Quando Santos temia a própria noite

No século XVIII, homens rebuçados rondavam as ruas escuras da vila, levando medo aos moradores e revelando uma face antiga do Centro que, sob outras formas, ainda resiste ao tempo.

Vila de Santos, 9 de março de 1723. Naqueles tempos, a população santista ia para a cama, via de regra, bem cedo, mas nem sempre para dormir em paz. No século XVIII, quando a área urbana se encolhia entre o estuário, os morros e as igrejas, a noite não era apenas ausência de luz. Ela formava um verdadeiro território. Tinha donos invisíveis, ruídos suspeitos, sombras encostadas nas paredes e passos que pareciam vir de lugar nenhum. As ruas, estreitas, desertas e escuras, guardavam um medo que não precisava de nome para ser compreendido.

Os santistas ainda não conheciam a claridade artificial pública, que só em 1810 viria a domesticar as esquinas. Então, em todos os finais de dia, o escuro descia como um pano grosso sobre as casas baixas e úmidas. As janelas logo se fechavam, as portas se trancavam, e o mundo de fora passava a pertencer aos que se arriscavam, aos que rondavam, aos que vigiavam e aos que se escondiam. Santos, assim, antes de se tornar o famoso porto imenso e agitado, fora um lugarejo que temia a própria noite.

A Cadeia Velha (a primeira)

No coração da vila colonial, a Casa de Câmara e Cadeia (a que ficava em frente à Igreja do Carmo) mais parecia uma sentinela severa do tempo. Construída em 1697, ela se unia ao pelourinho, que anos mais tarde acabou substituído por um pequeno pátio com chafariz, cercado de casinhas e mercadinhos, para compor um pedaço da cidade em que a autoridade se fazia visível e presente. A Câmara decidia, a Cadeia guardava e o Pelourinho advertia.

O povo, que passava por ali nos dias comuns, sabia que aquele espaço não pertencia apenas à rotina da vila, mas também ao castigo, à vigilância e à lembrança dos que haviam cruzado a linha frágil entre a ordem e a desordem. Ali, Santos, enfim, mostrava uma de suas faces mais duras: a da cidade que julgava, punia e fazia da praça um aviso permanente aos olhos de todos.

Os homens rebuçados

Mas quando a noite avançava, emergiam ao relento os temidos homens rebuçados, envoltos em capotes, com o chapéu desabado sobre a testa, deixando à vista apenas os olhos, o nariz, as mãos e os pés. Eram presenças temidas pela população. Eles carregavam bengalas com estoque, pistolas, facas espanholas e até punhais. Deslizavam pelas ruas estreitas como se a escuridão lhes servisse de véu e de cúmplice.

Os santistas conheciam tais vultos. Talvez ninguém tivesse coragem de pronunciar seus nomes em voz alta, mas todos sabiam quem eram. Assim, quem saísse tarde de casa corria o sério risco de topar com um deles na dobra de uma rua qualquer. A noite santista, naqueles tempos, era feita de puro silêncio, e o passo atrás do passante muitas vezes era apenas o eco do próprio sapato. Na dúvida, talvez não fosse.

Porém, naquele dia 9 de março de 1723, as queixas de alguns moradores, enfim, haviam chegado às autoridades. Falava-se nos tais homens rebuçados que andavam todas as noites carregados de armas, observando tudo, sem que as rondas oficiais conseguissem atalhar suas desordens. O governador da capitania, Rodrigo César de Menezes, diante de tanta denúncia, ordenou que se vigiasse melhor a vila, para evitar inquietações e danos que poderiam se tornar irremediáveis.

A ronda e o medo

Mas, ainda que a ronda passasse, o medo ficava. Nem mesmo o rumor de soldados ouvidos ao longe acalentava os corações amedrontados. Quando alguém entreabria a porta para verificar se a rua ainda estava vazia, qualquer ruído se transformava em suspeita.

É certo que havia uma diferença profunda entre o dia e a noite. De dia, a vila tinha comércio, igreja, porto, Câmara, soldados, escravos, negociantes, religiosos, tropeiros e marinheiros. De noite, o mesmo lugar dava asas para parecer outro. O que era conhecido se tornava incerto. O que era próximo se tornava distante. Até as paredes das casas, tão familiares à luz do sol, pareciam esconder segredos quando o escuro tomava conta da rua.

Santos ainda aprendia a se proteger do desconhecido. Afinal, seu entorno parecia vigiado, com fortalezas olhando para o mar, atentas a corsários e inimigos externos. Mas, por dentro, havia outra defesa a ser feita, contra os perigos miúdos e íntimos, contra o assalto inesperado, contra a violência escondida no capote de um desconhecido, contra a ousadia de quem encontrava na noite uma oportunidade.

O Centro antes da claridade

Pensar nessa Santos antiga era caminhar por um Centro que ainda não havia recebido a máscara moderna. O Largo da Matriz (atual Praça da República) não era a praça aberta que se conheceu depois. A Rua XV de Novembro ainda não tinha o mesmo nome nem a mesma feição. As vias eram mais apertadas, o casario se aproximava do corpo dos passantes, e a cidade parecia respirar em escala menor. Tudo ficava mais perto: o sino, a cadeia, o chafariz, a igreja, o medo.

Naquela paisagem, a noite não era romântica, nem um pouco. Uma pessoa que atravessasse a vila depois de escurecer carregava consigo uma pergunta: chegaria em casa sem susto? A resposta dependia da sorte, da ronda, da rua escolhida e da presença ou ausência daqueles vultos cobertos, que transformavam a escuridão em esconderijo.

O passado de Santos, tantas vezes lembrado pelo porto, pelos Andradas, pelas fortalezas e pelo café, também foi feito dessas pequenas inquietações. A vila que se tornou cidade em 1839 não ficou restrita a abrir mais ruas e erguer grandes armazéns e casarões. Ela cresceu também vencendo seus temores. Antes de dominar o cais, precisou enfrentar as ruas escuras.

Rebuçados de outra forma

Hoje, quem atravessa o velho Centro talvez consiga entender melhor aqueles antigos temores. As ruas já não são tão escuras como no século XVIII, mas ainda ocultam vultos perigosos (não mais os que se escondiam sob capotes e chapéus desabados). O medo, esse velho morador da cidade, ainda conhecia o caminho das mesmas esquinas. Mudaram as roupas, mudaram as armas, mudaram os nomes dados aos perigos. E os homens rebuçados de outrora pareceram voltar de outra maneira, não mais sob capotes e chapéus desabados, mas na paisagem dura de um Centro onde o abandono social, a dependência química, os assaltos, o tráfico e outras ameaças urbanas passaram a fazer muita gente apressar o passo ao cair da noite.

Assim, entre uma ronda e outra, entre uma porta fechada e outra, Santos prosseguiu aprendendo que a claridade das lâmpadas nem sempre bastava para iluminar uma cidade. Talvez por isso, a história dos homens rebuçados não pertença apenas ao passado. Ela segue rondando a memória santista, como um aviso antigo de que também o medo faz parte da construção (e da permanência) de uma cidade.