A mansão da piscina de violão que o tempo apagou

Dona “Déa” posa na frente da famosa piscina com formato de violão, símbolo da casa de veraneio de Carlos Caldeira.

A antiga casa de veraneio de Carlos Caldeira, símbolo de modernidade em Santos, resiste hoje apenas nas recordações de uma infância marcada por encantos e descobertas.

Santos, 12 de abril de 1976. A luz do sol batia de frente sobre os amplos vidros da elegante construção moderna que reinava nos lados da Ponta da Praia, na Avenida Bartolomeu de Gusmão, 108, espalhando reflexos tão intensos que quase ofuscavam quem ousava encará-los por muito tempo. O casarão parecia inteiramente feito de claridade, como se o próprio dia tivesse escolhido habitá-lo, atravessando suas salas, corredores e varandas com uma naturalidade luminosa. À frente, bem perto dali, o mar devolvia o brilho em ondas tranquilas, e tudo acabava se confundindo em uma mesma composição, céu, água e vidro, formando uma paisagem que se repetia infinitamente.

Tal cenário, que um dia esteve presente aos olhos da cidade, infelizmente se apagou da paisagem santista, mas permanece ainda vivo na memória daqueles que tiveram o privilégio de atravessar seus portões para conviver com seu proprietário, o empresário e ex-prefeito de Santos, Carlos Caldeira Filho (1979/1980), dono do extinto jornal Cidade de Santos e figura singular na vida pública local nos anos 1960/70 e 80. E, dentre tantas lembranças, as mais emotivas, que este colunista conheceu recentemente, são as de Tânia Moraes, uma neta que o casal Caldeira (dona Leodéa e seu Carlos) adotou no coração no comecinho dos anos 1970, uma menina que teve o privilégio de viver momentos mágicos na casa de veraneio do seu querido vovô, em Santos.

Fonte luminosa inspirada na fonte da 6ª Avenida, em Nova Iorque

A primeira lembrança, ainda vaga, é daquele outono de 1976, quando contava com apenas quatro anos de idade e percorria o vasto jardim com passos curiosos, mas sempre sob o olhar atento dos adultos. Afinal, o mais difícil era conter o ímpeto e o encanto infantil diante de uma piscina, veja só, construída em formato de violão! E que tinha ainda escorregador e tudo o mais! Posicionada na parte frontal da casa, o lugar era um verdadeiro espetáculo para os que entravam ali pela primeira vez. A pequena Tânia, sempre que pôde, a observava com fascínio, ora de longe, ora se aproximando com cautela.

Mas a piscina era apenas uma das atrações daquele icônico conjunto arquitetônico que parecia querer surpreender a cada virada de olhar. O casarão dos Caldeira era dotado de colunas revestidas com pastilhas claras, que sustentavam uma ideia de modernidade ainda pouco comum para o período. Havia, sim, muita influência do amigo Niemeyer, que, aliás, era muito próximo do dono da casa. No térreo, a vida se desenrolava em constante movimento: a cozinha sempre ativa, a mesa de jantar pronta para receber muitos, a sala de jogos carregada de expectativa e risos. Tudo se interligava, tudo permanecia à vista, como se os espaços compartilhassem o mesmo tempo e a mesma energia.

No andar superior, duas suítes amplas se abriam para uma varanda que contornava todo o pavimento, lembrando o convés de um navio. Dali, o horizonte praiano se oferecia livre, e o mar, mais próximo. O próprio Caldeira confidenciou inúmeras vezes o prazer que sentia de estar naquele ponto da casa, onde tinha a impressão de estar sempre em travessia marítima, mesmo permanecendo em terra firme.

Ao redor do casarão, o verde se impunha com elegância. Jardins bem cuidados envolviam a construção, enquanto um pequeno bosque separava a casa principal da dos fundos, criando uma transição interessante entre os espaços. No centro do cenário verde, destacava-se uma fonte “dente-de-leão”, inspirada em um modelo existente na época na Sexta Avenida, em Nova Iorque. Esta peça de arte, podemos dizer, à noite ganhava iluminação colorida e lançava reflexos vibrantes sobre o entorno. Palmeiras imperiais, erguidas na entrada e ao longo das laterais, completavam a paisagem, conferindo imponência e um certo ar solene à residência.

As lembranças que vieram depois

Alguns anos mais tarde, no fim daquela mesma década de 1970, Tânia passou a construir memórias mais sólidas. Nessa época, já morava com os avós em São Paulo e, sempre nas férias escolares, descia a Serra do Mar para viver suas aventuras no casarão vizinho ao Escolástica Rosa.

Quando havia festas, primos próximos preenchiam os dias com brincadeiras intermináveis, e a casa, com seus espaços abertos e jardins vastos, parecia não ter limites para a imaginação. Cada canto guardava a possibilidade de uma nova história.

A “piscina de violão”, claro, era sempre o centro dos encantos, e para lá que os olhos da pequena Tânia corriam logo pela manhã, enquanto ainda saboreava as torradas com manteiga e observava, à distância, o movimento da casa. Já os domingos, esses tinham um ritmo próprio, principalmente nos períodos de Carnaval. Do portão, era divertido assistir ao desfile do Banho da Doroteia e ver a alegria tomar conta da rua, enquanto curiosos se penduravam nas grades, riam alto e pediam, em tom de brincadeira, um mergulho na piscina.

Na Páscoa, o jardim se transformava em cenário de caça aos ovos, e as descobertas vinham acompanhadas de gritos e gargalhadas.

O bosque que existiu no terreno.

Entre sustos e encantamentos

Mas o lugar também oferecia seus pequenos sustos. À noite, sempre depois das sessões de filmes de terror, a travessia até os quartos dos fundos exigia coragem. Era preciso atravessar o bosque correndo, rindo e tentando afastar o medo que insistia em acompanhar cada passo. Em algumas ocasiões, morcegos invadiram os espaços abertos, obrigando todos a se esconderem sob as mesas. O susto vinha rápido, mas logo se transformava em risada.

Havia também momentos mais silenciosos, como o encontro com os passarinhos que, enganados pela transparência das paredes, não percebiam o vidro e caíam ao redor da casa. Era uma tristeza breve, mas marcante, que contrastava com a alegria constante daquele lugar.

Caldeira e Dona Déa descansando na sala envidraçada.

E são histórias como essas, que parecem inacreditáveis, como o episódio em que bombeiros, chamados para retirar marimbondos das árvores, acabaram sendo atacados e se jogaram na piscina em meio ao inesperado, que tornam algumas lembranças afetivas da cidade.

Carlos Caldeira veio a falecer em 1993. Leodéa faleceu antes, em março de 1989. Nessa época, a casa já não tinha mais o brilho de antes. Tânia cresceu, casou-se, teve filhos, e hoje a memória da Casa com piscina de violão, da fonte luminosa, do bosque misterioso, são apenas algumas que se somaram a tantas outras lembranças produzidas por espaços icônicos da cidade, que simplesmente desapareceram por deixarem de viver sua essência.

O espaço, hoje

Nos anos 1990, a família de Caldeira alugou o terreno com a casa para que fosse erguido uma loja do MacDonalds. Exceto pela vegetação, todo o resto desapareceu e se mantém até os dias presentes.

 

A pequena Tânia, em 1983, na casa do vovô Caldeira e vovó Déa.