Em dezembro de 1930, a revista norte-americana dedicou uma extensa reportagem ao Brasil. Em meio às imagens do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e outras regiões do país, Santos ganhou destaque como porto do café, centro de trabalho e cidade pulsante, registrada em fotografias que hoje constituem um documento excepcional da vida santista há quase um século.
Em dezembro de 1930, leitores da National Geographic Magazine receberam em suas casas uma longa reportagem intitulada “Gigantic Brazil and Its Glittering Capital”, algo como “O Brasil gigantesco e sua capital cintilante”. Assinado por Frederick Simpich, o trabalho procurava apresentar aos norte-americanos um país de dimensões continentais, percorrendo paisagens, cidades, costumes, atividades econômicas e cenas da vida cotidiana brasileira. Embora o Rio de Janeiro, então capital federal, ocupasse posição central na narrativa, a reportagem reservou um espaço particularmente significativo para Santos.
O interesse pela cidade não era casual. Para o olhar estrangeiro de 1930, Santos representava a conexão entre a extraordinária produção agrícola paulista e o comércio mundial. Era por seu porto que passava grande parte do café brasileiro, mercadoria que havia transformado São Paulo e colocado o Brasil no centro de um dos maiores negócios internacionais daquele período.
É justamente essa Santos que aparece diante das câmeras da revista: caminhões carregados de sacas, carroças dividindo espaço com automóveis, trabalhadores movimentando café, armazéns abarrotados, pequenos comerciantes nas calçadas e personagens anônimos de uma cidade intimamente relacionada ao porto.
A porta de entrada para a terra do café
Uma das fotografias mais impressionantes mostra uma movimentada rua santista. Automóveis, caminhões e veículos de tração animal dividem o espaço, enquanto os carregamentos de café aparecem em diferentes pontos da cena. À esquerda, destaca-se uma enorme placa com a palavra “BARBEIRO”, acompanhada por outros anúncios comerciais.
A legenda escolhida pela National Geographic é reveladora da imagem que Santos projetava internacionalmente. A revista chama a cidade de “porta de entrada para a maior terra do café do mundo” e explica que, especialmente entre agosto e janeiro, as ruas e os armazéns do terminal marítimo de São Paulo pareciam girar em torno de uma única ideia: café.
A fotografia registra também uma característica importante da Santos daquele período. O transporte urbano relacionado às atividades comerciais estava em plena transição. Caminhões e automóveis já faziam parte da paisagem, mas carroças e veículos puxados por cavalos continuavam essenciais à movimentação de cargas.
Em outra fotografia, a revista apresenta justamente um desses veículos. Trata-se de um pequeno carro de duas rodas utilizado para trabalho e encontrado, segundo a legenda, no Rio de Janeiro, em Santos e em São Paulo. A própria publicação informa que esses resistentes veículos conseguiam circular pelas áreas congestionadas de cais e armazéns e registra um condutor acompanhando uma carga de café em Santos.
Milhões de sacas passando por Santos
Na página seguinte, a dimensão do negócio do café se torna ainda mais evidente. Uma carroça aparece completamente tomada por sacas, enquanto trabalhadores fazem a movimentação da carga diante de um grande armazém.
O título da fotografia é direto: “Santos movimenta milhões de sacas de café de São Paulo”.
Para explicar aos leitores norte-americanos o tamanho daquela operação, a revista observa que uma exportação dessa importância exigia instalações portuárias modernas, armazéns, guindastes elétricos, elevadores e transporte ferroviário capaz de trazer a produção do interior até o litoral. Na interpretação da reportagem, Santos dispunha justamente dessa infraestrutura.
O comentário ajuda a compreender como o porto era percebido no exterior. Santos não aparecia apenas como lugar de embarque. Era apresentado como uma grande engrenagem logística, onde ferrovia, armazenagem, transporte terrestre, trabalhadores e estruturas portuárias precisavam funcionar de maneira coordenada para manter em movimento uma das principais riquezas brasileiras.
Dentro dos armazéns de café
A sequência fotográfica conduz o leitor para dentro de um armazém santista. A imagem mostra enormes pilhas de sacas chegando praticamente à altura das estruturas de madeira do telhado. No centro, trabalhadores aparecem diante de sacos abertos e de uma grande quantidade de grãos espalhados pelo piso.
A legenda identifica a atividade como reclassificação e reensacamento do café em Santos. É um registro extraordinário do trabalho que antecedia o embarque. O produto que chegava do interior não simplesmente passava pela cidade. Havia atividades de preparação, classificação, armazenamento e acondicionamento antes de seguir para os navios.
A revista fornece ainda uma informação bastante concreta sobre aquela operação. Depois de acondicionado em sacas de 132 libras, aproximadamente 60 quilos, o café era levado aos navios por esteiras transportadoras. Segundo a reportagem, entre oito e dez mil sacas poderiam ser embarcadas em uma hora, dependendo também da habilidade dos estivadores no porão em acomodar a carga.
O dado oferece uma ideia da escala alcançada pelo sistema cafeeiro santista. Não bastava receber enormes volumes de café. Era necessário classificar, ensacar, armazenar, transportar e embarcar continuamente uma mercadoria que seguia para diferentes partes do planeta.
A cidade existente ao redor do porto
A reportagem, felizmente, não se limitou às instalações portuárias. Uma das imagens mais curiosas mostra um jornaleiro santista diante de uma grande quantidade de jornais, revistas e publicações espalhados diretamente pela calçada.
