Santos e o aniversário em 26 de janeiro

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Uma das maiores confusões históricas da vida santista se concentra na questão da data de seu aniversário. Até 1995, Santos contabilizava sua idade a partir do ano em que obteve sua elevação à condição de cidade, definida em 26 de janeiro de 1839, por meio da Lei Provincial nº 122, assinada pelo então presidente de São Paulo (cargo equivalente ao de governador), Venâncio José Lisboa. Assim, em 1995, os santistas comemoravam 156 anos, deixando transtornados os que defendiam para Santos uma idade mais avançada, a ser contabilizada a partir da sua data de fundação, a exemplo do que era feito em São Paulo, que tinha como ponto inicial o momento da celebração da primeira missa na colina de Piratininga, que determinou o início da instalação dos jesuítas no local, ocorrido em 25 de janeiro de 1554. Vale lembrar que era muito comum batizar uma localidade utilizando-se do calendário litúrgico dos santos (hagiológico). O dia 25 de janeiro, por exemplo, é consagrado a São Paulo Apóstolo. Daí o nome São Paulo para a futura maior cidade do país.

Mas Santos já existia quando foi celebrada a famosa missa, assim como quando os padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta ergueram em Piratininga, dois anos mais tarde (1556), o Colégio dos Meninos, dedicado à catequese dos índios que viviam na região, nativos da etnia Guaianás (ou Guaianazes).

A povoação santista, que tinha sido elevada à condição de vila, pelas mãos do fidalgo Braz Cubas, em 1545, já abrigava algumas moradias, além de engenhos e capelas.

A maior parte desta primeira população era integrante da famosa expedição de Martim Afonso de Souza, que, em 1532, havia fincado a primeira vila oficial brasileira, no lado sudoeste da Ilha de São Vicente. Porém, foi no lado nordeste da ilha, chamado pelos índios de Enguaguaçu, mais fértil e melhor protegido do que o lado vicentino (ou Tumiarú), que os colonos gostaram de se estabelecer. Entre eles, Paschoal Fernandes, o genovês, e Domingos Pires, os primeiros a receberem cartas de sesmaria em terras do que viria a ser a futura Santos.

À medida que iam chegando novos povoadores, Enguaguaçu se transformava numa imensa área agrícola. Os pioneiros tinham à disposição fartas nascentes de água e terras para o plantio. A maior vantagem do local estava no fato de ser ele geograficamente mais bem posicionado em eventuais necessidades de defesa, uma vez que abrigava excelentes pontos de vigia, de onde era possível enxergar praticamente toda a Ilha de São Vicente e cercanias. Outro fator determinante para o progresso daquela localidade era a profundidade do lagamar e seu acesso, pela banda oriental (o atual canal do Estuário), que reunia melhores condições para atracação e proteção das embarcações que chegavam à região, independente das condições do tempo.

Assim, a partir da década de 1540, dois acontecimentos fizeram com que o pequeno núcleo de colonos de Enguaguaçu se transformasse num povoado de maiores dimensões. O primeiro foi a decisão de transferir de modo definitivo a localização do Porto da Capitania, que ficava inicialmente na altura da praia do Góes, nas proximidades da atual Ponta da Praia, para junto do povoado, isso em 1541. O segundo acontecimento foi o trágico resultado de uma enorme ressaca que assolou a Vila de São Vicente em 1542, que forçou muita gente a abandonar o lado vicentino da ilha para se instalar nas cercanias do Enguaguaçu.

Com o aumento populacional e o fato de terem se tornado ponto de referência aos navegantes de passagem, a pequena vila percebeu a necessidade de criar uma estrutura de atendimento médico, para tratar não só os doentes das cercanias, mas os próprios marinheiros doentes e feridos. Assim, Braz Cubas, que tinha legitimidade para comandar a região, dado a ele por Martim Afonso, o Capitão Donatário (uma espécie de dono das terras, concedidas pelo Rei), mandou viabilizar a criação de uma Santa Casa de Misericórdia (modelo de hospital filantrópico criado em Portugal em 1498) em Enguaguaçu, que se tornaria o primeiro empreendimento do gênero no Brasil.

Daí, a primeira tese para o nome “Santos”. A Santa Casa de Misericórdia, criada por Braz Cubas, recebeu um complemento de nome para “Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos”, o que sugere que tenha sido fundada em 1º de novembro (dia dedicado à Todos os Santos). Com o passar do tempo, o pequeno hospital, abrigado inicialmente nas dependências da primeira capela de Santa Catarina de Alexandria (localizada nas proximidades do Outeiro de Santa Catarina) virou o ponto referencial daquela pequena vila portuária do litoral sul brasileiro. De Vila do Porto da Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos, o local foi perdendo substantivos, caindo para Vila do Porto da Santa Casa de Santos; Vila do Porto de Santos e, finalmente, Vila de Santos (bem mais fácil, não?).

Desta feita, quando Braz Cubas decidiu elevar a condição do povoado ao status de Vila, o nome Santos já era consolidado, assim como o de São Vicente. A data da elevação, entretanto, foi perdida no tempo, não se estabelecendo um marco inicial para uma contagem fiel de aniversário.

Assim, com o passar dos anos, das décadas e dos séculos, Santos não comemorava nenhum tipo de aniversário de fundação. Este tipo de festejo, ou sentimento, só se deu, justamente, quando da sua elevação à condição de cidade, a partir de 1839.

Aí, em tempos mais recentes, voltando à história de 1995, Santos era comandada pelo prefeito David Capistrano. O ano seguinte, 1996, seria o último de seu mandato. A cidade vivia um momento complicado por conta das estatísticas em relação aos casos de Aids (doença sexualmente transmissível) apontados. O município não mascarou seus dados, como faziam outras localidades brasileiras e, assim, encarava o problema de frente, com projetos e políticas públicas voltadas para o setor. Mas a equipe de governo de Capistrano estava preocupada com a imagem do governo e procurava algo que pudesse levantar a alta estima santista. Foi quando percebeu-se que em 1996, a cidade poderia estar completando 450 anos de fundação, baseada na ideia de ter sido elevada à condição de Vila, por Braz Cubas, em 1546.

E assim ficou decidido. Em 1996, Santos comemoraria não seus 157 anos, mas sim 450 anos, ultrapassando a idade de São Paulo, que completaria 442 anos no dia 25 de janeiro. O problema era quanto à data exata (dia e mês) para esta celebração. A hipótese do 1º de novembro, apesar de mais forte, foi descartada. Já era tradicional comemorar o aniversário da cidade no dia 26 de janeiro. Além do que, a data já compunha o calendário anual e havia leis que protegiam a data. Assim, juntando a “fome com a vontade de comer”, o governo instituiu o aniversário de 450 anos em 26 de janeiro de 1996. A partir dali, a contagem seria embasada na data colonial.

Mas o que parecia estar consertado, voltou à estaca zero. No governo Beto Mansur, por questões apontadas como “políticas”, foi decidido voltar à contagem anterior. Assim, em 1997 e em 1998, nos dois primeiros anos de seu governo, Santos celebrou seus 158 e 159 anos respectivamente.

Em 1999, no entanto, o prefeito Beto Mansur voltou atrás e passou a admitir a antiguidade santista, após uma cerimônia pela recuperação do Outeiro de Santa Catarina. Santos passou a recontar o aniversário, soprando 453 velinhas.

Hoje, 468 anos do período em que Braz Cubas colocou Santos no mapa do Mundo, os santistas têm o orgulho de comemorar, mesmo que em meio a uma confusão histórica, a trajetória de uma terra repleta de glórias.

E salve o 26 de janeiro, a data santista!

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