Descendente de Tiradentes viveu em Santos

Além de ter sido o berço de grandes figuras ilustres da história nacional, Santos também abrigou descendentes de outras celebridades, como foi o caso de um cidadão que possuía em sua árvore genealógica o nome de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira (1789). Em agosto de 1967, a revista O Cruzeiro, uma das mais influentes da imprensa brasileira, publicou uma reportagem sobre o morador santista Aníbal Tiradentes Decina, que contou aos leitores como era sua vida e como ele e seus filhos lidavam com o fato de serem parentes de um dos grandes heróis da pátria.

Exatos 50 anos depois da publicação desta matéria, Memória Santista a resgata na íntegra, dividindo-a com seus leitores.

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Aníbal sabe que Tiradentes morreu solteiro, mas faz questão de afirmar esse parentesco: “Antigamente era assim”.


AS ATRIBULAÇÕES DA FAMÍLIA TIRADENTES

Descendente em sexta geração de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Aníbal Tiradentes Decina vive pacatamente na cidade Santos. Ulysses, seu filho mais novo, luta para tentar convencer os colegas de sua linhagem ilustre. Poucos creem na sua história: Tiradentes, afinal, morreu solteiro…

Aníbal Tiradentes Decina, um mineiro tranquilo quem vive em Santos, pertence à sexta geração de Joaquim José da Silva Xavier. Seus ancestrais tiveram tanto orgulho dessa linhagem histórica que resolveram adotar a alcunha do mártir como nome de família. Descende de João de Almeida Beltrão, filho de Joaquim José. Na tradição da família Tiradentes, consta que um açougueiro, tio de Tiradentes, cujo nome se perdeu através dos tempos, adotou o João Beltrão e fez desaparecer o sobrenome “da Silva Xavier”, por temer as consequências do édito real, pelo qual seriam confiscados os bens os inconfidentes até quarta geração. E Tiradentes, por ocasião da sua morte, tinha a sua fortuna avaliada em 797$979.

Mas o avô de Aníbal, Jose Augusto Tiradentes, falecido em 1918, vítimas do surto da gripe espanhola, rompeu com o nome Beltrão e adotou o de Tiradentes. Aníbal, muito orgulhoso da sua progênie histórica, é engenheiro ferroviário, atualmente chefiando o distrito da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Recorda que a sua condição de parente de um herói nacional nunca lhe trouxe nem satisfações nem aborrecimentos. Todos lhe chamavam por Tiradentes, pelo menos aqui em São Paulo, mais como se fosse apelido. Só mesmo os mais chegados, parentes ou amigos, sabem do incidente histórico. O único fato que estabeleceu uma ligação, em toda sua vida, entre o seu nome e a condição de parente do mártir da Independência, foi quando os ferroviários santistas denominaram Tiradentes um desvio da estrada, apropriado para desembarque de laranjas para exportação. Até hoje não se sabe se essa denominação homenageia a ele ou ao Tiradentes da história.

TIRADENTINHOS

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A família de Aníbal Tiradentes Decina vive pacata e tranquila e sem presunção.

Se a dificuldade em vencer os percalços da vida faz com que os adultos, na maioria das vezes, se esqueçam desses fatos menos ligados ao modo prático de viver, o mesmo não acontece com as crianças. Ulysses, filho mais novo de Aníbal, é intransigente. Curte, ademais, uma certa mágoa de seus pais, por que no seu nome não consta Tiradentes, nem no do seu irmão, o Amílcar. É que seu pai, pura e simplesmente, esqueceu-se de inserir o Tiradentes no seu nome, e daí a sua grande desilusão. Já não é fácil convencer os colegas que o sobrenome paterno Tiradentes tem alguma coisa que ver com o herói nacional. Imagine-se, então, sem ele. Certa vez, seu pai foi obrigado a lhe emprestar a carteira de identidade para convencer os seus incrédulos colegas, que vivia atazanando com brincadeiras irônicas. Chegou mesmo a ser apelidado de Tiradentinhos.

O fato é que essa condição dá mais margem à zombaria que qualquer outra coisa. Tanto para o pai como para os filhos. O desejo secreto de Ulysses em fazer valer, pelo menos nas discussões de recreio escolar, o seu parentesco histórico, esbarra primeiro na dificuldade de explicar todas as variações que, no decurso dos séculos, transformaram “da Silva Xavier” em Tiradentes. E depois, afinal, todos sabem, Tiradentes morreu solteiro.

