O motorista Antônio Rodrigues ao lado do pinguim “Mongaguá”, que se tornaria “parceira” de Batuque no Aquário Municipal.

Até os dias atuais eles são uma das principais atrações do Aquário Municipal de Santos. Mas como sobreviveram, em uma cidade com tanto calor e maresia, as primeiras aves vindas das regiões geladas do sul?

Litoral Sul, 20 de julho de 1948. Eram quase seis horas da manhã de uma terça-feira tranquila, marcada por um frio leve. Antônio Rodrigues, motorista de um caminhão Chevrolet 112, chapa 26-31-87, morador da Rua Frei Caneca, 31, vinha de Itanhaém com uma carga cheia de cachos de banana destinada ao Mercado Municipal de Santos. Conhecia bem o ritmo daquela estrada traiçoeira, o ruído familiar das rodas de seu companheiro de metal e a previsibilidade possível de uma viagem iniciada ainda de madrugada. Naquela manhã, porém, a rotina se romperia de maneira inesperada. Ao passar pela altura do rio Mongaguá, o destino lhe reservaria o encontro com um visitante insólito, que, em poucos dias, despertaria o encanto dos santistas.

Tomado de espanto, Rodrigues lançou pela janela do caminhão um olhar incrédulo e viu, à sua frente, uma ave como nunca antes lhe passara pelos olhos. Decididamente, pensou, não era galinha, nem pato, nem peru. Atônito, freou o veículo quase sobre aquele intruso vindo, ao que tudo indicava, do gélido sul. Desceu e permaneceu por alguns segundos a contemplar o animal, que não demonstrou medo nem agressividade. Pelo contrário: a aproximação do caminhão pareceu despertar nele uma curiosidade serena, como se também aquele viajante, arrancado de seu reino de gelo, observasse com igual estranhamento o homem que surgia na manhã fria.

Antônio aproximou-se devagar e, num gesto calmo, tomou a pequena ave nos braços. Não houve resistência, não houve alvoroço. O pinguim deixou-se carregar com uma docilidade quase comovente, como se, naquele instante improvável, homem e ave selassem um pacto de confiança.

Algumas horas mais tarde, Antônio chegava ao Mercado Municipal tomado por uma excitação infantil, como quem trazia consigo um herói, um ser mítico, uma celebridade internacional. Chamou amigos, fregueses e curiosos, reunindo todos os que pôde para exibir seu troféu vivo. Apresentou a ave com orgulho mal disfarçado, convencido de que carregava nos braços uma raridade extraordinária, daquelas capazes de interromper o curso comum de qualquer manhã.

Mas enganava-se. Desde a inauguração do Aquário Municipal de Santos, em 1945, os santistas já estavam familiarizados com aquelas aves extraordinárias, vindas da Antártida ou da Patagônia e trazidas involuntariamente pelas correntes marítimas. Um dos companheiros de Rodrigues, pai de três meninos, foi ainda mais longe e tratou de desfazer prontamente a surpresa do caminhoneiro. Disse já ter visto bicho parecido no Aquário da Ponta da Praia e acrescentou, com a segurança de quem falava de memória fresca, que o animal de lá tinha até nome: Batuque.

Encontro de aves companheiras

Convencido pelos amigos de que deveria levar o novo pinguim a um local mais apropriado, Rodrigues tratou, embora com alguma dificuldade, de encaminhá-lo ao Aquário Municipal. Ali, a ave passou a receber os cuidados da equipe do equipamento público, já habituada a acolher animais surgidos no litoral em condições delicadas, quase sempre abatidos, desnutridos e pouco afeitos ao clima da região. A ave encontrada em Mongaguá, porém, não chegaria a um lugar estranho aos de sua espécie, pois ali já vivia Batuque, o mais célebre pinguim do Aquário, recolhido em 19 de setembro de 1946 e transformado, desde então, em uma das grandes atrações do local.

Batuque, o resistente

Ao contrário do exemplar encontrado em Mongaguá, que jamais recebeu um nome, Batuque teve uma trajetória mais dramática. Encontrado em 19 de setembro de 1946, foi o 12º pinguim da espécie a dar às costas paulistas. Os 11 anteriores não sobreviveram mais de três meses, o que tornava seu caso especialmente improvável.

Batuque chegou ao Aquário em estado lastimável: exausto, mal conseguia manter-se de pé, com o corpo consumido e as vértebras salientes no dorso, como um animal vencido pela longa deriva desde o sul. Sua recuperação exigiu alimentação cuidadosa, proteção contra a insolação, exercícios diários e atenção constante da equipe do Aquário, sob os cuidados de Joaquim Ribeiro de Morais.

Foi essa resistência que o transformou em um caso extraordinário e, mais tarde, no mais célebre dos pinguins santistas. Com o passar dos meses, Batuque conquistou o público não apenas pela raridade de sua presença, mas também pelo comportamento tido como inteligente: reconhecia o nome, a voz dos tratadores e os sinais da rotina no Aquário. Em setembro de 1947, ao completar um ano no local, já havia sido visto por quase 500 mil visitantes. Foi nesse ambiente, já marcado pela experiência de Batuque, que passou a ser tratado o pinguim encontrado por Rodrigues.

Paixão glacial

Com o tempo, veio a revelação que deu à história um sabor ainda mais curioso: o pinguim levado pelo caminhoneiro santista era, na verdade, uma fêmea. Assim, a proximidade entre Monguaguá e Batuque, que muitos poderiam tomar por simples amizade ou companheirismo, ganhava outra explicação, bem mais divertida. Ao que tudo indicava, Batuque não se encantara apenas com a chegada de uma semelhante, mas com a presença de sua nova paixão. O que parecia camaradagem entre dois náufragos do sul acabou se revelando um pequeno romance antártico em plena Ponta da Praia.

E assim, abençoados por uma gênese romântica, ao longo dos anos e das décadas, dezenas de outros pinguins construíram suas próprias histórias no Aquário santista, cada qual deixando sua marca na memória da cidade. Mas Batuque e Mongaguá conservaram um lugar especial, pois muito além de serem dois simples hóspedes do acaso, tornaram-se figuras inspiradoras para os santistas, lembradas com ternura como personagens de uma das mais singulares e encantadoras histórias do Aquário de Santos.

Magalhães

Batuque e Mongaguá eram pinguins-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus), a espécie mais frequentemente encontrada no litoral brasileiro. Originária das colônias reprodutivas da Patagônia, na Argentina e no Chile, essa ave realiza migrações sazonais rumo ao norte após o período de reprodução, alcançando o Uruguai e o Brasil, sobretudo durante o inverno austral. Grande parte dos indivíduos que chegam à costa brasileira é formada por animais jovens, muitas vezes exaustos e em busca de alimento, o que ajuda a explicar por que tantos deles apareciam abatidos ao dar às praias paulistas.