Na fotografia aparecem também outros personagens, automóveis estacionados e um menino sentado próximo a uma árvore. A legenda simplesmente apresenta “um jornaleiro de Santos expondo suas mercadorias na calçada”.
É uma cena aparentemente banal, mas justamente por isso extremamente valiosa. Enquanto as fotografias do café documentam a força econômica da cidade, a imagem do jornaleiro registra o cotidiano. Mostra a ocupação das calçadas, o comércio informal de impressos, as roupas, os automóveis e a maneira como vendedores utilizavam os espaços públicos.
Vista quase cem anos depois, a fotografia permite enxergar uma Santos que dificilmente apareceria nos grandes registros oficiais. O protagonista não é um prédio monumental nem uma autoridade. É um vendedor de rua acompanhado de suas mercadorias.
Laranjas da Bahia em Santos
Outra fotografia curiosa aparece perto do final da reportagem. Em um espaço aberto de comércio, homens aparecem diante de grandes montes de laranjas e caixas de madeira. O título escolhido pela revista foi “Santos, assim como a Califórnia, aprecia as laranjas da Bahia”.
A legenda aproveitava a cena santista para contar ao público dos Estados Unidos uma história que lhes era familiar. Em 1873, duas pequenas laranjeiras da variedade Washington Navel haviam sido enviadas a Riverside, na Califórnia, depois de terem sido propagadas pelo Departamento de Agricultura norte-americano a partir de exemplares recebidos da Bahia em 1870. A revista relacionava assim o comércio de frutas observado em Santos à própria história da citricultura californiana.
Para a memória da cidade, entretanto, o maior valor está novamente na fotografia. Ela registra homens trabalhando ou negociando em meio a enormes quantidades de frutas, caixas de madeira e construções utilizadas pelas atividades comerciais. É outra faceta de uma Santos fortemente marcada pela circulação de mercadorias.
Uma cidade apresentada ao mundo
As páginas da National Geographic de dezembro de 1930 formam hoje uma pequena cápsula visual da Santos daquele período. A revista encontrou aqui aquilo que esperava mostrar ao público estrangeiro: o grande porto de uma economia movida pelo café. Mas suas fotografias acabaram registrando muito mais.
Aparecem trabalhadores carregando sacas sobre os ombros, carroceiros, estivadores, comerciantes, jornaleiros, motoristas e vendedores. Surgem caminhões e cavalos na mesma rua, armazéns cheios, grãos espalhados pelo chão, pilhas monumentais de sacas e mercadorias expostas nas calçadas. A cidade monumental praticamente cede espaço à cidade do trabalho.
Talvez esteja aí o maior valor desse conjunto documental. A reportagem não apresenta Santos por seus jardins, praias ou edifícios públicos. A cidade que chegou às páginas de uma das revistas mais conhecidas do mundo era essencialmente uma cidade portuária e comercial, inseparável do café e das pessoas responsáveis por fazê-lo chegar do interior paulista aos mercados internacionais.
Quase um século depois, aquelas páginas permitem reconhecer uma Santos em transformação. Os motores já conviviam com os cavalos. O transporte ferroviário encontrava caminhões, carroças, armazéns e esteiras. Nas calçadas, a vida seguia entre jornais, frutas, trabalhadores e pequenos negócios.
Em dezembro de 1930, para milhões de leitores estrangeiros, uma das portas de entrada para compreender o Brasil estava justamente aqui. Em Santos.
UM CURIOSO SULKY COM CAPOTA DE BUGGY, UTILIZADO NO RIO, EM SANTOS E EM SÃO PAULO
Construídos para o trabalho, e não para o lazer, esses resistentes veículos de tração animal conseguem circular com facilidade pelas movimentadas áreas de cais e armazéns. O condutor está supervisionando um carregamento de café em Santos.
O PORTAL DE ENTRADA PARA A MAIOR TERRA DO CAFÉ DO MUNDO
Entre os meses de agosto e janeiro, em particular, as ruas e os armazéns de Santos, o terminal marítimo de São Paulo,
pulsam em torno de uma única ideia: o café.
SANTOS MOVIMENTA MILHÕES DE SACAS DE CAFÉ DE SÃO PAULO
Com uma exportação de tamanha importância, as instalações portuárias, os armazéns, os guindastes elétricos, os elevadores e o transporte ferroviário vindo do interior precisam ser, e de fato são, os mais modernos.
RECLASSIFICAÇÃO E REENSAQUE DO CAFÉ EM SANTOS
Depois que o café é acondicionado em sacas de 132 libras cada, ele é embarcado nos navios por meio de esteiras transportadoras. Oito ou dez mil sacas podem ser lançadas nos navios em uma hora, dependendo da habilidade dos estivadores no porão para acomodar a carga.
UM JORNALEIRO DE SANTOS EXPÕE SUAS MERCADORIAS NA CALÇADA.
SANTOS, ASSIM COMO A CALIFÓRNIA, APRECIA AS LARANJAS DA BAHIA
Um marco na história da agricultura ocorreu em 1873, quando uma mulher de Riverside, na Califórnia, recebeu duas pequenas laranjeiras do horticultor do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Elas eram da variedade Washington Navel e haviam sido propagadas nas estufas do Departamento, em Washington, a partir de pequenas árvores recebidas, em 1870, da Bahia, Brasil. Hoje, a Califórnia colhe anualmente milhões de dólares em frutos dessa deliciosa variedade.