 

ANTIGAMENTE ERA ASSIM MESMO

Bem, a família Tiradentes Decina está preparada para responder a essas bisbilhotices históricas. Argumentam que antigamente era assim mesmo. Se a gente for, hoje, vasculhar os antepassados das famílias que se formaram naquela época, não será muito difícil encontrar muitos solteiros dando início a linhagens hoje até ilustres.

É Tudo isso, afinal, chama a atenção porque “Tiradentes foi o senhor herói que todos conhecemos”, no dizer de Ulysses. Mas isso tudo não tem muita importância porque os Decina nem ligam para essa intriga. São descendentes, e isso é o quanto basta. Orgulham-se muito desse fato, e é o que interessa, segundo eles mesmos frisam.

TANTOS DESCENDENTES ILUSTRES

Ulysses chama atenção para outro fato. Na escola onde cursou o primário, o Externato Santa Rita, teve a oportunidade de se defrontar com três coleguinhas, descendentes de outras celebridades nacionais. São eles: Marcelo Raposo Cherto, Carlos Augusto de Andrade Coelho e Fernão Betim Paes Leme, respectivamente provindos por geração de Raposo Tavares, José Bonifácio de Andrada e Silva e Fernão Dias Paes Leme. Dona Ziloca, a diretora do colégio, por essa época, não cabia em si de orgulho, porque nem sempre é possível ter testemunhos vivos das verdades descoloridas ensinadas nos compêndios.

Tanto era assim que, por ocasião das festas escolares, fazia sempre relembrar esse fato. Os colegas, evidentemente, nutriam uma certa inveja desses meninos e não perdiam oportunidade para um motejo inocente. E, nessas ocasiões, quem sempre tinha maiores dificuldades para impor a verdade era Ulysses. Hoje, todos eles estão cursando o ginásio, no colégio Canadá, e aquele entusiasmo infantil já está arrefecendo. Ulisses já não liga tanto, mas a gente lobriga no seu olhar um brilho de entusiasmo quando se lhe lembra a descendência ilustre.

Aníbal obtempera que seu filho mais velho, Amílcar, nunca foi muito entusiasmado com o fato, não sabe explicar por quê.

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CURIOSIDADE PAULISTA

Todos os outros familiares de Aníbal estão vivendo, hoje, em Minas Gerais, a maioria em Uberaba, outros em Belo Horizonte. Naquele Estado, segundo disse, o fato de descender de Tiradentes quase não aguça a atenção de ninguém. Tanto é assim que nunca foi chamado por Tiradentes, todos conheciam como Decina, e o mesmo acontece com os seus parentes.

Em São Paulo, contudo, as coisas não se passaram assim. Ninguém o conhece por outro nome senão Tiradentes. Acredita que seja assim pela facilidade de memorização e por parecer mais como alcunha. Recorda-se quando, no início de sua carreira, um funcionário emudeceu na sua frente e, com a face corada, não sabia como chamá-lo. Sabia que todos se referiam a ele como Tiradentes; julgava tratar-se de apelido e temia ofendê-lo. O gelo foi quebrado pelo próprio Aníbal, que lhe disse que podia chamá-lo por Tiradentes, porque era seu nome.

TIRADENTES ESTÁ NO FIM

Aníbal informa com certa mágoa que até o nome Tiradentes está em perigo de desaparecer. Acontece que, duas descendentes de José Augusto, apenas dois têm condições de continuar com o nome. Trata-se de José Augusto Tiradentes Neto, residente em Uberaba, e Acácio Borges Tiradentes, que mora em Belo Horizonte. Os demais, ou morreram sem deixar filhos, ou negligenciaram com a continuidade do nome, ou são mulheres.

Esse ramo familiar de Tiradentes guarda apenas uma relíquia: uma corrente de ouro que pertenceu ao mártir, com mais de um metro de comprimento, que passou de mão em mão, dentro da família. A tradição manda que se faça aliança de casamento com um dos seus elos. A aliança de Aníbal foi feita com esse ouro setecentista.

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