Uma reportagem publicada há mais de 126 anos oferece um curioso retrato de Santos na passagem do século XIX para o XX. Intitulada “A cidade de Santos (Brasil)”, a matéria apareceu na edição nº 23 da revista ilustrada Brasil-Portugal, datada de 1º de janeiro de 1900. O exemplar, cuja capa traz justamente a celebração da chegada do novo ano, ajuda a situar com precisão este interessante achado localizado durante as pesquisas do Memória Santista.
A reportagem apresenta Santos como uma das cidades mais “laboriosas e importantes” do Brasil, destacando sua proximidade com São Paulo, a ligação pela estrada de ferro Santos-Jundiaí, os edifícios públicos, hospitais, igrejas, teatros e, principalmente, o porto. O movimento de navios nacionais e estrangeiros, as conexões marítimas com cidades europeias e a força das exportações aparecem como elementos centrais daquela Santos que entrava no século XX já reconhecida por sua importância comercial.
Mas são algumas informações aparentemente secundárias que tornam o documento especialmente saboroso para quem acompanha a história da cidade. Uma delas surge logo no começo: a revista afirma que Santos foi fundada em 1545. A informação contrasta com a data que acabou consagrada e é celebrada atualmente pelo município, 26 de janeiro de 1546, associada à elevação do povoado à condição de vila. O registro de 1900 mostra que, naquele período, a cronologia das origens santistas ainda podia aparecer impressa de maneira diferente daquela que posteriormente se consolidou na memória oficial da cidade.
Outra peculiaridade está na seleção dos personagens apresentados como orgulho de Santos. A revista cita nominalmente Bartolomeu Lourenço de Gusmão, chamado de “célebre inventor do aeróstato”; o poeta Xavier da Silveira; o Visconde de São Leopoldo, lembrado como fundador do Instituto Histórico do Brasil; e Frei Gaspar da Madre de Deus.
Curiosamente, José Bonifácio de Andrada e Silva não recebeu uma menção individual. O santista que hoje ocupa posição central na memória nacional como Patriarca da Independência aparece apenas incorporado à expressão “os três Andradas”, ao lado dos irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco. É um detalhe pequeno, mas revelador da maneira como os personagens históricos eram hierarquizados naquele momento. Enquanto alguns nomes hoje menos presentes no imaginário popular foram destacados individualmente, José Bonifácio foi apresentado simplesmente como integrante da célebre família Andrada.
A própria data da publicação dá ao documento um sabor adicional. Era 1º de janeiro de 1900. Naquele primeiro dia do ano, a Brasil-Portugal apresentava aos seus leitores uma Santos marcada pelo café, pelo porto, pelos navios, pelos bancos e pelas grandes casas comerciais, mas também orgulhosa dos homens que havia dado à história brasileira. Uma cidade reconhecível para nós em muitos aspectos e, ao mesmo tempo, suficientemente diferente para mostrar como a própria maneira de contar a história de Santos também mudou ao longo dos últimos 126 anos.
TRANSCRIÇÃO DA REPORTAGEM
A cidade de Santos (Brasil)
Estamos na presença de uma das mais laboriosas e importantes cidades do Brasil. Cerca de 80 kilometros a separam de S. Paulo, a formosa capital do Estado, e com ella communica pela estrada de ferro de Santos a Jundiahy, ao centro da qual se eleva a serra do Cubatão, alcantilada, pittoresca, grandiosa.
A Santos, fundada em 1545, apenas em 1839 foi concedido o titulo de cidade. E bem cabido foi, porque em Santos se concentra tudo o que constitue uma cidade moderna. Excellentes edificios publicos como a alfandega, a camara, o arsenal, o hospital, que é um dos melhores do Estado, e que a Misericordia sustenta e o da Beneficencia portugueza, theatros, egrejas magnificas como a matriz dedicada a Nossa Senhora do Rosario, e residencias particulares que provam ao mesmo tempo o gosto e a fortuna dos proprietarios. Mas o que acima de tudo valorisa a cidade é o seu magnifico porto, a 10 kilometros da bahia de O. Abre direitamente para o Oceano abrangendo uma area de 36 kilometros quadrados.
Todos os annos centenas de navios nacionaes e estrangeiros visitam o porto de Santos, cuja importancia tem augmentado na proporção do seu vasto movimento commercial. Além dos portos brasileiros dá communicação directa e a vapor com os portos europeus de Lisboa, Liverpool, Bordeos, Londres, Havre, Hamburgo, Bremen e ainda outros.
Para se fazer ideia do florescimento commercial que o porto de Santos attingiu, bastaria desfiar algarismos por esta columna. Seria sufficiente, para não occupar espaço com longas estatisticas, dizer a cifra attingida em alguns annos com a exportação e reexportação de generos, em que o primeiro logar é occupado pelo café. Vem depois o algodão, o tabaco e outros artigos. A producção do café nas varias regiões do Estado era em tal quantidade, que muito contribuiu para a baixa de preço que elle tem ultimamente soffrido. Essa razão e a da concorrencia de fóra do Brasil bastam a explicar a crescente e triste depreciação no valor de um genero que tem constituido a maior riqueza do Brasil.
Tão importante commercio torna a praça de Santos uma das mais consideradas e valiosas. A sua associação commercial, os seus varios estabelecimentos bancarios estrangeiros e nacionaes, as suas vastas casas de commissões de algodão e de café, de negociantes de importação e exportação, as suas agencias de seguros e os seus muitos estabelecimentos de commercio a retalho, tudo isso, em resumo, dá a Santos fóros de uma grande cidade, que pelo trabalho se tem elevado e desenvolvido e na qual teem representantes consulares, senão todos, quasi todos os Estados europeus e americanos. Alem de ser a segunda cidade do Estado de S. Paulo, e o seu emporio commercial, Santos orgulha-se tambem de ser a patria de homens illustres que altamente contribuiram para a gloria do Brasil. O padre Bartholomeu Lourenço de Gusmão, celebre inventor do aerostato, nasceu em Santos, que tambem foi berço do mallogrado poeta Xavier da Silveira, do notavel fundador do Instituto Historico do Brasil, o visconde de S. Leopoldo, de Fr. Gaspar da Madre de Deus, dos tres Andradas e de tantos outros cujos nomes são o orgulho da laboriosa cidade brasileira.

