma comunhão imediata de ideias e a certeza de que era preciso esclarecer a humanidade sobre a vida fora da matéria, recuperando, em bases racionais, os princípios que Cristo tentara divulgar. Pouco depois, fundaram o Centro Espírita Amor e Caridade, na Rua Amador Bueno, e lançaram as bases do que viria a ser o Racionalismo Cristão.

Um lugar para refletir

Menos de dois anos depois, tornou-se evidente para Luiz de Mattos e Luiz Thomaz que a filosofia nascente já não cabia nos limites frágeis de encontros ocasionais e espaços cedidos. O número crescente de frequentadores, atraídos não por promessas ou rituais, mas pela clareza das explicações e pela firmeza do método, impunha uma nova etapa. As reuniões, cada vez mais densas e concorridas, passaram a exigir um ambiente propício ao recolhimento consciente, ao estudo sistemático e à reflexão ordenada, condições incompatíveis com a improvisação e a instabilidade dos locais provisórios.

Entre os que acompanhavam aquelas sessões, amadurecia a convicção de que o pensamento ali elaborado precisava de raízes materiais para sustentar sua permanência no tempo. Não se buscava tão somente um templo, mas um espaço estável, capaz de acolher o silêncio disciplinado, a regularidade dos trabalhos e a continuidade de uma doutrina que se propunha a esclarecer a vida com base na razão, e não a deslumbrar pela fé cega ou pelo mistério. A decisão de erguer uma sede própria surgiu, assim, como consequência natural de um movimento que já se afirmava sólido, consciente e irreversível.

PRÉDIO EM 1986

O amadurecimento encontrou sua expressão definitiva na inauguração da edificação, ocorrida em 21 de junho de 1912, marco que consolidou materialmente aquilo que já se afirmava no plano das ideias. O edifício foi concebido para refletir, em sua forma, os princípios da doutrina que abrigava: linhas sóbrias, ausência de ornamentos sacralizados e a exposição franca dos tijolos, como se a própria arquitetura recusasse qualquer disfarce ou artifício. Nada ali evocava o mistério ou o culto; tudo convidava à clareza, à ordem e à reflexão consciente, em consonância com uma filosofia que colocava a razão acima da crença e o entendimento acima da submissão.

Com o passar do tempo, o prédio do Racionalismo Cristão, da  Avenida Ana Costa, tornou-se um símbolo de resistência. Enquanto a cidade se transformava, expandia-se e reinventava seus espaços, aquela construção permanecia praticamente intacta, preservando sua estrutura original e, com ela, a memória do momento em que Santos se afirmara como berço de uma doutrina singular. E que chama a atenção e curiosidade até o tempo presente.

A partida e o legado

Quando Luiz de Mattos desencarnou, em janeiro de 1926, sua obra já se encontrava firmemente estruturada, independente de sua presença física. O português que fizera de Santos seu lar soubera cumprir, com rigor e clareza, a tarefa de racionalizar fenômenos e esclarecer conceitos que durante séculos haviam sido tratados como sobrenaturais. Sua trajetória fora marcada por críticas e resistências, mas conduzida com estoicismo e convicção, até que, aos sessenta anos, já cansado do corpo, regressou, segundo a doutrina que professava, aos mundos de luz, consciente de haver cumprido sua missão.

E Santos, ao sentir simbolicamente essa partida, manteve seu ritmo cotidiano, embora tenha carregado, de forma silenciosa e definitiva, a memória do homem que, em seu chão, criara uma doutrina única, destinada a atravessar o tempo e a integrar o patrimônio imaterial da cidade.