Condições geográficas sempre colocaram Santos na ponta da língua de diversos ilustres, que não pouparam a cidade de suas reclamações

Santos, Verão de 1866. “O sol escaldante castiga a cidade e seus míseros habitantes. Chega a ser insalubre a intensidade do calor misturado à umidade que permeia esta região terrível ao qual me enviaram, numa estafante missão em nome de S. Majestade (Rainha Vitória). Talvez esse inferno que nos cai à cabeça seja aprazível tão somente aos mosquitos devastadores que habitam os charcos e pântanos vizinhos a esta pobre cidade. Aliás, os insetos aqui são soberanos. Há aranhas do tamanho de um pequeno terrier, carrapatos maiores do que a unha de um polegar, porque há tudo que é tipo de peste aqui nesta cidade imunda de águas poluídas. É por isso que eu e Isabel decidimos apaziguar nossa estada no Brasil e subir a Serra de Paranapiacaba”. Suando em “bicas”, o novo cônsul britânico em Santos descrevia em suas memórias a terrível experiência de passar sua primeira temporada de Verão na cidade santista, de fato algo encarável apenas por espíritos “fortes” e aventureiros. Mas, ainda assim, alguns deles envergavam diante da fervura veranil santista, como fora justamente o caso do capitão Sir Richard Francis Burton, um célebre explorador e escritor inglês que foi designado cônsul britânico em Santos entre 1865 e 1869. 

Mas Burton não foi o único a reclamar do intenso calor santista ao longo dos séculos. Desde os tempos coloniais, o caldo efervescente propiciado pela posição e pela constituição geográfica em que se encontra Santos e região (uma área de manguezais emoldurada pela cadeia da Serra do Mar nas proximidades da linha do Tropico de Capricórnio, onde o calor é mais intenso) fizeram suas vítimas. E elas não foram nada gentis com a cidade quando relatavam suas passagens por aqui. Basta ver o que Richard Burton escreveu sobre a cidade!

 

Axila do Brasil

Mas quem acha que Burton pegou pesado com o calor santista, irá constatar que seus comentários foram de certa forma leves se comparados ao de outro visitante ilustre que passou pela cidade de Santos em dois momentos distintos: nos anos 1920 e depois nos anos 1960. Este foi o poeta e diplomata chileno, Pablo Neruda. Em sua segunda passagem pela cidade santista, quarenta anos depois da primeira, Neruda teria dito, e depois registrado no poema “Santos Revisitado”, integrante de sua obra “A Barcarola” (1967) que o porto “antes era selvático e cheirava como uma axila do Brasil caloroso”. Na segunda estrofe, ele continuava lembrando do calor: “Aquele Santos … volta a mim com um triste odor de tempo e bananeira, com um cheiro de banana podre, esterco de ouro e uma raivosa chuva quente sob o sol. Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo, feridas pululantes da terra…” 

Calor escaldante e chuvas torrenciais

Mas não foram apenas os viajantes e poetas estrangeiros que praguejaram contra as condições climáticas de Santos. O próprio Imperador do Brasil, D. Pedro II, quando esteve na cidade em fevereiro de 1846, sentiu na pele (literalmente) o poder “de fogo” do calor santista e suas consequências atmosféricas. Sua Majestade Imperial desembarcara no Valongo no dia 18, e tinha intensões de subir a Serra do Mar já no dia seguinte, a fim de celebrar o primeiro aniversário do Príncipe Herdeiro do Brasil, D. Afonso Pedro (ele morreria em junho de 1847, com dois anos de idade) na capital. Porém, quem disse que o sol abrasador e as chuvas intensas do final do dia permitiram? D. Pedro e sua esposa, Tereza Cristina, ficaram ainda por mais sete dias na cidade, “derretendo” no calor santista antes de seguir rumo para São Paulo. Pelo menos, os santistas tiveram o privilégio de comemorar na Matriz o primeiro ano de vida do príncipe, um dia inesquecível e “bem quente”!

Outros imprecadores

O jornalista e crítico literário Alesandro Atanes reuniu recentemente uma coletânea de imprecações proferidas por escritores ilustres acerca do infernal calor santista. Além de Neruda, citado por ele, estão no time personalidades como Ranulfo Prata, autor do célebre livro “Navios Iluminados” e Júlio Ribeiro que, entre vários feitos, foi o autor do desenho da bandeira do Estado de São Paulo. No romance de Prata, um de seus personagens, o estivador migrante da Bahia, José Severino de Jesus, sofre com a variação brusca de quente/frio ao trabalhar no carregamento a partir de um frigorífico no porto de Santos, a ponto de contrair tuberculose por conta de sua exposição a um frio de trinta graus negativos em contraposição ao “noroeste bravo… que sapecava a pele” no lado de fora.

Já Ribeiro, em seu romance “A Carne”, não poupou Santos na utilização de adjetivos infernais ao referir-se ao seu calor: “Falam no Senegal: o Senegal é mais quente, valha a verdade, mas não é tão abafado. Lá respira-se fogo, mas respira-se. Aqui não se respira nem fogo, nem coisa nenhuma. O ar é pesado, oleoso; parece que lhe falta algum elemento. Isso quando não há o vento célebre que os nativos chamam noroeste…. Santos é uma miniatura do inferno: imagine-se um tufão dentro de um forno. Os dias são horríveis: se não há chuva, o que é raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto de se poderem fitar ovos sobre as pedras das calçadas. Mas ainda há coisa mais horrível que os dias, são as noites. A atmosfera queda-se, morre”. Mais à frente, ele continua seu tiroteio: “A Vida aqui é uma negação da fisiologia, é um Verdadeiro milagre: não há hematose perfeita, as digestões são laboriosíssimas, sua-se como no segundo grau da tísica pulmonar, como na convalescença de febres intermitentes. Eu, se fosse condenado a degredo em Santos, já não digo por toda a Vida, mas por um ano ou dois, suicidava-me”.

Muitos outros visitantes famosos mencionaram o calor santista, mas nenhum deixou de admirar as belezas naturais e o progresso que a cidade viveu ao longo do tempo. De fato, nosso calor é para os fortes. “Aqui, até o diabo pede refresco”, estampam algumas brincadeiras de internet. Nos dias de hoje, em tempos modernos, o calor castiga, mas bem menos do que no passado!

 

Fonte extra de pesquisa fornecida pelo jornalista Alessandro Atanes